O espírito do Monte Branco

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Chegar a Chamonix-Mont-Blanc na semana-auge do trail é ver uma cidade transformada em ponto de atracção em todas as suas frentes. Mas não é por acaso que esta espécie de 13 de Maio em que a religião é o desporto acontece aqui.

 

Texto e fotos: Rute Barbedo

 

Na religião dos chamoniards (os habitantes de Chamonix), Deus é a montanha e as rezas fazem-se de corpo inteiro. Chegar mais perto do céu carrega consigo histórias de superação, mas também da ordem do metafísico e do espiritual. Os primeiros homens a conseguirem a proeza de alcançar o cume do Monte Branco foram Michel-Gabriel Paccard e Jacques Balmat, em 1786. Desde então, o espírito em torno da montanha mais alta da Europa Ocidental foi-se avolumando, ganhando novas formas e entrando pela sociedade.

Hoje, o ski e o montanhismo fazem parte do plano escolar na região da Saboia tanto quanto o futebol tem espaço assegurado em Portugal; e à terceira idade chega-se de bastões em punho para subir aos 3000 metros e encontrar lagos de nome Branco,Negro ou Azul. Só numa atmosfera como esta, em que se vai comprar pão de fato-de-treino e calçado montanheiro, poderia ter crescido um evento como o Ultra Trail du Mont-Blanc, acreditam os locais. O desporto está-lhes no sangue, porque é a única forma de viver (com) a montanha.

O alpinismo e o trail
O alpinismo, que assentou nos Alpes sem interregnos,não é assim tão distante da corrida em montanha. Não é por acaso que atletas como Kilian Jornet ou, no panorama português, Carlos Sá, têm no montanhismo e na escalada os alicerces da corrida. E os sonhos de ambas as disciplinas também se misturam: chegar mais longe e mais rápido, contra todas as adversidades.

Ueli Steck (1976-2017), por exemplo, foi um dos alpinistas mais rápidos do mundo. Fez o Eiger (3970 metros), nos Alpes Berneses, em 2h47m; o Monte Cervino (4478 metros), no mesmo maciço,em 1h56m; e percorreu a vertente Sul da Annapurna (8091 metros), no Nepal, em 28 horas. “Mesmo num ritmo normal”, acreditava o suíço que perdeu a vida este ano no Evereste, “subir uma montanha para a descer a seguir não tem grande sentido, se colocarmos de parte os momentos e emoções intensos que essa experiência dá a viver ao alpinista”. Não pondo nada de parte, resta isto: “É lá que encontro a felicidade”,afirmou.

Já Patrick Berhault (1957-2004), que seguia à risca o paradoxo de Lachenal – “quanto mais depressa vamos, menos tempo passamos a arriscara nossa pele” – encontrou outra forma de explicar o “efeito montanha”: “Correr no nosso jardim dá força e coragem. Tristes são aqueles que não têm o seu lugar familiar.” E Reinhold Messner, de 73 anos, é simples na verdade sobre este gigante: “A montanha não é justa nem injusta. É perigosa.” Sabe-o melhor do que muitos. Em 1970, passou três dias de errância na chamada “zona da morte” de Nanga Parbat, depois de ter regressado de uma investida sobre 8000 metros e de ter perdido o irmão Günther. Foi “o fim e o começo de tudo”, escreveu Messner.

O espírito e a segurança
O maciço do Monte Branco, onde num dia pode acontecer uma vida e quatro estações, é palco de cerca de 100 acidentes mortais por ano. Milhares de alpinistas arriscaram aqui a vida e perderam-na.Faz parte. E o mesmo está a acontecer a quem desafia a montanha em corrida. As duas mortes que antecederam o Ultra Trail du Mont-Blanc deste ano,a 15 e a 24 de Agosto, acentuaram a atenção sobre o tema da segurança.

Kilian Jornet chegou a ser acusado de exibicionismo, pelas fotografias tiradas no cume do Monte Branco com equipamento ligeiro. O atleta já reagiu de diversas formas, mas a mensagem latente é que, antes de enfrentar a montanha, é preciso conhecê-la. “Não é uma questão de prevenção, mas de educação”, declarou aos jornalistas, na semana do UTMB, frisando a importância de saber utilizar os materiais e de dominar as condições que se impõem a cada momento. “Nisso, tanto Espanha como França são muito maus. Nos Estados Unidos ou nos países escandinavos, há uma consciência muito maior sobre os riscos da montanha. Ninguém vai correr ou escalar sem grampos, por exemplo. Aqui,vemos este desporto como uma fonte de inspiração, mas ele exige muitos anos de aprendizagem, com pessoas que nos instruam. Há muito trabalho por detrás”, criticou o catalão, declarando-se “contra o acesso fácil à montanha”. Uma alternativa é o recurso a guias e entidades de formação em montanhismo e alpinismo (normalmente dispendioso mas que contrabalança a ignorância).

Nicolas Durochat, director do Posto de Turismo de Chamonix-Mont-Blanc, refere à RUNning que “a clientela que vem em excursões tem aumentado significativamente a cada Verão”, pelo que a imagem tradicional da estância de ski que ilustra os postais de Chamonix já não é a única marca do destino. O interesse turístico, que, se não contempla a corrida, envolve a caminhada, tem crescido particularmente entre espanhóis, japoneses, norte-americanos e,sobretudo, chineses. Com eventos como o UTMB ou a Maratona do Monte Branco, mas também iniciativas culturais, a diversidade de públicos desenha uma curva ascendente (no posto de turismo falam-se 11 idiomas). Mas há uma “grande diferença entre o acompanhamento feito aqui relativamente ao de uma zona balnear”, nota Durochat. “Qualquer informação que dermos pode ter consequências muito graves.”

Por estes dias, os locais de apoio ao turismo não páram de receber visitantes. Procuram mapas, rotas, lagos, querem subir à Aiguille du Midi ou entrar pelos túneis cristalizados junto ao Mar de Gelo. Mas cuidado com o jogo. Como avisou o suíço ErhardLoretan (1959-2011), que completou a saga dos 14 cumes mais altos do mundo, “os 8000 são como amendoins: nunca devemos começar”.