Pessoal e intransmissível: Assim é o treino do atleta

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T: Rute Barbedo F: DR

De sedentários que “acordaram” para o desporto a sonhadores com distâncias de três dígitos, foram milhares os que passaram pela beAPT no primeiro ano de actividade. A plataforma electrónica de prescrição de treinos faz-se valer da ciência dos dados para afinar os corações da corrida.

 

Aos 41 anos, José Loureiro corre 10 km a uma frequência de 145 batimentos cardíacos por minuto. “Há um ano, andava nos 165; as diferenças são brutais”, relata à RUNning. O que aconteceu em Novembro de 2016 foi que trocou os treinos à la carte entre amigos, nos quais definia objectivos (normalmente a distância) de forma aleatória, por um método personalizado e acompanhado pela beAPT. “Achava impossível fazer 100 km”, conta José, que agora se prepara para os 105 km do Ultra Trail Atlas Toubkal, em Marrocos, a 8 de Outubro. “Vamos subir até aos 3650 metros”, entusiasma-se o director de uma agência imobiliária em Ovar.

Se antes José Loureiro acordava a pensar em correr 8 km, agora o objectivo é manter o nível da frequência cardíaca calculado pela plataforma beAPT. “Controlando isso, cansamo-nos menos, produzimos menos ácido láctico, e conseguimos estar mais horas a correr. O coração, no fundo, é como um motor”, compara o atleta. Mas não é apenas este o factor que comanda os treinos quase diários (tem apenas uma folga por semana) de José. Há também noções de tempo, estratégias consoante o objectivo e um acompanhamento regular a afinar a sua evolução no terreno. “Não é só ter um programa informático por detrás, isto é quase uma família”, conta o corredor, que além de aceder à prescrição calculada pela plataforma electrónica, é acompanhado pelo ultramaratonista Armando Teixeira. “Falamos todos os dias ao telefone e corremos juntos ao fim-de-semana, sobretudo na Serra da Estrela”, contextualiza.

Uma plataforma de saúde
ffA beAPT foi lançada no ano passado pelo treinador de ultra-distâncias e professor de Educação Física Paulo Pires, em colaboração com o parceiro tecnológico LOBA e com a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. O conceito é simples: uma vez definido o objectivo desportivo – que vai desde a iniciação à corrida em estrada ou montanha, passando pela melhoria da condição física ou à superação de um determinado limite (uma ultramaratona ou uma prova de triatlo, por exemplo) –, o utilizador partilha o seu perfil biométrico (dados pessoais, resultados de análises clínicas, de um ecocardiograma e de um electrocardiograma recentes) e, a partir daí, é calculado um plano de treino em função das suas características e necessidades.

Seguindo os dados transmitidos por relógios de corrida é possível acompanhar a progressão do atleta, comparando os objectivos delineados com os resultados obtidos, através de indicadores como a frequência cardíaca. Para afinar a fiabilidade dos dados, a beAPT está, actualmente, a trabalhar no desenvolvimento de um aparelho próprio de medição dos parâmetros biométricos.

“Não somos uma plataforma de treino de rendimento mas de saúde e de qualidade de vida”, esclarece o mentor da iniciativa, Paulo Pires, que acompanhou a “escalada” no trail de atletas como Carlos Sá ou Armando Teixeira. “No início, há uma maior proximidade entre nós e o atleta, para ajudar a entrar na metodologia. Depois, ele passa a gerir o plano sozinho”, continua. A informação técnica é traduzida numa linguagem acessível, muitas vezes apresentada em gráficos e tabelas que permitem ao utilizador perceber a evolução do desempenho e o cumprimento de objectivos. “Sem isto, a evolução é muito lenta, nem que se treine todos os dias 10 km”, garante o utilizador José Loureiro.

Apesar de a corrida estar no centro da acção, a natação e o ciclismo (este em desenvolvimento) também podem fazer parte do programa. E “além do treino de base aeróbia, há a componente da musculação e da flexibilidade”, bem como a possibilidade de acrescentar valências como a nutrição e o aconselhamento clínico, já que, muitas vezes, o atleta pode ver o esforço do treino reduzido a pó por questões-base de saúde. Paulo Pires exemplifica: “O acompanhamento de uma mulher tem de ser mais próximo, devido à menstruação. Se ela não tiver um bom hemograma, pode treinar e cumprir todos os planos, mas não consegue ser eficaz.”

Contra o treino igual para todos
Desenvolver a beAPT foi possível porque “hoje há um conjunto de informação [sobre o atleta] que há alguns anos era completamente impensável”, nota o treinador, que admite que “a qualidade técnica e científica dos dados de uma pessoa que começou a correr e que quer melhorar a sua condição física está ao nível do que um treinador de elite tinha há uns anos”.

Tendo em conta este paradigma, Paulo Pires opõe-se à existência de programas de treino “iguais para todos”, como os que são promovidos e divulgados por algumas organizações de corridas. Por outro lado, “há um problema muito grave de saúde pública em Portugal”, defende o professor, referindo-se ao crescimento da prática da corrida sem um conhecimento sustentado sobre a actividade. “Há pessoas a cometer exageros, que têm 40 ou 50 anos e nunca fizeram nada na vida e de repente saem do sofá e vão correr maratonas ou provas de 100 km. As pessoas devem ter cuidado quando começam uma actividade física, nomeadamente fazendo um check-up médico antes. E nem todas têm um perfil genético para fazer ultra-distâncias, além da parte mental, que é muito significativa”, alerta o responsável.