“O médico veio ter comigo e disse: ‘Acabaste a tua carreira’”

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A 3 de Agosto de 1996, Fernanda Ribeiro fez o impensável nos Jogos Olímpicos de Atlanta (EUA). Numa das finais de 10 000 metros mais emocionantes da história do atletismo, a portuguesa cerrou os punhos e voou para o ouro. Fomos à Maia recordar esse momento e voltámos com vontade de comer uma francesinha.

Texto: Inês Melo      

Fotos: Paulo Jorge Magalhães

Quando regressou de Atlanta, recebeu várias cartas apenas com o destinatário: “Fernanda Ribeiro, campeã olímpica”. O que mudou na sua vida?

E muitas diziam: “Entregar onde ela estiver” [risos]. Depois da medalha continuei a ser a mesma, a ter a mesma vida. A diferença foi que passei a ser mais conhecida. É verdade que já tinha sido campeã do mundo em 1995, mas os Jogos Olímpicos… Muitas vezes até tinha vergonha quando as pessoas se aproximavam de mim.

Disse várias vezes que foi a corrida da sua vida, mas podia ter sido a corrida da vida da atleta chinesa Wang Junxia. É verdade que esteve para terminar a carreira nesse ano?

O ano de 1996 foi muito complicado. Comecei a ter problemas sérios nos tendões de Aquiles em 1994. No ano seguinte ainda fiz várias competições, bati o recorde do mundo e ganhei duas medalhas. Em 1996 estava com muito mais dores, mas completamente concentrada em Atlanta. Apostei tudo num estágio em Manaus (Brasil), para me adaptar à humidade – foi a primeira e a última vez que treinei no estrangeiro. As coisas até correram bem, mas no último dia tive tantas dores que não consegui acabar o treino. O médico veio ter comigo e disse: “Acabaste a tua carreira, não dá para correr mais.” Estávamos a quatro meses dos Jogos Olímpicos. Vim para Portugal a chorar, com a certeza de que nunca mais voltaria a correr.

Depois de uma notícia dessas, como é que se dá a volta?

Nessa altura fui muito apoiada pelo Dr. Paulo Beckert e pelo fisioterapeuta João Sobral. Mas quando uma pessoa ouve que nunca mais vai correr na vida, não é fácil meterem-nos na cabeça que vamos conseguir – e eu tinha dores terríveis. Levantava-me de manhã agarrada às paredes, era muito complicado. Entretanto, como era atleta do Futebol Clube do Porto, deixaram-me ser tratada pelo departamento médico do futebol. O enfermeiro Rodolfo Moura disse-me que eu tinha de acreditar e voltei. Não tinha domingos nem feriados. Vinha todos os dias treinar para a Maia, saía para o tratamento e voltava para os treinos.

Quando chegava a casa, o cansaço fazia esquecer o desespero?

Não, havia sempre muito desespero. Muitas vezes deitava-me, sozinha, apagava as luzes e tentava imaginar que a dor estava a sair pela ponta dos dedos dos pés. Tinha de me agarrar a alguma coisa. Por isso é que a pista do Estádio da Maia é tão importante para mim, porque foi aqui que treinei e que chorei bastante. Muitas vezes o meu treinador dizia: “Chega, não vamos fazer mais.” E eu respondia: “Não, se são 20 vezes 400 metros é isso que eu vou fazer.” Ele virava as costas e as lágrimas também lhe caíam.

Já em Atlanta, a véspera da final foi passada no departamento médico.

É verdade, saí de lá à meia-noite. Em Atlanta, fazia tratamento duas vezes por dia, mas apesar de estar lesionada tinha muita confiança, porque o treino corria bem. Lembro-me de treinar com o António Pinto e o Domingos Castro, e eles não me conseguiam vencer. A minha confiança era muito grande. Sabia que podia falhar por causa dos tendões e que ia correr com a chinesa, que era recordista do mundo [e nunca tinha perdido uma prova de 10 000 metros], mas também sabia que ela tinha de correr muito para me apanhar.

No meio de tanto sofrimento, foi possível desfrutar da experiência dos Jogos?

Para mim, os Jogos Olímpicos têm muito a ver com a Aldeia Olímpica. Eu tinha contrato com a Adidas – sou a atleta da Adidas mais antiga do mundo – e não quis ficar no hotel deles. Nos momentos difíceis, era à Aldeia Olímpica que eu ia buscar forças. Fiquei no quarto com a Sandra Barreiro [barreirista], que por azar caiu do comboio que percorria a Aldeia e não pôde competir. Era eu que lhe ia buscar comida, íamos juntas para o tratamento… Às vezes até me esquecia da competição. Ficámos com uma ligação muito forte. Depois, também era ali que se encontrava toda a delegação portuguesa. Por exemplo, a bandeira com a qual dei a volta de honra era do Nuno Laurentino, da natação. Lembro-me de estar a correr e de os ver a puxarem por mim.

Na bancada?

Eu sempre consegui ver tudo na bancada. Entendia–me perfeitamente com o meu treinador. Mesmo quando não era à primeira, ele assobiava e eu encontrava-o na multidão. Em Atlanta, a Manuela Machado e a Ana Dias ficaram espantadas porque eu consegui descrever tudo o que elas tinham feito durante as 25 voltas. Lembro-me de vir na zona dos 300 metros e de as ver a tapar a cara e a escorregar na cadeira. Eu levava a competição muito a sério, mas se tivesse de falar, falava sem problemas. Acho que é porque sempre brinquei muito nos treinos.

Talvez porque cresceu a correr.

A verdade é que eu adoro a competição, mas não sou doente pelo treino. Sempre fui daquelas atletas que, se apanhasse um grupo a correr a três minutos ao quilómetro, seguia com ele. Mas se encontrasse uma senhora no parque a correr a seis minutos, também não me importava. Eu tinha andamento para tudo, queria era companhia. Quando comecei a correr, aos 9 anos, não havia nenhuma estrutura de treino na minha aldeia [Novelas, Penafiel]. Hoje os miúdos treinam velocidade, naquela altura eu jogava ao lencinho.

[Pausa em Atlanta. Fernanda Ribeiro fala disparada. As palavras fogem-lhe da boca com a mesma velocidade que um dia lhe saiu do corpo.]

Teve tempo para ser criança?

Eu sempre brinquei muito. Quando ia para estágio na Aldeia das Açoteias [em Albufeira], os treinadores contam que me apanhavam muitas vezes a brincar no parque. Depois, fazíamos do apartamento a nossa casinha, íamos apanhar flores, púnhamos numa jarra. Posso dizer que gozei a vida. Também é verdade que nunca fui da “noite”… Não ia para discotecas, mas era capaz de ligar aos meus colegas para irmos comer uma francesinha às onze da noite.

Mas tinha uma alimentação cuidada?

[Gargalhada] Nem por isso… Se fosse para ir a um tasco comer presunto, eu era a primeira a chegar. Quando vou às escolas, às vezes minto um bocadinho às crianças. Com os miúdos mais velhos é diferente, por vezes entramos em discussão. Eu não bebo leite, não como iogurtes, não como peixe… Não tenho nada a ver com a atleta-modelo. Sempre comi francesinhas, presunto, azeitonas, tudo o que normalmente um atleta não deve comer. Mas se eu ganhei tudo o que tinha para ganhar, como é que podem dizer que eu estava errada? Acho que essa questão da alimentação tem muito a ver com aquilo que o atleta está habituado a comer desde pequeno.

Voltando a Atlanta, recorda-se dos minutos antes da partida? Costumava falar com as suas adversárias?

Mais uma vez, eu era um bocado diferente. Apesar de estar nervosa, sempre consegui controlar-me muito bem. Era eu que tinha de acalmar o meu treinador, porque ele é que ficava com vómitos. Mesmo no autocarro [que transporta as atletas para a pista], fazia sempre as mesmas coisas: palavras cruzadas e falar com a minha mãe. Ligava-lhe antes das competições e ela dizia sempre: “Vou rezar por ti.”

Em Atlanta, lembro-me perfeitamente de ajudar uma atleta que estava tão nervosa que não conseguia pôr o dorsal; de parar o aquecimento para ir consolar uma italiana que não parava de chorar; dos chineses que andavam atrás de mim a tirar fotografias (deviam achar que eu ia ser a segunda). Também me lembro das palavras de incentivo da Tulu [Derartu Tulu, atleta da Etiópia]. Apesar de sermos das maiores adversárias, sempre nos demos muito bem. Depois houve aquela história com a espanhola…

A Julia Vaquero?

Veio falar comigo antes da prova, queria que puxássemos a corrida à vez, para desgastar as adversárias. Eu e o meu treinador já tínhamos preparado a competição e decidimos que se a corrida fosse a 75/76 [segundos] por volta, não passava para a frente. E eu até era uma atleta que costumava puxar. Apesar de ser rápida na ponta final, às vezes ia para a frente desgastar o grupo. As minhas adversárias sempre me deram valor por isso. Em Atlanta, ainda fui à frente ajudar a espanhola, mas ela não estava a cumprir com o andamento.

Já a atleta chinesa foi sempre atrás.

Quando ela sai é para ganhar. Eu não estava à espera e ainda perdi alguns metros. Entretanto, olhei para trás e vi que o segundo lugar estava garantido; olhei para a cara dela através do ecrã e percebi que estava em sofrimento. Nesse momento pensei em tudo o que também tinha sofrido. Pensei que estava muito forte porque tinha treinado com os rapazes e nenhum deles me ganhava nas rectas. Pensei que não tinha nada a perder. Claro, a pessoa que vai atrás a ganhar terreno também tem outra confiança. A chinesa nunca imaginou que alguém se estava a aproximar. As pessoas gritavam por mim e ela devia pensar que estavam a aplaudi-la, tanto que deixou a pista de dentro livre.

Por onde a Fernanda acabou por passar…

Foi arriscado, se ela me desse um toque e eu caísse, a culpa era minha…Eu sempre respeitei o meu adversário, nem que fosse coxo. O meu treinador dizia-me muitas vezes que eu podia controlar as corridas e eu respondia-lhe: “Só controlo a corrida depois da meta.” Se a chinesa não tivesse tanta confiança, se calhar não perdia. Sei que foi um choque muito grande para ela [Wang Junxia terminou a carreira em Atlanta, com apenas 23 anos].

Depois de chegar ao ouro nos últimos 100 metros, o que lhe passou pela cabeça?

Queria muito dar a volta de honra e, ao mesmo tempo, estar com os portugueses. Sobretudo com o meu treinador. Se eu era campeã olímpica, ele também o era. Custou-me muito que não o tivessem deixado ir à pista. Os Jogos de Atlanta foram muito diferentes. Primeiro, tive a sensação de que os americanos foram mais bem tratados. Depois, por causa do atentado terrorista [uma bomba explodiu na sede do evento, matando uma mulher e deixando 111 feridos]. Numa das minhas finais, apareceu um saco na bancada e toda a gente desatou a correr. De repente olho e só estava lá o meu treinador. Deve ter pensado: “Se ela morrer, eu também morro.”

E esses tendões?

As imagens que as pessoas viram foram da minha vitória, da volta de honra. Não viram que já não consegui chegar sozinha à Aldeia Olímpica. Dei as entrevistas todas, mas depois tive de regressar no carro da RTP, porque não conseguia andar. Quando cheguei tinha toda a gente à espera para festejar e no dia seguinte vim-me logo embora.

Não regressou com a comitiva portuguesa?

Tinha mudado a viagem na véspera, porque não sabia se seria campeã olímpica. Já tinha estado com os meus colegas, só queria ver as pessoas de cá. Por outro lado, também era uma maneira de me proteger caso perdesse a corrida. Lembrava-me das coisas que tinham dito ao [Fernando] Mamede… Ninguém nos liga durante o ano, mas chegam os Campeonatos do Mundo ou os Jogos Olímpicos e o português exige. Mas não serviu de nada pedir à minha mãe que não contasse que eu ia mais cedo. Demorei quatro horas do aeroporto a Penafiel. Durante uma semana ou duas foi sempre festa. Estava a viver o sonho de qualquer atleta: fui campeã europeia em 1994, campeã do mundo em 1995 e campeã olímpica em 1996.


 

O atletismo nacional está no bom caminho?

“Em relação ao que conquistávamos antigamente, não estamos assim tão fortes. Mas penso que os nossos atletas não podem reclamar, porque são muito bem apoiados. Preocupa-me ver tantos atletas a fazer provas de estrada. Compreendo que, com a crise, os nossos segundos e terceiros planos não ganhem tanto como nós chegámos a ganhar, mas também não podem estar constantemente a desgastar- -se. Compreendo ainda menos quando são atletas apoiados por um clube. O meu recorde nacional no 10 000 metros tem 15 anos (30m22s88’). Alguma coisa está mal.”