O Gajo voltou aos Açores

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Num Verão marcado pelo adeus às pistas de Mo Farah e de Usain Bolt e, acima de tudo, pela primeira desistência do Gajo numa prova de trail, o desafio surgiu em plena Festa do Avante: “Queres ir ao Triangle Adventure?”

À afirmativa resposta, seguiu-se a desagradável sensação de perceber que a vida boa dos dias, ainda longos, tinha acabado naquele instante, já que me esperavam mais de 100 km, divididos por três dias, nas nada planas ilhas açorianas do Pico, São Jorge e Faial.

Com pouco mais de um mês até à prova, defini, como objectivos, perder a saliente pança e estudar, pela primeira vez, as três etapas, para além de analisar que alimentos ingerir e em que altura.

Sei que isso é o básico para qualquer praticante de trail running, mas, até ao “Triângulo” nem me preocupava com o que levava. Comprava um gel, uma barra energética e pouco mais. Afinal de contas, havia que manter a postura de macho, que suplanta qualquer dificuldade.

Após cinco semanas de treinos orientados e de uma alimentação específica, aterrei na ensolarada ilha do Faial com o conforto de saber que a subida ao Pico, do dia seguinte, poderia ser a única das etapas em que iria participar (continuando a acompanhar a prova do lado de fora).

E foi assim que, na sexta-feira, dia 6 de outubro, quando o relógiIMG_08102017_085523o marcava 7 horas da madrugada, o barco zarpou do Faial, rumo à ilha com o ponto mais alto de Portugal.

Se o calor foi um inesperado inimigo, a subida ao Pico foi superada de forma tranquila, entre conversas com quem, tal como eu, amaldiçoava o pouco tempo dedicado ao treino e com aqueles que já haviam concluído a prova e com os quais me ia cruzando (admito que me passou pela cabeça aviar uns calduços ao que terminaram bem antes de mim).

Gajo que é gajo não se contenta com a subida ao Pico e, vai daí, já após terminada a prova, decidi subir aos 2351 metros de altura do Piquinho. Aí fui surpreendido com a performance de uns marafados moços que decidiram tirar fotos única e exclusivamente com os dorsais equipados! Sim, é isso mesmo que estão a pensar.

Hotel, jantar, conversas sobre a prova, hotel, tratar do equipamento para o dia seguinte, tentar descansar, levantar, barco, partida para São Jorge!

Antes do lindíssimo trilho das Fajãs, o segundo pequeno-almoço com o famoso queijo da ilha foi muito apreciado por todos os participantes, que logo de seguida se atiraram às… fotografias! Muitas foram tiradas: com o colega, com a campeã, com o Leal organizador e com o speaker, a sorrir ou a saltar, a fazer poses do patinho ou de campeão olímpico.

Na prova com a mais bela paisagem onde corri, os cerca de 30 km foram feitos num ritmo tranquilo, já a pensar que ainda faltava a mais longa, embora mais plana, das etapas.

A maravilhosa sopa de peixe marcou, da melhor forma, o final da prova e, confesso, até tirei uma fotografia ou outra. E provei a canja, só para não fazer desfeita à simpática cozinheira.

Hotel, jantar, conversas sobre a prova, hotel, tratar do equipamento para o dia seguinte, tentar descansar, levantar, barco, regresso ao Faial!

Ainda se afinavIMG_07102017_084906am as últimas estratégias para a noite de celebração, na parte divertida do pelotão, quando os mais rápidos partiram para a maratona final.

Absolutamente surpreendido com a energia que sentia, atirei-me, como um campeão, à subida que me levaria ao vulcão da Caldeira (a partir daí, seria quase tudo a descer). Contudo, a minha apurada visão levou-me a seguir as fitas de uma prova antiga e a andar perdido durante mais de uma hora. Confortado pelas vacas com que me ia cruzando, voltei ao trilho correcto e percorri, descontraidamente, o caminho até à meta.

O relógio marcava cerca de 110 km percorridos ao longo dos três dias, o corpo pedia um longo banho e o gajo só pensava na cerveja.

Há hábitos que não podemos (nem devemos) mudar.