O coração que sustenta a máquina

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Chegou ao trail “oficialmente” em 2013 e já todos lhe chamam “a máquina”. A RUNning acompanhou a campeã nacional de ultra-trail na Azores Trail Run – Triangle Adventure e descobriu o segredo do sucesso de Lucinda Sousa: o tamanho do coração.

Vanessa Pais

Quando a RUNning se cruzou com Lucinda Sousa, vestida “à civil”, sem a pala e a saia, no Aeroporto da Portela, no final de Outubro, de partida para os Açores, dificilmente a associaria à campeã nacional de ultra-trail. Mas a companhia de Armando Teixeira e de Miguel Reis e Silva, que também participaram na Azores Trail Run – Triangle Adventure, denunciaram-na. Ali estava “a máquina” que domina a montanha com o mesmo à vontade com que desempenha as exigentes tarefas diárias de mãe e de professora.

Sobre a história de Lucinda Sousa, a ultra-campeã de 44 anos, natural de Gondomar, actualmente ao serviço do Gondomar Futsal Clube e apoiada pela La Sportiva, já muito se escreveu, principalmente pela surpresa da sua chegada ao trail em modo de vencedora. Apesar de correr há 20 anos pelos montes, só em 2013 se aventurou na competição e ganhou a primeira prova em que participou (I Trail de Santa Iria); a primeira distância de três dígitos (Madeira Island Ultra Trail [MIUT]), em 2014; ficou em 7.º lugar na sua primeira prova internacional (La Grancanaria 2015); e foi a melhor portuguesa no Campeonato do Mundo de Trail Running, em Annecy, França, em 2015, e no Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB), também em 2015.

Não fosse o trabalho desenvolvido enquanto professora de Educação Física do ensino especial, no Agrupamento de Escolas de São Pedro da Cova, bem como o muito que já se conhece sobre a forma dedicada como cuida da família, questionávamo-nos se seria humana. Mal sabíamos, ali no aeroporto, que estávamos a poucas horas de conviver, durante os três dias seguintes, com essa humanidade que faz de Lucinda campeã em todos os papéis que desempenha.

Disponível para ensinar e incentivar

Durante três dias sentimos na pele a asa protectora da mãe, professora e amiga, sempre disponível para ajudar e partilhar o seu conhecimento e experiência, e a cumplicidade da atleta que fala de igual para igual, esteja na presença de um profissional da modalidade ou de um curioso a dar os primeiros passos na montanha. Não estranhamos, por isso, quando lhe pedimos para definir a importância do trail na sua vida, que nos tenha respondido: “O trail tem–me possibilitado evoluir muito enquanto ser humano, nomeadamente desenvolvendo valores como a superação, o sacrifício, a resiliência, a determinação, o companheirismo, a solidariedade, a amizade ou respeito, entre tantos outros.”

Toca o telefone. Era o filho mais velho, de 14 anos. A ternura de Lucinda viu-se nos olhos e sentiu-se na voz, mesmo quando estava meticulosamente a dar-lhe instruções, extensíveis ao irmão de 13 anos, para os próximos dias. “Normalmente sou eu que cuido de tudo, com a ajuda da família, claro, desde a preparação do pequeno-almoço e todas as outras refeições até à organização dos equipamentos – uma vez que todos praticamos desporto – e todas as tarefas domésticas chatas, mas necessárias. Por isso, o meu dia começa às 6h30 e termina, muitas vezes, já depois da meia-noite”, descreveu.

E quando está em prova, arriscámos, a família apoia. “Sim, a família apoia sempre, mas nestas alturas é uma importante retaguarda”, confidenciou. “Ah, e ainda faço serviço de táxi”, acrescentou entre risos referindo-se ao transporte dos filhos à escola e às actividades extracurriculares. Imaginamos que sejam seus fãs e que provavelmente não tentem fugir quando ralha, porque de certeza que os apanha em três tempos. “[risos] Os meus filhos adoram fazer ‘chacota’ de tudo o que envolve a minha actividade no trail, mas sei que no fundo seguem com alguma atenção, preocupação e respeito este meu percurso.”

Com disciplina se fazem campeões

No meio de tudo isto, questionamo-nos onde e como ficam os treinos. “Treino normalmente à hora do almoço ou no final do dia, durante a semana, e aos fins-de-semana aproveito para fazer treinos mais longos. Desde o início do ano, o treino é orientado pelo fundador da Armada Portuguesa de Trail, Paulo Pires, que tem sido, sem dúvida, uma mais-valia no meu desenvolvimento desportivo”, explicou. E por falar em treino, interrompemos a entrevista para nos juntarmos a Armando Teixeira, Miguel Reis e Silva, Kamil Leśniak e Alfonso Rodriguez, para uma primeira incursão pelos trilhos da Horta.

As perguntas continuaram ao jantar, no famoso Peter’s, entre “açorianinhas” (versão açoriana da francesinha) e gargalhadas. Pudemos perceber que Lucinda Sousa é dada à brincadeira, mas mantém “a distância de segurança”, e gosta realmente de quem gosta do trail. “Nutro o maior respeito e admiração, por todos aqueles que, de uma forma genuína e desinteressada, se submetem a provas que implicam uma força e determinação mental e física notáveis”, disse a atleta.

Fã de percursos técnicos, Lucinda Sousa admitiu que, quando está em prova, foca-se muito no percurso e, quando este é do seu agrado, sente-se “a pessoa mais feliz do mundo”. A ultra-campeã terminou as três etapas da Azores Trail Run – Triangle Adventure em primeiro lugar, com duas horas de avanço sobre a segunda classificada. Nunca subestimou o percurso ou os outros atletas e deu o máximo em cada etapa. Respeitou sempre os momentos de descanso, mas não ia para a cama sem organizar o equipamento para o dia seguinte, transformando o quarto numa verdadeira “aldeia da roupa branca”. Acima de tudo, divertiu-se: “As provas por etapas são, sem dúvida, a minha praia.”

Esta época está feita com distinção. Para o ano, a campeã nacional de ultra-trail quer estar presente em, pelo menos, três provas do Campeonato do Mundo: o MIUT; o Lavaredo Ultra Trail, em Itália; e o UTMB. Apesar de já ter troféus suficientes para um pequeno museu, para Lucinda Sousa “o melhor prémio é o apoio da família, dos amigos e dos conhecidos”. É por eles que o coração bate mais forte.

 

Q&A Express

Quais são os teus maiores receios quando estás em competição?

Se me vou conseguir alimentar.

 

Qual a situação mais embaraçosa?

Vomitar num abastecimento no UTMB.

 

Tens algum ritual antes de competir?

Não.

 

Estudas sempre os percursos?

Só os das provas que fazem parte dos meus objectivos.

 

O que é o trail para lá da competição?

Conhecer locais de uma beleza ímpar e estar embrenhada com a natureza.

 

Consegues ter tempo livre?

Raramente, mas ocupo-os com cinema, leitura e estar com familiares e amigos.