Por vinhas, fajãs e vulcões

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Se “o triângulo” ainda não está na moda, vai ficar. E é por este nome que vai certamente tornar-se conhecida a Azores Trail Run – Triangle Adventure, cuja primeira edição decorreu de 30 de Outubro a 1 de Novembro, nas ilhas do Pico, São Jorge e Faial, e para a qual a RUNning foi convidada. A organização – a cargo da secção de trail running (com o nome oficial de Azores Trail Run) do Clube Independente Atletismo Ilha Azul, e encabeçada pelo ultramaratonista Mário Leal (com o apoio dos parques naturais das três ilhas e do Governo dos Açores) –, já tinha dado provas de conseguir aliar a vertente competitiva à recreativa e cultural. Desta vez, juntou-lhe a aventura de um desafio de três dias, em três ilhas de um arquipélago que é tudo menos estável e previsível, pelo menos, ao nível meteorológico. Tudo isto com o objectivo de “promover a Região Autónoma dos Açores, enquanto destino turístico de natureza”, afirma Mário Leal.

Vejamos então, o que tem esta aventura para oferecer. Em termos competitivos, é evidente a exigência de uma prova por etapas que, no conjunto, totalizam 103 km e um desnível positivo acumulado de 6 000 metros. Foi isto que motivou a participação de campeões da modalidade, nacionais e internacionais, como Lucinda Sousa; Armando Teixeira; Kamil Leśniak; Miguel Reis e Silva; ou Alfonso Rodriguez. As variações climatéricas (que influenciam não só o percurso, mas também a hora da partida e, claro, da chegada); bem como a necessidade de deslocação de barco para a linha de partida, acrescentam o factor “incerteza” e aquela noção de “tudo pode acontecer”, que engrandece o desafio.

Por outro lado, há a beleza do percurso e a motivação adicional de saber que só participando numa prova deste género se pode percorrer locais que têm tanto de remotos como de belos. E não falamos apenas da “Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, classificada em 2004 como Património da Humanidade, pela UNESCO; da Reserva Natural do Parque Natural do Pico; das fajãs, em São Jorge; do Vulcão dos Capelinhos, da Caldeira do Faial, ou do Parque Natural do Faial”, como destaca a organização. Falamos dos montes e vales, praias e prados, ribeiros e cascatas, pedras, rochas, escarpas, caminhos construídos e outrora percorridos pelas gentes da terra para garantirem o sustento. Há uma casa de pedra perdida no cimo do monte, uma igreja, um moinho, paisagens grandes que nos fazem sentir pequenos, mas ao mesmo tempo grandes porque podemos estar ali a correr, a olhar, a ver, a contemplar, a perder a vista num oceano de fauna e flora ímpar com janela para o Atlântico.

Mas os Açores não são só paisagem e a organização da Azores Trail Run – Triangle Adventure soube mostrá-lo. Por isso, além de definir trilhos que alegraram as vistas e deixaram as pernas bambas aos participantes, também lhes alegrou o estômago, “com a ajuda dos voluntários e parceiros irrepreensivelmente articulados em cada ilha”, como fez questão de frisar Mário Leal. Depois de cada etapa teve lugar um desfile de iguarias: alcatra, atum, batata-doce, inhame, arroz doce. Cada ilha promoveu os seus produtos da melhor forma que sabia e os atletas agradeceram. De tal forma, que até houve contagens decrescentes para o ataque ao repasto.

E como esta organização parece pensar mesmo em tudo, além das memórias e das fotografias, cada atleta recebeu queijo, vinho, mel e atum em lata. Não fosse o esquecimento de colocar o kit de atleta na mala de porão e tudo teria chegado bem ao continente. Recuperar as iguarias pode muito bem ser mais uma razão para no próximo ano voltar ao “triângulo” ou, quem sabe, ao losango, se a organização aceitar o desafio deixado pelos atletas.