Pyambuu Tuul, O herói improvável

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Chegamos ao fim da série de artigos sobre momentos inspiradores da memória olímpica com um herói sem pódio. Pyambuu Tuul não foi a estrela dos Jogos de Barcelona, em 1992, mas a sua conquista ficará para sempre na história como um reflexo do espírito da competição.

Texto: Inês Melo

O atletismo olímpico tem escrito algumas das mais inspiradoras histórias do desporto mundial. Da determinação de Abebe Bikila, o primeiro africano a conquistar o ouro olímpico, depois de vencer – descalço – a maratona dos Jogos de Roma, em 1960, à resiliência de Joan Benoit, que recuperou de uma cirurgia ao joelho para se tornar na primeira mulher a vencer os 42,195 km olímpicos de Los Angeles, em 1984. Mas nem só de medalhas é decorada a superação. Poucos terão ouvido falar de Pyambuu Tuul, também um nome desconhecido na linha de partida da maratona nos Jogos de Barcelona.

Em 1992, da Mongólia sabia-se apenas sobre o domínio no judo e na luta livre, por isso não foi estranho que ninguém esperasse ver Tuul no comando da prova-rainha. No entanto, a organização também não imaginava que quando o sul-coreano Hwang Young-cho cruzou a meta para o ouro, depois de 2h13min23s, o mongol ainda estaria a duas horas do estádio. A subida da colina de Montjuïc foi feita quase a andar, por um caminho mal iluminado, porque não estava previsto que alguém pudesse chegar de noite. Tuul tinha demorado 10 minutos a fazer o último quilómetro da prova.

Os juízes olhavam impacientes para o relógio. A cerimónia de encerramento estava a aproximar-se e era preciso começar a montar o espectáculo. Foi então que a organização decidiu que os atletas com mais de três horas de prova seriam conduzidos para terminar a maratona numa pista de treino ao lado do estádio. O mongol cortou a meta depois de quatro horas de agonia, sem público, em absoluto silêncio. Ali perto, um vulcão de luz e música iluminava a noite.

Recordes olímpicos

Quando lhe perguntaram porque tinha sido tão lento, Tuul respondeu: “O meu tempo não foi lento; afinal, esta prova pode ser considerada o recorde olímpico da Mongólia”, cita o jornal DNA India. Aos 33 anos, o atleta tornava-se no primeiro mongol a completar uma maratona em Jogos Olímpicos. A proeza ficou na história, mas o maior feito tinha sido alcançado um ano antes de aterrar em Barcelona. Tuul trabalhava na construção civil quando, em 1978, perdeu a visão durante uma explosão. Depois de duas operações mal sucedidas, ficou sem esperança de voltar a ver, até cruzar-se com a Achilles Track Club.

Doze anos depois do acidente, esta organização internacional, que promove a prática de atletismo junto de pessoas com deficiência, convidou-o para participar na Maratona de Nova Iorque. Conduzido por um guia, Tuul caminhou durante a maior parte do percurso, que terminou em pouco mais de cinco horas. Em 1991, com a ajuda da Achilles, submeteu-se a um transplante de córnea que lhe permitiu ver, pela primeira vez, o rosto das filhas. Passado um ano e meio, alinhava na maratona olímpica, não para ganhar, mas para provar que um homem tem muitas possibilidades.