“O regresso não é para provar nada a ninguém, é uma mensagem para quem está a começar”

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“Isto já não é sobre desporto adaptado, é sobre atletismo de grande qualidade”
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“Somos mais do que os olhos, somos os agentes os psicólogos, tudo”
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Depois de uma década afastado da competição, em Fevereiro de 2016 João Correia apurou-se para o Campeonato da Europa de Atletismo Adaptado, que decorre entre 10 e 16 de Junho, em Grosseto, na Itália. À RUNning fala sobre a lesão cervical que lhe poderia ter custado a vida e o “patamar surreal” do desporto paralímpico.

Texto: Inês Melo

Fotos: Paulo Jorge Magalhães

João Correia não sabe o que é caminhar desde que se lembra de si. Tinha dois anos quando foi atropelado. É também desde que se lembra de si que não quer limitar a vida a uma cadeira de rodas. Com oito anos inscreveu-se na Meia Maratona de Santo Tirso, de onde é natural. Não terminou a prova, mas conheceu o desporto adaptado. Foi um dos grandes impulsionadores do basquetebol em cadeira de rodas, fez história no atletismo adaptado e, em 2006, antes de entrar para o bloco operatório lançou um site com o lema que o empurra há 32 anos: “Nunca Desistas!”

Muitas pessoas vêem no João um exemplo. Quem são os seus heróis?

O Heinz Frei [atleta suíço, 14 vezes medalha de ouro em Jogos Paralímpicos]. Devo-lhe tudo o que sou como atleta. Conhecemo-nos em 2001, na Meia Maratona de Lisboa. Aproveitando que ele estava cá, foi promovido um estágio com alguns atletas portugueses, e eu tive a sorte de estar nesse grupo. No último dia, pediu-me para experimentar a cadeira dele. Não queria acreditar, parecia feita para mim, como na história do sapatinho da Cinderela [risos]. Disse que me ia oferecer uma cadeira, mas não aquela; seria uma com um valor mais especial. Na altura, o Heinz já tinha mais de 40 anos. Vi o gesto dele como uma passagem de testemunho – mal imaginava que agora, aos 58 anos, ainda continuaria a ganhar provas [no ciclismo adaptado].

Que cadeira era essa?

Era a cadeira com que tinha batido o recorde do mundo da maratona, em 1999 [continua a ser o tempo mais rápido na classe T53/54]. Em 2002, ele foi ao Campeonato do Mundo e enviou-me a cadeira pela comitiva portuguesa. Tinha-lhe custado ver o meu potencial e perceber que me faltavam condições materiais. Bastou meio ano com a cadeira para obter os mínimos para o Europeu. No ano seguinte, conseguíamos a primeira medalha [internacional] para o atletismo português em cadeira de rodas [repetiu o feito em 2005, na Finlândia].

Que recordações guarda desse Campeonato da Europa, na Holanda?

Lembro-me do abraço que dei ao Heinz, quando saí da pista [risos]. Sou franco, nesse ano a selecção não tinha grandes esperanças. Aliás, quando saiu a convocatória eu fiquei de fora. Era um atleta sem provas dadas. Propus pagar a minha ida ao campeonato, consegui a medalha de prata [nos 200 metros] e depois toda a gente se esqueceu do resto. Foi um início com grandes adversidades, valeu-me o investimento feito por um atleta estrangeiro, como hoje me valem os patrocinadores. Nunca recebi material do Estado. Sabia que tinha de ser eu a investir, e não era só em material.

Então?

Sempre achei que devia levar a minha mensagem às pessoas. No início pedi ajuda à agência de comunicação que trabalhava para o Comité Olímpico – hoje quem trabalha comigo está a fazê-lo de forma gratuita. Durante o primeiro ano foi muito difícil, mas depois da medalha consegui patrocinadores importantes. Actualmente, prefiro caminhar de mãos dadas com vários parceiros [em vez de ter um patrocinador principal].

Teria sido possível manter-se no desporto sem o trabalho de assessoria? 

Não. Depois da medalha optei por continuar a trabalhar, embora fosse tentador, aos 19 anos, dedicar-me apenas ao atletismo. Já era a minha forma de estar na vida. Mas fazer chegar informação à sociedade, principalmente através dos media, é um trabalho de partir pedra. Se, em vez de um, chegassem 20 comunicados a uma redacção talvez tivessem outra importância.

Poucas pessoas têm noção, mas sou o atleta paralímpico mais seguido do mundo nas redes sociais [só no Facebook tem mais de 57 mil seguidores]. Isto deveria indicar alguma coisa. É a prova de que as pessoas gostam de seguir estes atletas. Esse é o desafio que tenho com as equipas de comunicação: provar que há mercado.

Em 2006 sofreu uma lesão gravíssima que alterou as certezas de uma carreira promissora. Conheceu os limites do seu corpo?

Tinha sido operado em Janeiro de 2006, devido a uma lesão na cervical. Na altura, já tinha os mínimos para o Campeonato do Mundo desse ano, mas passados três meses foi-me exigido que confirmasse os tempos. Só devia regressar aos treinos cinco meses depois da cirurgia, mas se não fosse ao mundial ficava fora dos critérios de selecção para os Jogos de Pequim. Confirmei a marca, mas depois… Ninguém quer chegar a um campeonato do mundo sem estar na forma máxima e eu dei o meu melhor.

Em pleno mundial comecei a ter perdas de força nos membros superiores. Ninguém sabia ao certo o que se passava comigo. A equipa médica disse-me que podia ser um problema do foro psicológico, o stresse pré-competição. Fiquei muito assustado porque a cada dia que passava mexia menos os braços.

Entretanto regressou a Portugal.

Quando fiz os exames os médicos deitaram as mãos à cabeça. Tudo o que tinha sido feito em Janeiro estava destruído. A primeira vértebra tinha sido, literalmente, arrancada da cervical. Foi-me recomendada cirurgia imediata, mas não havia nenhum caso no mundo com uma lesão do género ainda vivo. Aqui davam-me 10% de possibilidade de sobreviver, então fui à Suíça, onde trabalha o Heinz, pedir uma segunda opinião. Contactaram hospitais de todo o mundo e não houve um médico que desse mais garantias.

Se era para ser cobaia, preferia estar em Portugal. Sabia que a equipa do São João [no Porto] era das melhores do mundo, embora para eles fosse mais complicado, porque já não era só uma relação médico-paciente. Nessa altura decidi lançar o site com o lema “Nunca desistas!” Independentemente do que me viesse a acontecer, queria deixar a minha mensagem.

Não operar era uma alternativa?

Quando aos dois anos e meio fui atropelado não senti o que era estar noutra condição. Agora estava a sentir. Não andava a pé, mas tinha uma autonomia completamente diferente. Estava a perder tudo, não podia ficar à espera. Precisei de três cirurgias e de um programa de fisioterapia intensiva para recuperar. Foi um processo longo, com feridas que não se vêem.

Que feridas são essas?

Ao nível de patrocínios só fiquei com o apoio da Invacare. Do Estado nunca mais quiseram saber do João. Fiquei com os amigos, a família e mais ninguém. Em dois meses, o João, que era quase o porta-estandarte dos Jogos de Pequim, passou a lixo. Isso custa a aceitar. O regresso é um pouco… Não é para provar nada a ninguém, é uma mensagem para quem está a começar. É provar que ainda consigo fazer alguma coisa pela modalidade. Daí a aposta na comunicação, porque, para muitos, a única janela para o mundo é o computador.

Mas mesmo durante o tempo em que esteve afastado da competição, nunca se afastou do desporto adaptado.

Até 2013 estive com a primeira equipa que me abraçou, a APD Braga [a equipa de basquetebol em cadeira de rodas da Associação Portuguesa de Deficientes]. Decidi canalizar todos os conhecimentos e contactos que tinha para desenvolver o projecto deles. Mesmo em casa, era uma forma de ter um papel activo. Em 2008 conseguimos parcerias importantes, criámos um projecto de compra de cadeiras de rodas e uma campanha de angariação de fundos. O meu sonho era não só dotar os atletas de melhores condições, como ajudá-los a suportar os custos das deslocações. Actualmente, o clube tem atletas a fazer 120 km para treinar.

Como surge a colaboração com o Maratona Clube de Portugal?

A Meia Maratona [de Lisboa] tem uma grande organização, mas no segmento das cadeiras de rodas havia detalhes que podiam ser limados. Foi em 2007 que pediram a minha colaboração. Comecei logo a fazer contactos para trazer atletas de elite que seria quase impensável virem a Portugal. A presença desses atletas foi muito resultado de conhecerem a minha história e de termos competido juntos antes da lesão.

Actualmente, todos os detalhes das provas de cadeira de rodas [da Meia Maratona e da Maratona] passam por mim. Fruto desse trabalho, em 2014, o percurso foi alterado por necessidade de adaptação à prova das cadeiras. A Meia Maratona deixou de passar na Praça do Comércio porque, depois das obras na Ribeira das Naus, os nossos atletas ficavam presos no passadiço de madeira. Foi um ano de luta contra muitos interesses.

O que significa essa alteração?

É complicado explicar o trabalho que envolveu esta mudança, porque estamos a falar de uma organização que vive de apoios e patrocínios. Fazer ver que era benéfico para todos foi o meu desafio. Depois provou-se que a competição tinha ficado mais rápida para as cadeiras de rodas e para os atletas a pé. No Comité Paralímpico Internacional, a Meia Maratona de Lisboa está classificada como a melhor do mundo para cadeira de rodas.

 

“SITUAÇÕES DIFÍCEIS DE EXPLICAR”

Depois de 10 anos afastado da competição, regressou no ano passado à pista. O que mais gostou de redescobrir?

Coisas tão pequenas como o cheiro da relva acabada de cortar… Regressar à pista deu-me muito prazer, mas com o aproximar dos Jogos voltei a sentir que o desporto paralímpico nem sempre é uma competição saudável. Já o sentia antes. Uma das coisas que me magoou em 2006 foi o facto de me terem obrigado a confirmar os mínimos quando vários atletas não tinham sequer marcas de qualificação. Continuam a existir situações difíceis de explicar. Para mim, o desporto tem de ser limpo e transparente. Ainda não vejo isso.

Pode ser mais concreto?

Cunhas, conhecimentos. Acho que nem todos são tratados da mesma forma. É verdade que o Atletismo Adaptado está na Federação Portuguesa há pouco tempo; mesmo assim… Nos primeiros meses as coisas correram de forma aparentemente normal. Depois parece que se voltou aos contactos directos e a situações pouco claras. E ainda há a questão complexa da qualificação para os Jogos.

Refere-se à obtenção dos mínimos?

No desporto regular vão os três melhores mínimos. É um critério que se mantém no desporto adaptado – só podem ir três atletas por evento e por classe –, mas com uma particularidade: nós temos de conseguir quotas de participação. Existem várias formas de libertar vagas (que à partida ficam para esse atleta, mas não necessariamente): ficarmos entre os três primeiros no Campeonato do Mundo ou estarmos no top cinco do ranking mundial entre 2015 e 2016. Depois ainda há um critério de inclusão, em que para ir um homem têm de ir duas mulheres. A única hipótese é dar wild cards, senão não havia atletas femininas.

Este ano, estão 20 atletas no plano de preparação olímpica. Se conseguirmos seis vagas já será muito bom. A questão é que podemos ter os mínimos e não ser suficiente. Por exemplo, o Mário Trindade é o melhor atleta europeu nos 100 e nos 400 metros mas pode não ir aos Jogos. O desporto paralímpico está num patamar surreal, é preciso desmistificar esta situação.

Como é ser um atleta com deficiência em Portugal?

É difícil. Primeiro é a mentalidade da família – o grande entrave para muitos jovens –, depois é preciso ter uma equipa próxima e, claro, material. Todos os atletas têm de estar classificados funcionalmente, sendo que nas cadeiras de rodas há quatro categorias mediante o grau de lesão. Neste momento, só existem quatro atletas portugueses em cadeira de rodas classificados internacionalmente.

Uma história

Em 2015, João Correia tornou-se num dos rostos da Wings for Life World Run, que regressa à cidade do Porto no dia 8 de Maio. “É uma corrida muito especial, cujas receitas revertem para a investigação na área das lesões da espinal medula. No ano passado aconteceu-me uma coisa incrível: perto dos 2 km, um atleta desconhecido [Miguel Esmeriz] começou a empurrar a minha cadeira. Juntos fizemos 25 km, durante mais de duas horas. Além de não estar na cadeira de competição, chovia muito e o pavimento da prova não era o mais fácil. Em plena corrida, percebeu a nossas dificuldades diárias em tarefas tão simples como atravessar a rua.”