Os 170 Km da Ronda dels Cims por Augusto Oliveira

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O Augusto Oliveira deu a volta a um país inteiro em 60h44m e quis partilhar a sua experiência com os leitores da RUNning, aqui fica o testemunho de um bravo que fez os 170 km da Ronda dels Cims em Andorra.

EU ACREDITO EU CONSIGO

 

1º Dia – A luta constante

Não são os atletas mais rápidos, mais fortes, com mais treino, com melhor material, e que terminam a prova com menor tempo que são os vencedores. Os vencedores são aqueles que se adaptaram melhor, aqueles que se recusaram desistir apesar das dores, do cansaço, do sono, da exaustão e das dificuldades que passaram, conseguiram terminar, independentemente do tempo que passaram em prova, os vencedores também são aqueles que tiveram a ousadia, a coragem e a força de vontade de se aventurarem nas montanhas de Andorra.

Ordino (1298m de altitude) local de partida e chegada do Ultra Trail de Andorra, estou mergulhado num ambiente de festa e de convívio, aos poucos os atletas vão-se aglomerando e depois de passar a área de controlo fui-me diluindo no meio da multidão, estou prestes a começar um gigantesco desafio.

O relógio aproxima-se das 0:00, o rufar dos tambores faz-se entoar por toda a Praça Maior, as palavras do speaker e os foguetes com confetes levam ao rubro os 420 atletas e todos os que assistem à partida, fazendo o momento épico. Os meus sentimentos mais profundos estão ao rubro, sinto-me como que contagiado, emocionado e invadido por momentos de êxtase.

São 07:00, esta grande odisseia começa, na fase inicial andámos num constante sobe e desce até chegar ao primeiro grande pico a 1532m de altitude Collada Ferrolles. Para mim os primeiros 30 km são sempre sofredores até me adaptar ao ritmo cardíaco, depois algumas horas de prova começo a sentir-me melhor, já fiz o processo de adaptação é a partir deste processo que vou interiorizando os tempos que faço a cada 10 km e vou estabelecendo metas físicas, mentais e emocionais. Em 03:00 horas vou de um abastecimento ao outro, chego ao km 31 Arcalys (2.220 m). Agora 13 km muito complicados com duas grandes subidas a pique e outras tantas descidas que estavam a preparar a super subida a Comapedrosa (2.950 m).

Durante o tempo que me separa de um abastecimento ao outro, fui traçando um objetivo – Não quero fazer a subida ao cume mais alto de noite, pois segundo os relatos que tinha lido e ouvido, esta era a pior parte da prova. Durante todas estas horas fui desfrutando de uma beleza natural e única, em que lagoas, riachos e miradouros que nos esmagavam com a sua imponência. O tempo estava quente e o sol escaldante, em que a amplitude térmica era grande, passávamos 25 graus aos 10 num curto espaço de tempo, esta amplitude térmica manteve-se assim durante os 170 km, embora com o avançar do dia e com a noite as amplitudes térmicas eram maiores, pois em certas alturas da noite as temperaturas desceram aos 0 graus.

A poucos metros de L´Estany – km 44 ouço o meu nome e algumas pessoas gritam por Portugal, é uma comitiva de acompanhantes portugueses que nos recebia de forma entusiasta e fervorosa, aqui neste abastecimento tinha que repor todas as minhas energias, fazer uma boa alimentação, hidratação, pois pela frente tinha a subida aos 2.950 m de altitude, eram 5 km na vertical, por uma paisagem agreste, lunar, em que não existia qualquer tipo de vegetação. Neste abastecimento tive uma ajuda surpresa, Esmeralda Melo (a minha acompanhante há 2 anos nestas loucuras (ela que ás 00:00 ia partir para os 85 km), que além de me presentear com um Red Bull, também tratou da hidratação e alimentação, além de me incentivar para esta mega subida, também neste momento soube que os atletas lusos já tinham passado quase todos e que alguns já estavam em dificuldade.

A subida a Comapedrosa é BRUTAL, são 5 km verticais, pedra sobre pedra, esta viagem por este terreno desolador, despido de qualquer tipo vegetação, leva-nos a uma viagem lunar, cada metro é vencido a todo o custo, lentamente vou deslumbrando o topo, com uma pesada respiração, cada metro neste território é uma conquista. Ao atingir o que eu pensava ser o topo (ainda faltavam algumas centenas de metros), sinto-me esmagado pelos últimos metros, além da vista deslumbrante que me fascinou, deparo-me com uma descida brutal a pique que se estende por todo o vale, ao atingir os 2.950 sou recebido como um herói, um português dava-me as boas vindas e depois da foto da praxe, precipito-me montanha abaixo, em que esta descida se tornou mais dolorosa do que a subida, neste momento só pensava que queria chegar ainda de dia ao km 50 Refugi Comapedrosa, nesta altura começava a sentir os pés inflamados.

O sol começava-se a pôr e a esconder-se por de trás das montanhas e um lusco fusco ia espalhando lentamente a escuridão por todo o vale, corria e caminhava sozinho já há algum tempo, mas sempre focado, tinha que conseguir estar até ás 09:00 da manhã no km 73 Margineda, onde tencionava dormir um bocado para repor forças, cada descida ia arruinando cada vez mais os meus pés, eu neste momento já praguejava, dizia em alto e bom som todos os palavrões que me assolavam as ideias e para mal dos meus pecados. Demorei 04:00 a fazer 6km e chego por fim ao Refugi de Comapedrosa, estava cheio, alguns atletas estavam deitados no chão outros nuns beliches, muitos davam por terminada aqui a sua odisseia, aqui encontrei o Nuno Ferreira, que depois de umas quedas, apresentava muitas queixas e não tinha condições para continuar. Enquanto me alimentava e carregava as minhas baterias fisiológicas também carregava o frontal e o relógio, ouvia relatos, que o pior ainda estava para vir, pois eu que erradamente tinha pensado que a descida que tinha acabado de fazer era a mais complicada a mais agreste, estava enganado, a descida para Margineda era muito, muitíssimo complicada, não existe nada tão agreste, brutal e perigoso em provas nacionais.

Voltei de novo ao trilho, esperavam-me 23 km de dureza extrema aconselharam-me a ter muita prudência e calma (embora não pudesse perder muito tempo, pois tinha a primeira barreira horária aos 73 km) tinha que manter este ritmo até Margineda, nesta altura estou focado num pensamento e a ideia acompanha-me “Se eu conseguir chegar ao km 73 tenho capacidade para atingir a meta”

Corria e caminhava novamente sozinho sem nunca desanimar, nem por um momento ,pensei que não conseguia. Depois de umas subidas e descidas, começo a descida vertical, extremamente técnica, dura, agreste, lá do alto avistava a povoação, mas esta mantinha-se sempre distante a progressão era lenta e dolorosa. O sol voltava a nascer, e deixei de precisar do frontal, o que tornou menos doloroso os poucos km que faltavam para Margineda, chego a este abastecimento, ensonado, cansado e com os pés numa lástima e a primeira coisa que fiz, foi ir buscar o meu saco e procurar uma cama rapidamente, não comi nada e só me descalcei, pus o despertador para daqui uma hora, tinha 02:00 horas para dormir um pouco (dormi 1 hora) e preparei-me para continuar.

Faltavam 10 minutos para as 09:00 (hora de fecho) quando um elemento da organização avisava os atletas que quisessem continuar, tinham que abandonar o local brevemente. Comi à pressa e enchi os bidons e estava de novo trilho, continuava sozinho nesta loucura, de vez em quando lá tentava dialogar com alguns atletas que iam passando por mim, mas sem efeito, não falavam português e eu naquela altura não conseguia expressar-me noutra língua que não fosse a minha, a partir daqui estava à procura de um grupo para me juntar, mas sem sucesso, pois uns tinham ritmos mais lentos do que eu e outros estavam mais fortes.

Tinha aguentado a primeira noite, tinha cumprido com as barreiras horárias e embora tivesse pouca gente atrás de mim, parti com todo o entusiasmo, força, consciência, resiliência e estava disposto a fazer os restantes 97 km acontecesse o que acontecesse não iria por momento algum desistir, nesta altura encontro um grupo de italianos, com os quais fiz muitos km, eles tinham um ritmo semelhante ao meu, eram atletas que já conheciam esta prova, e com os quais eu fui dialogando um pouco, entre eu e eles começou a existir uma entre ajuda, e embora eu nas subidas andasse mais rápido (neste momento só me apetecia subidas) eles nas descidas voltavam a juntar-se a mim. Num bom ritmo estava agora a caminhar para os 2.645 m - Pic Niegre, as descidas nesta fase não eram tão brutais como até aqui e eu fui-me sentindo cada vez melhor de novo voltava a focar-me na próxima barreira horária em Coll Valcivedra ao km 116.

 

2º Dia – O dia dos verdadeiros desafios

O dia voltou a nascer com um sol resplandecente com um calor que prometia voltar a fazer-se sentir. Eu nas grandes provas vou sempre utilizando as minhas estratégias, os meus mecanismos de coping, o meu objetivo inicial é sempre chegar a meio da prova, pois até aí eu estou a acrescentar km e a partir dai começo numa contagem decrescente, estou a tirar km e por isso quanto mais rápido e melhor chegasse ao km 85 melhor, fui gerindo de forma consciente o meu tempo.

Fui enfrentando todos os desníveis com coragem, estes que iam variando entre os 2.100 e os 2.600 m altitude, novamente aproximava-se a noite, tinha consciência que a segunda noite é sempre muito complicada, era nesta altura que começava a ser posta à prova a nossa resiliência, a nossa vontade para continuar, na segunda noite começam a vir os delírios, a linha ténue que separa a realidade das alucinações é cada vez mais permeável e é nestes momentos que se cometem os maiores erros, é por estas alturas que nos perdemos com maior facilidade e por vezes numa tentativa de querer ir mais longe e mais rápido os acidentes poderão ser mais frequentes e trazerem consequências muito graves, pois um acidente aqui poderia implicar a morte.

Corria e caminhava com mais intensidade, sobretudo nas subidas, depois de chegar ao Refugi de L´illa 2.485 m altitude um refugio de montanha perdido no meio do nada, até lá chegar fui passando por alguns atletas, alguns caminhavam lentamente, outros dormitavam em cima de pedras, no refugio alguns atletas dormitavam nas poucas camas que estes disponham, deixei-me estar um pouco sentado, enquanto comia uma sopa e voltava a atestar o camelbak com barras energéticas e enchia os bidons. Ao sair um elemento da organização, pediu-me para que não fosse sozinho e que esperasse um pouco por outro atleta, pois mencionava que o trilho era um pouco perigoso lá partimos os dois.

Foi durante a longa descida que comecei a ficar com muito sono e por breves segundos sentei-me a descansar um bocado tentava concentrar-me foi neste espaço de tempo que deixei de ver o atleta que seguia comigo, fui continuando e a certo momento deixei de ver as o atleta que seguia comigo, emarcações, subia e descia o trilho até à última fita visível, na esperança de voltar ao trilho certo nesta altura começo a questionar-me (delírios) o que estou aqui a fazer, mas afinal o que é que me disseram no último abastecimento para eu fazer, tinha uma missão e não era capaz de me lembrar qual era, começava a pensar em voltar para trás, mas como, não tinha coragem para voltar a subir tudo novamente em sentido contrário… até que voltei novamente a ter algum discernimento e, decidi esperar por outro atleta, coisa que não demorou muito, tinha novamente companhia embora por pouco tempo, pois rapidamente desapareceu no meio da escuridão só o via esporadicamente ao longe, mas pelo menos tinha encontrado o caminho e estava novamente no trilho.

Próximo abastecimento Pas de La Casa – km 130, tinha que voltar a enfrentar uma grande subida (2.552m), tinha que voltar a descer (as descidas nesta altura são ainda mais torturantes, dolorosas, penosas) foi uma descida muito complicada, mesmo complicada, estava a passar por uma fase de confusão mental, estava com sono e isso tirava-me a sensatez e a capacidade para agir normalmente, mesmo a chegar aos 130 km, perdi-me um pouco, pois mentalmente estava a criar imagens mentais que não correspondiam à realidade, estava a correr em direção à vila e a imaginar que esta estava cercada por uma rede, comecei à procura de uma alternativa, até que do nada surgiu um elemento da organização, que vinha de carro e que me disse o caminho, voltei a cair na realidade, quando estava a entrar no abastecimento os primeiros raios de sol rompiam por detrás da montanha.

Estive parado nesta base de vida, durante cerca de 1 hora, voltei a trocar de sapatilhas e as meias, e enquanto atestava os bidons, com água e isotónico, aproveitei para comer uma sopa quente, e voltar a colocar no camelbak mais umas barras. Neste local ainda tentei dormir mais um pouco pois, enquanto ponha o despertador adormeci, foram apenas 15 a 20 minutos voltei a despertar, estava disposto a regressar aos trilhos, enquanto isso os meus colegas italianos continuavam deitados, eu não queria perder mais tempo naquela base de vida, pois sentia-me com forças para continuar, neste momento começava já a pensar na próxima barreira horária que ficava a 12 km, e tinha que voltar a subir aos 2.575 m Pas de La Vaques.

3º Dia – O dia das emoções

Ao sair ainda descíamos um pouco, para logo de seguida começar a subir, embora os trilhos não eram muito técnicos, mas exigiam sempre uma grande concentração, a subida foi longa, embora eu estivesse cada vez com mais força para subir, pensava sempre que depois tinha de novo uma descida longa, fui subindo e fui ultrapassando alguns atletas, neste momento só queria encontrar de novo um grupo para me anexar, mas não precisei de muito tempo até que os italianos se voltasse a juntar a mim, já na descida para o km 142Incles, pois os pés continuavam sem me darem tréguas (ia pensando quando chegar lá baixo só vou ter mais duas grandes subidas, “escalar” até aos 2.657 – Cabana Sorda e aos 2.719 Collada Meneres). Durante a descida colei-me aos italianos, que mantinham um bom ritmo, eu agora não queria perder este “comboio”.

Chegamos a Incles, aqui fiquei como que aterrorizado, a responsável do controlo mandou-nos parar (a mim e um italiano), colocou-me a mão no ombro e eu pensei por momentos que o controlo já tinha fechado, MAS NÃO, foi só para me dar os parabéns, ( para mim ser tirado de prova a esta altura era o maior desalento da minha vida).

Aqui aproveitei a presença de um pedologista e tratei dos pés, a minha acompanhante Esmeralda Melo votou a presentear com um Red Bull estava de novo pronto cheio de animo e entusiasmo, só faltava ENFRENTAR A ÚLTIMA GRANDE SÚBIDA.

Voltei a fazer contas, estava a conseguir correr e caminhar mais rápido por isso ia conseguir chegar a tempo ao próximo controlo, fui pondo um empenho cada vez maior, tinha que me dedicar pois a subida era gigantesca 2.752 – Collada Meneres, fui ganhando terreno ao restante grupo, nesta fase do percurso fui encontrando muitos caminheiros, que sempre me davam mais força cada vez que passava por um grupo, ganhava mais entusiasmo a descida para Coms de Jan correu lindamente. Ao sair de Coms de Jan voltei novamente a subir aos 2.719 m, os pés deixaram de doer, sentia-me capaz de fazer os restantes 20 km sempre a correr, durante a subida, rapidamente juntei-me aos italianos, embora ainda faltasse um último ponto de controlo, já sentia que ia conseguir terminar esta prova.

Agora até ao fim foi praticamente sempre a descer, quando cheguei a Refugi Sorteny, estava super empolgado, só parei por breves minutos, tinha novamente a minha bebida energética de eleição, a Esmeralda, estava lá para me dar o impulso final, nestes últimos km, sentia-me feliz e confiante, fui recuperando alguns lugares, embora isto seja praticamente irrelevante, pois não seria mais um lugar à frente ou atrás que iria tirar o mérito a quem termina uma prova desta dimensão.

Estava já a reconhecer as ruas, o casario e os trilhos, estava a aproximar-me de Ordino, a meta estava à vista. A 2km da meta tirei a bandeira nacional que me acompanha em todas as provas internacionais, pois é com muita honra que termino envergando o nosso maior símbolo nacional.

Ao entrar na zona de meta e com o pórtico a 50 metros, entro em êxtase, ouço os aplausos, o speaker grita pelo nome e por Portugal “bravo Augusto bravo Augusto bravo” sou recebido como um Campeão, 60:44:54 – 170 km

Terminar uma prova com esta dureza, com este nível de exigência é um feito único, pois até ao momento em que cruzo o pórtico, passei pelas mais diversas e atrozes dificuldades, foram horas e horas em que Suor, Lágrimas e Sangue, se transformaram em endorfinas, em adrenalina, e em neuro adrenalina, e deram lugar a um momento único, a um momento que jamais será esquecido. EU ACREDITEI, EU CONSEGUI.

 

AUGUSTO OLIVEIRA

http://www.andorraultratrail.com