“Qualquer atleta quer ganhar uma corrida de São Silvestre”

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Encontrámos Rui Pedro Silva sereno, no Parque da Devesa, em Famalicão, cinco dias após a Maratona do Porto (2 de Novembro) e já em preparação para a Corrida de São Silvestre (28 de Dezembro), na mesma cidade, onde espera alcançar a sexta vitória consecutiva. Em marcha lenta, contou que em momento algum se sentiu bem durante a maratona, mas foi o primeiro português a cortar a meta. A conversa a seguir serviu para perceber que uma corrida nunca vem só: às vezes, umas são as vinganças das outras.

Texto: Rute Barbedo

Fotografia: Luciano Reis

Que dores foram essas na maratona que te fizeram, afinal, cortar a meta em segundo lugar, entre um etíope e um queniano?

Eu ia com um objectivo, que era fazer um grande resultado, porque no Europeu [há quatro meses, em Zurique] a maratona não me correu muito bem. Eu estava numa grande forma, mas o percurso era muito sobe-e-desce e isso massacrou-me bastante. Logo que parei, cerca dos 32 km, disse: “Hoje não é o dia, mas no Porto vai ser.” Tinha de me vingar de Zurique. Queria vencer, mas há corridas em que o corpo não reage como a gente quer.

Qual foi a estratégia com que partiste para a maratona?

Numa maratona, tudo é imprevisível. Mas a minha estratégia era segui-los o máximo possível. Depois, na altura certa, era atacar para ganhar. Não deu. Tive de reduzir o ritmo para me sentir bem e conseguir chegar ao fim. Quando cheguei aos 15 km, pensei: vou é para a corrida de 16 [risos]! Mas foquei-me e tinha de ir à luta, porque as pessoas estavam a contar comigo. Sabia que por volta dos 20/25 km os africanos iam atacar e nunca fui ao choque, nunca tentei segui-los, porque fisicamente não sentia o corpo a reagir como devia. Sofri muito. Tive de ir buscar forças não sei onde. Por isso, ter ficado em segundo foi excelente.

O que aconteceu depois dos 30 km?

Houve uma subida antes da Ponte D. Luís que me deu uma descarga nas pernas e eu não consegui ir com os africanos. Tive de encontrar o meu ritmo e foi isso que tentei. Não era uma subida muito íngreme, mas, depois de 30 km, o pouco que seja já marca. Depois, consegui recuperar porque tinha aquelas pessoas todas a puxar por mim e eu ia a vê-los [os adversários] e ia-lhes ganhando terreno, o que também motiva. Quando faltava 1,5 km para o fim, era terceiro e já estava a ver o segundo de um lado para o outro [faz o gesto de ziguezague com as mãos], já quase a passo. Quando o ultrapassei com aquela gente toda a puxar por mim… Até arrepia!

Passaram cinco dias. Como te sentes em termos físicos?

Neste momento, podia fazer outra [maratona], ao contrário do que aconteceu em Zurique, onde não cheguei ao fim e estive uma semana em que quase não conseguia andar. Nesta, logo no dia seguinte treinei e estou a recuperar bem. Pensei que não iria ser assim…

A maratona é a distância em que te sentes mais confortável?

Quando se treina para uma maratona consegue-se fazer provas de 10 000 [metros], meias maratonas, faz-se isso tudo… E a verdade é que as minhas melhores marcas, tanto aos 10 000 como na meia maratona foram quando eu estava a treinar para a maratona.

Então estás no momento ideal para a Corrida de São Silvestre do Porto.

Sim. Agora vou treinar menos quilómetros, menos séries, com um ritmo mais rápido. Para a maratona estava a treinar entre 200 e 220 e agora vou treinar uns 170, para ganhar mais na velocidade.

És o único atleta que venceu cinco vezes consecutivas esta prova. Vais ganhar a sexta?

Vou lutar pela sexta. No ano passado, desde o tiro de partida, fui sempre em primeiro. Nessa altura, sentia-me muito bem. Sentia que conseguia fazer isso. Agora, nestes dois meses que ainda faltam, vou tentar chegar lá forte e só no dia é que vou ver como o corpo reage e que táctica irei usar.

Falas com muito carinho da maratona, a prova-rainha do atletismo. Qual é o teu sentimento em relação à Corrida de São Silvestre?

Chegar ao fim de uma maratona é uma sensação que só quem passa por ela é que sabe. É tanto tempo de preparação que quando se chega ao fim é que se vê que todo o trabalho por trás e todas as restrições afinal surtiram efeito. Numa maratona, se aos 30 km vais bem, aos 30 km e 200 metros já vais mal. Depois, vais em piloto automático. É impossível controlar o corpo. E uma pessoa acaba quase ali a chorar. É uma descarga emocional muito grande.

Numa corrida de 10 km é bem diferente. Mas é claro que a corrida de São Silvestre é das minhas preferidas, porque é uma corrida que qualquer atleta quer ganhar. E a São Silvestre do Porto é Porto, é a minha região, são as pessoas que me conhecem.

Como é correr com a camisola do Benfica pelas ruas do Porto?

[Risos] Não é fácil. Passa-se por muitas situações… [pausa] Mas quando uma pessoa é profissional, veste o equipamento e só tem de fazer o seu melhor para ganhar, seja no Porto ou em Lisboa. E é isso que eu faço: dignificar o clube.

 


 

Metas e notas

  • Nasceu a 6 de Maio de 1981, na Trofa
  • Vive em Vila Nova de Famalicão
  • Corre pelo Sport Lisboa e Benfica
  • É treinado por João Campos
  • Começou a correr na escola primária, aos 7 anos
  • Aos 9 anos, já treinava três vezes por semana
  • É o único atleta português com cinco vitórias  na Corrida de São Silvestre
  • Em 2012, ficou em oitavo lugar nos 10 000 metros do Campeonato Mundial de Atletismo
  • Nos 10 000 metros da Taça da Europa, ficou em quinto lugar em 2007, em segundo em 2009, em quarto em 2010 e em sexto em 2012. Desistiu nos anos de 2008 e 2011
  • Em 2006, ficou em quinto lugar no Campeonato Europeu de Corta-Mato e ganhou a medalha de bronze por equipas
  • Nos 10 000 metros dos Jogos da Lusofonia de 2009, arrecadou a medalha de ouro
  • Não gosta de perder