“No trail é tudo mais agreste”

11349
Atitudes para atenuar os efeitos do frio na corrida
15 October, 2015
Cuidados a ter no uso de suplementos alimentares
15 October, 2015
DSC_0649

No início de um Outubro com demasiada chuva, encontrámos Ester Alves no mítico Café Piolho, no Porto. Chega de bicicleta e diz-nos que o Trail da Serra d’Arga, em Setembro, tinha sido a última prova do ano. “Preciso de descansar.” Duas semanas depois, encontrámo-la no Ultra Trail das Aldeias do Xisto, onde foi a primeira mulher a cortar a meta, pela segunda vez consecutiva. “Tu é que és maluca”, comenta um amigo minutos antes da partida. Ester cora, como por algumas vezes durante a entrevista. A trança loura sobre o ombro e a pele frágil montam mais a imagem de uma bailarina do que de caçadora de montanhas. Está a concluir o doutoramento em Patologia Genética Molecular, não consegue estar parada e não vê televisão. Este ano, aprendeu que levar cábulas dos percursos é uma grande ajuda nas corridas. Por isso, o trail não lhe está só no sangue, como no resto do corpo, marcado a caneta.

Texto: Rute Barbedo

Antes do trail, praticaste remo e ciclismo, com óptimos resultados. Por que decidiste mudar para as corridas?

No ciclismo, por exemplo, estava numa equipa no País Basco. Éramos 15 mulheres e havia muita estratégia. Mas depois decidi dedicar-me ao doutoramento e não dava para conciliar. Comecei então no trail, que é algo que depende só de nós, da gestão nas provas longas, da gestão da comida, do esforço, do treino. E, para além da parte física, temos de ser muito resistentes na parte mental, na superação do frio, do medo, do cansaço.

As três práticas têm algo em comum: o contacto íntimo com a natureza.

Sim, o remo, o trail e o ciclismo têm isso. O remo foi o primeiro desporto de competição que tive, em que passei por sítios lindíssimos. Ainda assim, muitos deles são artificiais. E no ciclismo também há o alcatrão… No trail é tudo muito mais agreste, não há toque humano.

O que te atrai nesse duelo com o mundo?

Às vezes chega mesmo a ser um duelo, porque quando estamos em provas de trail, temos de superar as mudanças de clima, as alterações de altitude… Podemos começar uma prova com chuva e frio e umas horas depois a situação está completamente alterada. Mas temos de estar preparados para tudo.

Como reagiste às adversidades nas primeiras provas?

Muito mal. A primeira prova que fiz foi o Madeira Island Ultra Trail, de 115 km [em 2012]. Atirei-me de cabeça e dei de caras com rápidas alterações de temperatura, muita humidade no ar, grandes desníveis. Senti no corpo toda a agressividade da natureza. Mas a única coisa que me preocupava era chegar ao final, para depois evoluir e superar os erros.

Qual foi o teu tempo na Madeira?

Foi muito mau [sorri, envergonhada]… Foram 24 horas.

Este ano venceste a prova, na categoria de seniores femininos. A grande diferença está em antecipar o percurso?

Sei como superar um obstáculo antes de lá chegar. Depois, enquanto nas primeiras experiências eu descansava imenso nos abastecimentos, hoje consigo gerir muito melhor a alimentação e o cansaço, e quase não paro.

Estás a concluir o doutoramento na Faculdade de Medicina do Porto. É difícil conciliar a investigação com o trail?

O trail ocupa uma enorme fatia da minha vida. É uma paixão que se tornou demasiado grande, mas desde que eu consiga tirar frutos disso, é gratificante. É claro que de vez em quando ouço a minha orientadora [de doutoramento], ou porque me atrasei na entrega de algum relatório ou porque não entreguei o protocolo no dia X… E acabo por colher as consequências da paixão com que me dedico ao trail.

De que forma essa entrega compensa?

Há uma enorme satisfação em superar cada desafio. Muita gente me pergunta se ganho dinheiro com o trail. Não ganho. Se no futuro me vejo a ser profissional de trail? Também não posso criar expectativas sobre isso. Mas só a satisfação e as experiências que colhemos dos grandes desafios, como foi para mim este ano o Ultra Trail du Mont–Blanc [onde foi oitava lugar entre as mulheres], valem a pena. São momentos que irei recordar aos 80 anos.

A escassez de apoios no trail impede-te de tornar a corrida a tua ocupação principal?

Essa é a pior parte das minhas duas paixões. No trail, se quiser fazer o circuito mundial, terei de gastar uma média de 2 000 euros, mas em Portugal há muito pouco apoio. Temos de pedir a várias fontes, com esforço. Ao nível do doutoramento, foram cortadas imensas bolsas e eu fui uma das afectadas. Muitas vezes dependemos da família, de explicações que conseguimos dar aqui e ali, mas não é fácil.

O crescimento do trail pode modificar este cenário?

Espero que sim. A adesão das pessoas ao trail é incrível! Mas também é uma questão de a crise permitir que algumas marcas e entidades apoiem os atletas. Conheço pessoas que tiveram de emigrar para fazer o que gostam…

Já te passou pela cabeça sair do país?

No ciclismo tive mesmo de o fazer.

Como era a Ester antes de tudo isto, em adolescente? Comia batatas fritas e fumava cigarros?

[Sorri, envergonhada] Não, isso nunca aconteceu… Quero dizer, há sempre momentos um bocadinho fora do normal… Muitos deles foram passados aqui, no Piolho, mas foram esporádicos, porque embora eu acompanhasse algumas farras, depois dava conta que aquilo não era para mim. No dia a seguir, queria treinar e não conseguia porque me doía a cabeça [risos].

E a Ester do futuro? Até onde quer ir?

Tirando eu, muitas das mulheres (se não todas) que estão no top 10 mundial têm apoio monetário e de equipamento. Mas embora eu não tenha as mesmas condições, tenho uma grande vontade de chegar lá à frente.


A pequenez de uma pessoa na imensidão de uma montanha

“É incrível e não se explica. No Monte Branco, uma prova de 168 km, temos de acelerar muito no início para nos destacarmos do pelotão. Quando chegamos ao final de oito quilómetros, pensamos: ainda temos de fazer mais 152! Mas os problemas vão-se ultrapassando.

É preciso estudar a prova, saber a que quilómetro vamos começar a subir, quantos cumes é que vamos fazer, a que altitudes vamos estar, onde existem os abastecimentos… Muitas vezes não temos fome, até porque em altitude sente-se muito enjoo, mas temos de comer. E não podemos abrandar muito. Caminhamos nas subidas mais exigentes, onde há pedras grandes e não dá para ir a trote, mas de resto há que tentar correr sempre, mesmo que o cansaço venha. No trail, diz-se que muitas vezes morremos e depois renascemos, e há mesmo muitos momentos assim.”