“No dirigismo desportivo, a presença das mulheres continua a ser uma miragem”

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Tem 32 anos de Jogos Olímpicos, 40 no desporto, e somou a isto, em 2013, a vereação na Câmara Municipal de Braga. Ser mulher num mundo dominado por homens foi uma luta. A mesma que terá imprimido garra ao carácter de uma das figuras mais importantes do atletismo português, no geral e no feminino: Sameiro Araújo.

O que tem mudado na visão dos dirigentes desportivos quanto ao lugar da mulher no atletismo?

Tem evoluído muito positivamente. Quando iniciei a prática desportiva não foi tarefa fácil. Em casa tinha uma grande oposição da minha mãe; por parte da população também. Quer eu quer as minhas colegas éramos insultadas, mandavam-nos para casa trabalhar, lavar a loiça, enfim, não era de todo agradável. Estávamos no início dos anos 70 e o desporto era gerido, orientado e direccionado essencialmente para o universo masculino.

Nas duas últimas décadas, o desporto teve uma evolução contínua no âmbito das políticas públicas. Foi também importante a massificação e diversificação da prática desportiva. O reforço da participação das mulheres verificou-se não apenas nas disciplinas tradicionais (ginástica, natação e balé), como nas consagradas (atletismo, andebol, basquetebol, etc.) e nas que durante muitos anos foram consideradas essencialmente masculinas (futebol, maratona, salto com vara, râguebi ou lançamento de martelo).

Com a conquista de medalhas em campeonatos da Europa, do mundo e em Jogos Olímpicos, a mulher ganhou um protagonismo ao qual os dirigentes desportivos não puderam ficar indiferentes.

Enquanto treinadora, considera mais difícil ser-se mulher no meio desportivo?

Já não sinto tanta discriminação, mas não significa que deixou de existir. O universo desportivo já não é essencialmente masculino. Existem muitas atletas e começam a surgir mulheres ligadas ao treino desportivo de alto rendimento e à arbitragem. Já no dirigismo desportivo, a presença das mulheres continua a ser uma miragem. São raríssimos os casos de mulheres dirigentes.

Enquanto treinadora de atletas de alta-competição, sou tratada da mesma forma que os meus colegas homens. Mas para chegar a esta situação a luta foi enorme. Para ser respeitada e o meu trabalho ser reconhecido, não tive apenas de ter resultados iguais aos dos meus colegas, mas superiores. Foram quase 40 anos de luta constante, de muito, muito trabalho, de quebrar barreiras e tabus.

Declarou numa entrevista ao jornal O Jogo que a maioria das mulheres é complicada a gerir emoções. Foi um obstáculo no seu percurso de treinadora?

Não diria que foi um obstáculo, antes um desafio. As mulheres, na generalidade, são mais emotivas mas são também mais lutadoras, têm um espírito de sacrifício notável e entregam-se totalmente na persecução dos seus objectivos. As coisas mais difíceis sempre foram mais atractivas para mim.

Treinou Dulce Félix, Jéssica Augusto, Manuela Machado, Fernanda Marques, Albertina Machado, Conceição Ferreira. O Sporting Clube de Braga foi uma fábrica de estrelas?

Foi, sem sombra de dúvida, uma escola de campeãs, por onde passaram atletas que se sagraram campeãs do mundo e da Europa. O SC Braga – o meu clube de sempre – venceu a Taça dos Clubes Campeões Europeus 14 vezes, e foi uma verdadeira escola de atletismo. A grande maioria destas atletas iniciou aqui a sua prática, fizeram-se campeãs neste clube, que, nessa altura, não se limitava a contratar atletas já feitas, como acontecia noutros clubes. O meu querido amigo e mestre Prof. Moniz Pereira costumava dizer que a pista de Alvalade era a universidade do atletismo. E eu brincava e dizia que Braga e a pista do Estádio 1.º de Maio eram a primária, a secundária e a universidade do atletismo feminino.

Mas o clube também deixou escapar muitas atletas de valor. Como se contraria esta tendência?

Após os anos 2000, o SC Braga deixou de investir na modalidade. Começou a formar atletas e quando estes atingiam níveis competitivos elevados, o clube deixava de investir e os atletas viam-se quase na obrigação de partir. Sim, porque a alta competição exige profissionalismo a todos os níveis. A tendência poderia ser invertida se houvesse uma verdadeira aposta na modalidade e um maior investimento.

O que espera de atletas como Dulce Félix, Jéssica Augusto ou Vanessa Fernandes – a revelação na maratona – nos Jogos Olímpicos?

Tanto a Dulce como a Jéssica são duas grandes atletas com currículos invejáveis. Delas podemos esperar tudo e estou convicta de que vão dar muitas alegrias aos portugueses. Quanto à Vanessa, outra atleta de eleição, o resultado dela na maratona não me surpreendeu. Qualquer pessoa que estivesse atenta teria a noção de que o que ela fez estava perfeitamente ao seu alcance. Julgo que poderá evoluir muito nesta disciplina, se essa for a sua opção definitiva.

Neste momento, estou focada na preparação da Dulce e da Filomena [Costa], que já têm mínimos para a maratona, e em mais três atletas [Tiago Costa e Ricardo Ribas na maratona e Paulo Rosário nos 1 500 metros] que também têm todas as hipóteses de conseguir esse mesmo objectivo.

O que falta no atletismo feminino para que possa voltar às medalhas de ouro?

Essa questão não se coloca no feminino ou masculino. Portugal tem atletas com talento, tem treinadores competentes. A questão principal prende-se com a política desportiva do país. O desporto escolar é extremamente importante. É na escola que tudo começa, ou melhor, deveria ser na escola. Para isso temos de ter professores motivados, escolas bem equipadas, com horários condizentes com a prática desportiva. Como queremos conquistar medalhas quando o horário curricular das aulas de Educação Física diminui? Quando o número de crianças obesas aumenta e ninguém parece preocupar-se com isso? Quando os nossos jovens são estimulados a preocupar-se apenas com o Português e a Matemática, nas médias de acesso ao Ensino Superior, em detrimento do Desporto, das Artes, da Música, etc.?

As pessoas parecem alhear-se de tudo isto e depois, de quatro em quatro anos, preocupam-se com a conquista de medalhas. É necessário muito talento, muito trabalho, muita competência, muita dedicação, muita superação!

Assumiu em 2013 a vereação do Desporto em Braga. Que bagagem lhe deu a experiência de treinadora para ocupar este lugar?

Mais do que a experiência enquanto treinadora, a minha vivência desportiva foi muito importante. Também fui atleta, árbitro, dirigente e não apenas no atletismo. O desporto deu-me a competência de provocar o despertar para uma responsabilização consciente do concelho na construção de um processo de desenvolvimento desportivo.

Braga terá em Fevereiro a sua primeira meia maratona. Não é tarde para uma cidade com tradição desportiva?

Durante muitos anos, Braga esteve ausente das grandes manifestações desportivas populares. Quando tomamos posse, quisemos dar uma dinâmica diferente à nossa cidade, quisemos torná-la ecléctica quer ao nível da prática desportiva quer ao nível da realização de grandes eventos de massas e de alta competição. Assim, o município assumiu a organização da São Silvestre de Braga que dos cerca de 400/500 participantes passou a contar com mais de 3 000. Organizámos a Corrida de São João, também com milhares de participantes. Finalmente, consideramos estarem reunidas as condições para organizar a 1.ª Meia Maratona de Braga. Quisemos primeiro dar competências desportivas aos bracarenses, incentivá-los à prática da actividade física, à corrida.

Que sonhos ainda tem por concretizar, no desporto e fora dele?

Sem dúvida que o sonho que persigo e que ainda me tem mantido na modalidade é o objectivo maior de qualquer treinador: a conquista de uma medalha olímpica. É este o sonho pelo qual luto todos os dias.

Programas para uma Braga activa

Para todos: programa “Mexe-te Braga” – de Abril a Outubro, ao sábado à tarde, uma associação ou clube divulga e pratica uma modalidade desportiva (desde patinagem ao voleibol), convidando a população a aderir. Ao domingo, fruto de uma parceria com os ginásios, há aulas de fitness no Complexo Desportivo da Rodovia.

Para crianças: programa “Os piratas vão à piscina” e turmas de natação

Para adultos: Programa Nacional de Marcha e Corrida e turmas de natação

Para seniores: programas BragAtiva, Natação Sénior e Bócia sénior.

Para doentes oncológicos: programa Pulsar.

Para pessoas com deficiência: será lançado brevemente um novo programa