O gajo vai ao campeonato do mundo (se sobreviver aos treinos)

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Quando no passado Domingo, dia 16 de Outubro, do ano da graça de 2016, recebi uma enigmática sms de um amigo que, como tantos outros, saiu do país à procura de um emprego e com a pouco secreta esperança de enganar uma argentina, estava muito longe de pensar no que para aí vinha.

A mensagem dizia: “Estou cá. Não avisei ninguém. Tenho uma coisa para ti. Podemos jantar na quarta-feira?” A minha resposta foi, obviamente positiva, não conseguindo evitar a curiosidade sobre a que coisa se referia.

Imaginei, por esta ordem, o que poderia ser:

  1. Encontrou a mulher da vida dele e tem um convite de casamento para mim;
  2. Encontrou o homem da vida dele e tem um convite de casamento para mim;
  3. Encontrou o Elvis e vai casar na capela dele em Las Vegas e tem um convite de casamento para mim;
  4. Comprou-me um frasco de tinta para ficar igual ao Messi.

Aqui convém referir que ele não aderiu a nenhuma rede social e que por isso é quase impossível saber o que anda a fazer. Podia ter-lhe telefonado, é certo, mas nunca me lembrei de pedir o número de telefone à mãe.

Eis então o que se passou no jantar:

Embalados por brindes ao reencontro e umas entradas light de queijo açoriano e presunto, fomos relembrando histórias antigas e nem quase falámos sobre a vida dele numa das mais populosas cidades do mundo.

E então, na altura em que se aproxima a parte sagrada da refeição, mesmo naquela fase em que o leite-creme está a pedi-las, o Quim, sim, é esse o nome, larga a “bomba”: “Sabes o que mais me custou neste tempo todo? A falta de estar com os amigos de sempre. Em Buenos Aires conheci gente simpática, mas estes momentos da malta são diferentes. Senti-me lá um pouco isolado e então comecei a correr.”

Um pouco irritado, confesso, com o desfile das sobremesas que ia decorrendo em frente aos meus olhos, respondi-lhe de uma forma um pouco distante: “Ah! Fixe! Fizeste bem…e tal…! “.

E ele, mantendo vivo o assunto, diz a rir: “E eis que chegamos à surpresa!” Percebi sobremesa, claro, e gritei ao António para me trazer a última baba de camelo, em homenagem ao Quim.

Mas ele não desarmou e foi nessa altura que me contou que iria ficar duas semanas em Portugal e que o motivo para vir nesta altura era o Campeonato do Mundo de Trail que iria decorrer no Gerês, pois tinha-se inscrito na prova aberta ao público de 55 km.

O meu tímido assobio denotava o meu nervosismo e foi logo de seguida que a notícia chegou: “E tu também vais! Aqui tens o que te queria dar, o comprovativo da tua inscrição!”

Até a baba me caiu mal, por causa do raio do camelo.

Então isso faz-se a um amigo?

Ainda mais divertido, acrescentou que não lhe apetecia ir sozinho e que só desta forma sabia que o iria acompanhar. E para eu estar descansado que já corri em sítios piores.“Olha-me para este engraçadinho”, pensei.

Argumentei que desde uma prova nos Açores, no final de Maio, não tinha voltado a correr mais de 10 km e que há dois meses que não calçava sapatilhas de trail, porque me tinha magoado no gémeo. E o raio do puto limitou-se a responder entre gargalhadas: “Escusas de vir com tangas que todos sabem que és filho único!”

E foi desta forma, que há poucas horas soube que iria correr na prova aberta ao público do Campeonato do Mundo de Trail, que decorre no Parque Nacional da Peneda-Gerês, no dia 29 de Outubro, e que o pânico se instalou em mim.

“55 km ??????”, gritou a minha mãe do outro lado da linha telefónica. E acrescentou: “Mas agora andas de bicicleta? E esse Quim não é o que está lá para fora? Bom, mas se ele te convidou, tens de ir. “E não te preocupes com a alimentação! Sei que vais precisar de muita energia e por isso vou já fazer uma feijoada e uma lasanha, que podes cá vir buscar amanhã!”

Senti, de imediato, uma certa tranquilidade a chegar até mim. Pelo menos, nessa parte podia ficar descansado. Talvez até pedisse para amanhã, quando a fosse visitar, um macarrão com carne (todos sabem que é importante comer massa).

Estando este primeiro ponto resolvido, no caminho para casa, que normalmente, corresponde ao exercício diário, senti que tinha de voltar a treinar e que o melhor seria arranjar companhia para umas corridas. E se bem pensei, melhor o fiz e liguei de imediato a alguns amigos.

E obtive as seguintes respostas:

“Está frio.”

“Estás a gozar comigo?”

“Bora! Estou a correr a 4m10s, queres combinar para amanhã?”.

“Pode ser no Sábado de manhã? Ajudavas-me a levar umas mobílias para a casa do meu cunhado e depois corríamos.”

Como só Sábado é que voltarei a correr, a uma semana de distância da prova, tive de me motivar e vi o Rambo, mal cheguei a casa.

“That’s all folks”, que ainda tenho de fazer umas (duas) flexões antes de me deitar.