Quando a vida começa aos 80

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Enquanto a maioria dos homens da sua idade já se acomodou a tempo inteiro no sofá, José Canelo continua a dar-nos razões para acreditarmos que os 90 anos podem ser os novos 30. Vive no Entroncamento, mas é um fenómeno internacional.

Inês Melo / Tiago Sousa

Era um público em êxtase, aquele que aplaudia de pé a final dos 5 000 metros no Campeonato do Mundo de Atletismo Master, na cidade francesa de Lyon, em Agosto. Na pista, um atleta português acabava de cortar a meta em 35m42s03’, com uma volta de avanço sobre o segundo classificado. Nada mal para quem começou a correr aos 30 anos, quando Elvis Presley lançava o primeiro single e o mundo rejubilava com a chegada da cor à televisão – “a caixinha mágica” só entraria em Portugal no ano seguinte, ainda a preto e branco.

José Canelo, 91 anos, passou a vida com a farda colada ao corpo. Deixou o exército quando era sargento-mor, mas costuma dizer que nunca se aposentou. Foi em 1954, quando desembarcou na Índia como mecânico de armamento, que descobriu a “fonte de riqueza” que o torna um ser extraordinário. Dessa terra longínqua com sabor a malagueta, ainda sente o calor sufocante. “Em Goa, era impossível trabalhar depois das 14 horas. Enquanto o pessoal ia descansar, eu corria para praia. Comecei a sentir um à vontade tão grande com aquela rotina, que era como se a máquina [aponta para o coração] dissesse: ‘Estou a agradecer-te, continua.’”

No regresso, foi colocado em Lagos, depois em Viseu e, mais tarde, no Entroncamento – terra de fenómenos, onde há couves que dão cravos, carneiros com quatro cornos e até um toureiro que mordeu o touro. Nessa altura, já o atletismo tinha “criado raízes” em José Canelo. Era presença firme nos campeonatos nacionais militares e, ao fim-de-semana, atleta de meias maratonas. “Não recordo a primeira vez em que fui chamado para a selecção nacional, mas se perguntar pelo número de sócio da ANAV [Associação Nacional de Atletismo Veterano], sou o 230!” Os gestos acompanham o discurso ágil, num corpo protagonista que tem uma história para contar.

“Armado em saloio”

José Canelo tinha pouco mais de 80 anos quando decidiu aventurar-se na pista. No dia em que se tornou atleta federado, começava uma nova página na história do atletismo. Em 2010, aos 85 anos, foi apurado para o Europeu de Atletas Veteranos, na Hungria. Disse que não ia, mas a decisão ficou a remoer-lhe o orgulho. “A certa altura, lembro-me de pensar: ‘Estás armado em saloio. Um homem com medo de andar de avião?’ Isto entrou-me na massa encefálica de tal forma que tive de aceitar”, conta numa gargalhada desafogada. Da viagem recorda as pernas que tremiam; da competição tem as recordações penduradas na parede: foi medalha de ouro nos 10 000, 5 000, 1 500 e 800 metros.

“Na Hungria, como depois na Bélgica, na Polónia, na Alemanha, na Turquia… não existe ninguém desta idade a fazer os tempos que eu faço.” Não há sombra de presunção nas palavras de José Canelo. Há uma alegria que lhe enche o rosto e desarma o peito. No Mundial de Lyon, não segurou as lágrimas quando o público se levantou para o aplaudir. Foi implacável nos 5 000 metros, mas também nos 1 500, 800 e 400 metros – nesta distância bateu o recorde nacional, que há 16 anos pertencia a Alípio Santos. “Era uma alegria tão grande, que as lágrimas corriam-me pelo rosto. Só pensava: ‘Como é possível, com esta esta idade, ainda ter estes elogios.’ É o que me dá ânimo para continuar.”

Não são raras as vezes em que, junto à linha de partida, pede licença às pernas para correr. Precisou de abrandar o ritmo uma única vez, por causa de um problema de saúde na próstata. Até hoje, essa é a única medicação que continua a tomar. Corre três dias por semana, cerca de 25 km, mas aos 80 anos ainda fazia treinos diários de uma hora. O percurso é quase sempre o mesmo, de casa à Barragem do Bonito. “E é tão bom! Sinto que a corrida é como se fizesse parte do meu alimento.”

A vida à flor da pele

Na sala, com as paredes curtas para tantas memórias, repousa “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”. É o escritor Mário de Carvalho que agora faz companhia a José Canelo, viúvo há mais de trinta anos. Com a ajuda do neto Zé Luís – parceiro de todas as horas –, está a “adaptar-se ao computador” e até já fez uma página de Facebook. Mas quando está em casa, o que prefere mesmo é abrir um livro ou ver um filme. “Gosto muito de romances, não sei se é devido à idade…”, conta num sorriso de menino.

José Canelo tem a vida à flor da pele. Não esquece o dia em que lhe disseram que, com certeza, estaria no atletismo por interesse, porque se ganhava bem. “Essas palavras ferem muito, porque eu tenho uma forma diferente de ver a vida. Além disso, ninguém me paga nada. Recebi um único patrocínio ao longo da minha carreira, e foi aos 91 anos.” Há alguns meses, o neto decidiu escrever para a Delta Cafés. Pouco tempo depois estava a ser contactado pela empresa: queriam oferecer 200 euros ao avô. “Fiquei muito contente. No dia em que tiver de parar é porque já não consigo mesmo.”