Nuno Silva: “Corri 90% com a cabeça e dez com o coração”

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Quando Nuno Silva chegou sob o sol de Agosto a Chamonix, ao cabo de 168 km de declives, o quadro geral marcava o 12.º lugar. O atleta de 30 anos, natural de Pombal, foi o segundo português a cortar a meta do Ultra Trail du Mont Blanc (atrás de Carlos Sá, oitavo classificado), uma prova para poucos.

Texto: Rute Barbedo

Como surgiu o trail na tua vida?
Isto do mundo das corridas surge da necessidade de fazer algo. Após ter jogado futebol de 11 a nível distrital, a equipa acabou e tentei jogar noutras equipas, mas a universidade e o não haver uma ligação entre os restantes elementos fez com que desistisse… Então comecei a correr à noite, duas vezes por semana, um circuito de oito quilómetros. Com o tempo, a distância e a frequência foram aumentando. Fiz isto cerca de três anos. Nem sequer pensava em provas, na altura.

Depois, por influência de um amigo, fui para o BTT. Fiz umas três provas, ou seja, até a bicicleta aguentar, e voltei novamente às corridas. Em 2008, fiz a minha primeira prova: a Meia Maratona de Pombal, em 1h31m12s. Fiz mais umas quantas provas, experimentei também as corridas do Circuito Nacional de Montanha, que adorei, mas era muito estradão, alcatrão e muito curtas em termos de distância. Até que, em 2010, fiz o I Trail Terras de Sicó, de 30km, em Condeixa-a-Nova. Adorei tanto que, a partir daí, comecei a procurar mais provas de trail e a diminuir a participação na estrada.

O que te atraiu neste tipo de prova?
O contacto com a natureza, a diversidade de terrenos e ritmos, a diversão que é fazer uma descida técnica… Uma prova nunca é igual, mesmo sendo no mesmo local, porque são provas de endurance, levam-te a superar os teus limites, ou seja, no fim de contas, fazem-te sentir vivo.

Em Agosto, alcançaste o 12.º lugar no Ultra Trail du Mont Blanc, uma experiência dura e única. Como conseguiste chegar aqui?
Treino, muito treino… E a ajuda e apoio de alguns amigos.

Como o Carlos Sá, com quem partilhaste uma grande cumplicidade durante a corrida?
O Carlos e eu acabamos por fazer grande parte da prova juntos. Apesar de termos treinado juntos nas duas últimas semanas [antes do ultra trail], não tínhamos combinado nada. As coisas simplesmente foram saindo assim. No fim, acho que ambos beneficiamos com isso.

Dois portugueses juntam-se para percorrer o Monte Branco. Isto é portugalidade? É importante para ti correr por um país?
Eu, pessoalmente, corro por mim, mas é claro tenho orgulho em ser português e quando corres lá fora és logo identificado pelo teu país. Como é óbvio, gostas de o representar da melhor maneira possível. Mas acima de tudo, foste representar bem a comunidade de trail running portuguesa.

Quais foram os pensamentos e sensações que mais te acompanharam durante a corrida?
Sendo uma prova que fiz 90% com a cabeça e dez com o coração, o meu único pensamento era cumprir o meu objectivo de tempo e terminar [o percurso]. Ter partilhado muitos quilómetros com o Sá, com a Rory Ross e ter chegado à meta foram os melhores momentos durante a prova. Mas a sensação de liberdade e de iteração com as paisagens foi o que mais me marcou.

Quais são as próximas metas?
A curto prazo, quero acabar os circuitos nacionais de trail e de ultra trail. Depois, é tentar pontuar no Ultra Ttrail World Tour de 2015, se houver apoios, e consolidar às 100 milhas.

E até onde vês o teu corpo chegar?
Não sei, mas tendo em conta o que vejo de outros atletas e o que tenho à minha disposição a nível de treino, acredito que ainda poderá ir um pouco mais longe.

Tal como tu, muitos atletas começam no trail por divertimento e experimentação. Agora que se assiste um crescimento evidente do número de provas, as opções são muitas. De onde te parece vir esta vontade colectiva em relação ao trail?
Talvez venha da necessidade de as pessoas estarem em contacto com natureza, talvez um pouco impulsionada pelo que fazem alguns atletas a nível nacional e internacional. Não sei… Mas uma das coisas negativas desse crescimento é o aparecimento de um número elevado de provas, muitas vezes de fraca de qualidade e organizadas por pessoas que não têm a mínima noção de trail, para as quais não há atletas suficientes.

Se os organizadores precisam de partir para a acção com mais conhecimento, por outro lado, que perfil traçarias para um trail runner?
O trail runner é alguém persistente, resiliente, que adora desafios, com uma vontade imensa de saber e descobrir mais, alguém que se importa com o outro e que, acima de tudo, adora estar em contacto com a natureza.