O segredo para ser delegado técnico passa muito pelas boas relações humanas

Tiago-AiresCS©
“Vou fazer tudo para representar o meu país da melhor forma”
3 August, 2016
Camu-camu
Camu-camu: da Amazónia com vitamina C
3 August, 2016
PR. Comité Tecnico da IAAF

Há três anos e meio, ainda Londres não tinha esfriado, já Jorge Salcedo aterrava na Cidade Maravilhosa. Foi nessa altura que começou a pensar nos horários das provas de atletismo e a definir mínimos para quem dá o máximo. O cargo de delegado técnico nos Jogos do Rio é o pretexto para percorrermos a carreira do mais bem-sucedido juiz português além-fronteiras.

Texto: Inês Belo

Foto: Celestino Santos

A sala de reuniões da Federação Portuguesa de Atletismo faz sol, há esporte e samba no pé. Embalados pelo carisma do nosso guia, percorrermos os meandros da organização dos Jogos Olímpicos do Rio. Espiamos o que não se vê, ouvimos o que não se costuma contar. Depois de Atenas (2004) e Pequim (2008), Jorge Salcedo voltou a ser nomeado para delegado técnico de uma competição olímpica. Aos 63 anos, é ele a voz da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF, na sigla inglesa) no Brasil, juntamente com uma colega italiana e um australiano.

Quando começaram para si os Jogos Olímpicos?

A primeira visita foi em Setembro de 2013, aos locais onde a competição se iria realizar: a pista de atletismo, o circuito da maratona e o circuito da marcha. Para quem conhece o Estádio João Havelange, adivinhava-se que não seria fácil conseguir circuitos por perto, até porque a zona não é propriamente bonita. Daí a proposta do comité organizador para deslocar a maratona e a marcha para o centro da cidade; embora a marcha, entretanto, tenha sido alterada.

Ir ao terreno é a primeira tarefa de um delegado técnico?

Normalmente sim, para verificar se existem todas as áreas necessárias para a competição, para o trabalho técnico, a logística, a imprensa, os convidados… Às vezes pode existir uma “lutazita” para conseguirmos reservar para nós a área que consideramos a melhor, mas geralmente não é grave [risos]

É um trabalho de fiscalização ou há liberdade para propor ideias?

O segredo para ser delegado técnico prende-se muito com as boas relações humanas e com a apresentação de propostas. Um dos casos de que me recordo, porque foi uma mudança grande, foi no Centro de Informação Técnica, que teve de ser repensado por estar numa zona de pouca acessibilidade para as equipas.

Há algum pormenor que destaque nos percursos das provas de estrada?

A maratona tem um aspecto engraçado: inicia e termina no sambódromo. No caso da marcha, visitámos um percurso que acabou por ser alterado. Houve um pedido do prefeito do Rio, por motivos financeiros, pelo que percebi, no sentido de utilizar a mesma instalação de partida e de chegada para nós e para o ciclismo. Há situações que às vezes não nos agradam muito, mas que podemos aceitar. A zona é um pouco afastada do centro, mas cumpre os requisitos.

Quais são as prioridades depois do reconhecimento do terreno?

Um aspecto importante é a definição do horário, em conjunto com o comité organizador. É norma na IAAF perguntar à organização se tem algum pedido especial, que muitas vezes pode estar relacionado com objectivos financeiros. Nos Jogos não costuma ser complicado, porque os estádios estão praticamente cheios, mas nem sempre é assim.

O pior são os pedidos da televisão. Quem já viu o horário deve ter reparado que, este ano, vai acontecer algo inédito: finais de manhã. Manhã lá, mas tarde na Europa. Houve uma pressão muito grande do Comité Olímpico Internacional e do nosso broadcaster [o serviço de radiodifusão olímpico] nesse sentido. Depois de pronto, o horário é enviado para os colegas na IAAF, que perguntam às televisões mais importantes se têm comentários.

Já passámos pelas instalações, já fizemos a revisão do horário…

E os engenhos para os lançamentos? Também são decididos por nós, com base nas estatísticas dos últimos [modelos]. Depois a lista é apresentada ao comité organizador – podem comprar, pedir oferecido, como quiserem. Outro aspecto é a formação dos juízes locais, mais necessária nuns países do que noutros. No Brasil já combinámos um seminário, onde vou tentar fazer um resumo das situações que podem acontecer com mais frequência; julgo que será suficiente.

E estava a esquecer-me dos mínimos. Na verdade, embora seja responsabilidade nossa propor ao Conselho da IAAF, são os estatísticos que trabalham as marcas. O que pode acontecer, e já aconteceu, é percebermos que algumas são demasiado exigentes e propormos uma baixa. Falo das marcas de qualificação, mas também decidimos as marcas durante a competição, até chegar às finais.

São apenas três delegados técnicos. Como estão organizados para responder a tantas tarefas distintas?

Até à competição, fazemos quase tudo em conjunto. E como, habitualmente, só há uma visita por ano, muita coisa segue por e-mail. Depois, o colega australiano trabalha mais na área das inscrições e das listagens, e a mim cabe-me, por hábito, a parte de campo. Com a colega italiana ainda não sei bem, é a primeira vez que trabalhamos juntos. Mas se houver algum problema na pista, possivelmente serei eu a entrar.

Em que circunstâncias pode ser necessário intervir?

Se houver uma situação em que os nossos ITO [oficiais técnicos internacionais, na sigla inglesa] não consigam resolver, ou se anteciparmos um problema. Nestes anos, só me recordo de ir uma vez à pista. Foi nos Jogos de Beijing, com a Fabiana Murer [recordista brasileira do salto com vara], que na final não encontrava uma vara. Quando cheguei à pista falei em português, perguntei-lhe se tinha procurado em todo o lado. Entretanto, disse-me que tinha falado com o treinador e que prescindia daquela altura. Ficou resolvido e eu fui embora. Mas afinal não tinha ficado assim tão resolvido, porque na altura seguinte ela teve três nulos e foi eliminada. O Brasil apresentou um protesto que chegou ao Júri de Apelo, mas não lhes foi dada razão.

“NA EAA NÃO ME CONHECIAM DE LADO NENHUM”

Como é que o país perdeu um professor de Biologia e ganhou um juiz internacional?

O meu pai foi atleta, esteve na Associação de Atletismo [de Lisboa] e na Federação Portuguesa de Atletismo [FPA], da qual foi presidente nos anos 60. Em miúdo, lembro-me de ir com ele a provas, algumas em zonas que agora só têm edifícios, mas onde antes se faziam corta-matos. Foi um pai que só tive oportunidade de conhecer até aos 14 anos. Depois, mesmo sozinho, continuei a ir a provas. Até que, em 1974, pouco depois do 25 de Abril, telefonaram lá para casa a perguntar se eu queria fazer um curso para juízes. Como estava ligado ao atletismo pelo meu pai, porque não? Fiz o curso, as coisas evoluíram – acredito que um pouco pelo meu nome – e começaram a dar-me funções de maior responsabilidade. Ainda estive na Associação de Atletismo…

Quando surgiu a primeira oportunidade fora de Portugal?

Em 1983, quando a Associação Europeia de Atletismo [EAA, em inglês] resolveu, pela primeira vez, nomear um português para ser oficial numa competição – talvez porque os nossos atletas já começavam a ter alguns resultados. Todos os anos, pediam às federações para indicarem o nome de alguém [hipoteticamente]. Nesse ano, por acaso, tinham dado o meu; na EAA não me conheciam de lado nenhum.

Foi em que competição?

Na Taça da Europa de Meia Maratona, em Espanha. Na altura, conheci elementos importantes da EAA, o presidente, o secretário–geral… Talvez tenham simpatizado comigo e continuaram a nomear-me nos anos seguintes. Até que, em 1991, a FPA indicou-me para membro do Comité Técnico da IAAF e para o Conselho da EAA. Fui eleito para as duas. Em 1992 ganhámos a organização do Mundial de Juniores de 94, e o professor Fernando Mota [então presidente da FPA] perguntou-me se queria ser presidente do comité organizador e ir a tempo inteiro para a Federação. Se fosse uns anos antes, quando tinha tido turmas de que gostava muito, era capaz de ter dito que não. No início custou. Sonhava muitas vezes com o [Liceu] Camões.

Está há 25 anos no Comité Técnico da IAAF, do qual é presidente desde 1999. Como tem sido esta prova de fundo?

O que tento sempre é que exista uma equipa, o mais possível, e isso tem sido conseguido. Nem sempre estamos de acordo, o que é democrático, como é lógico. Mas posso dizer-lhe que houve situações em que era eu a votar a favor e todos contra.

O que foi mais difícil?

A certificação de algum material, como os detectores de falsas partidas, porque não dependeu de nós. Agora está a terminar, mas foi um processo moroso. No regulamento falamos de sistemas certificados pela IAAF, mas durante anos não houve nenhum. Ao contrário do que se possa pensar, o mais difícil não foi a implementação das “zero falsas partidas” [regra que diz que qualquer atleta que faça uma falsa partida é desclassificado da prova, como aconteceu com Usain Bolt em 2011, no Mundial de Daegu, na Coreia do Sul].

E o que deu mais prazer?

Nestes anos todos, uma coisa que me tem dado gozo é tentar que o regulamento seja não só mais claro, como mais aberto. Já é possível organizar competições de maneiras muito diversas e todas de acordo com as regras – não tão “quadradas” como antigamente. Também continuo a pensar que, talvez, o futuro do nosso desporto passe mais pela apresentação das provas, pela animação, do que por grandes alterações nas regras.

Cargos sem fronteiras

Presidente do Comité Técnico da Associação Internacional das Federações de Atletismo [IAAF]

Membro da Comissão de Eventos e Competições da IAAF

Membro do Conselho da Associação Europeia de Atletismo (EAA)

Membro da Comissão de Eventos e Competições da EAA

Responsável das Relações Internacionais da Federação Portuguesa de Atletismo

Membro do Grupo de Trabalho do Sistema de Formação e Certificação de Oficiais Técnicos Internacionais

“Não haverá nenhum país com tantos oficiais”

Para os Jogos da XXXI Olimpíada, além de Jorge Salcedo, a IAAF convocou Samuel Lopes, como oficial técnico internacional (ITO), Luís Figueiredo, como juiz internacional de partidas, e José Júlio Dias, para juiz internacional de marcha. “O número de oficiais nomeados para este tipo de provas é muito pequeno. E nós, realmente, temos gente com muita capacidade. [No Rio], não haverá nenhum país com tantos oficiais”, observa Jorge Salcedo. Samuel Lopes volta a ser chamado depois de Pequim’2008, José Júlio Dias repete o cargo em Atenas’2004 e Luís Figueiredo vai estrear-se em competições olímpicas.

Agosto 2016