“O nosso corpo é a coisa mais malandra à face da Terra”

CS©-_08431
“Continuo a viver o atletismo de forma intensa, mas penso se valerá a pena”
18 October, 2015
P1030399
Pão de alfarroba e goji
18 October, 2015
IMG_5832

Aos 38 anos, venceu a primeira edição da prova mais longa de Portugal, a PT281+, em Agosto. Já tinha mostrado a garra na grega Sparthatlon, em 2013, e prepara o maior desafio de sempre: a Transpyrinea, 900 km, nos Pirenéus, em 2016. Será João Oliveira real?

Rute Barbedo

Corre todos os dias três horas – antes de ir para o emprego, pelas seis da manhã, e ao fim da tarde. O que sente no final de mais um dia, quando se senta para jantar?

Na verdade, paro pouco tempo na mesa para jantar. São mais as vezes em que como de pé. Não sou exemplo em termos de alimentação [risos]. Em média, uma refeição demora cerca de seis a 10 minutos, hábito que já vem desde o serviço militar, quando só tínhamos três minutos para comer.

Como e por que começou a apostar nas grandes distâncias?

Já tinha feito três maratonas e tudo se iniciou por acaso. Treinava no Porto, na Marginal, quando me cruzei com o [atleta] Fernando Santos. Desde então, começámos a treinar juntos, e no final de um treino ele diz: “Davas um bom ultramaratonista; recuperas muito facilmente.” Eu ri-me e agradeci, mas perguntei o que era um ultramaratonista. Quando recebi a resposta, só não caí ao chão de tanto rir por vergonha. Lembro-me de lhe ter respondido: “Isso não existe; não há atletas a fazer tantos quilómetros nem provas dessas. Em Dezembro [de 2003], recebo um postal de boas festas a desejar-me bons treinos para os 101 km da organização da Legião Espanhola. Contei o sucedido ao Sr. Fernando e ele disse que também tinha recebido e que estávamos inscritos. Desde então comecei a acreditar.

Tem algum background desportivo, antes das maratonas e ultra?

Na disciplina de Educação Física, os meus colegas só pediam para jogar futebol. Eu nunca fui grande coisa no futebol. Via-os jogar, até que decidi passar esse tempo a correr à volta do campo. Quando me sentia cansado, fazia abdominais e flexões. Quando passei para o [Ensino] Secundário, a nova escola ficava a 7 km. Decidi colocar na mochila os livros e roupa lavada, e ir a correr. No regresso fazia a mesma coisa.

[A progressão continuou no serviço militar, e a primeira maratona foi em Lisboa, em 2001.]

Já ultrapassou as 100 maratonas e não podia faltar à corrida mais longa do país, que venceu, 41 horas depois da partida…

Este resultado vem de muito treino, de muita abdicação de estar sentadinho no sofá a ver TV ou de estar no café a olhar para quem passa. Antes de iniciar a prova, ainda me sentia um pouco descompensado face aos demais atletas que se encontravam “fresquinhos”, sem provas: anteriores. Só no mês de Maio, fiz cinco provas 290 km em Itália, ficando em 1.º lugar; 101 km em Espanha; 100 km em Portalegre, ficando em 3.º lugar; 33 km em Vila Nova de Poiares; 42 km em Vila Pouca de Aguiar, ficando em 5.º lugar. Em Junho fiz mais duas, a Ultra Caminhos do Tejo, de 146 km, que venci; e os 100 km da Serra da Freita, na qual fiquei em segundo.

Na PT281+, achei que o atleta americano seria o favorito [acabou por ficar 20h04m atrás], seguido do argentino e, em terceiro lugar, seria o Rui Luz ou eu. Mas ao sétimo quilómetro tomei a liderança da prova. Ser vencedor é bom, mas conseguir terminar uma prova deste calibre é ser grande. Por isso, também não há nada como ajudar quem partilha esse mesmo gosto de conseguir chegar ao fim.

Quais considera terem sido as suas maiores aventuras, na corrida e na vida?

A maior aventura numa “ultra” iniciou-se na ideia de participar na Spartathlon. Quando soube da prova, senti logo um bater de borboletas na barriga. Seriam 246 km de aventura. Quando em Setembro de 2009 me apresentei à organização em Atenas, perguntaram qual era o meu carro de apoio, e eu simplesmente respondi: “Venho sozinho.” Não se cascaram a rir, mas olharam uns para os outros e sorriram. Pensei: “Mais um que eles julgam que não vai terminar.” [70% dos atletas não concluem a prova] Mas cheguei à meta com 34h01m. E em 2013 consagrei-me campeão no tempo de 23h29m08’, tornando-me no primeiro português a vencer a Spartathlon. Um sonho concretizado.

[Conta também histórias sobre a Maratona de Badajoz, mas não temos páginas suficientes para todas as aventuras de João Oliveira…]

Explique-nos o gosto em sofrer.

Uma bela questão, sem dúvida. Em entrevistas e conselhos que dou aos demais atletas, digo que quando se lançarem numa aventura desta envergadura, têm de mentalizar-se que mesmo que a prova corra bem, o corpo leva um bom empeno. À medida que vamos evoluindo, a dor continua lá e outras irão surgir, mas a força psicológica alcançará tal nível que tudo se torna quase insignificante.

Uma outra perspectiva do nosso corpo é que ele é a coisa mais malandra que existe à face da Terra! Quando estamos a correr e o corpo ainda está com força e adrenalina, as coisas até parecem fáceis. Mas quando o cansaço vem ao de cima, as dores nos músculos das pernas, a chamada “dor de burro” que não desaparece, o estômago que não aceita comida fazendo impulsos de vómito… Parece que o que era bom se tornou desagradável, o fácil está a tornar-se inatingível. O corpo armadilha o nosso objectivo principal, apresentando-nos dores em lugares que nem em sonhos imaginaríamos que existissem, convidando-nos a parar. Apesar de sentirmos fisicamente, não passa de uma ilusão. Nestes momentos, temos somente de apelar à força psicológica, e pensar que o que nos dói hoje torna-nos mais fortes amanhã.