Quando Jesse Owens estragou a festa de Hitler

Mário Leal
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Nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, Adolf Hitler estava convencido da superioridade da raça ariana. Jesse Owens provou-lhe o contrário. Até aos Jogos do Rio (de 5 a 21 de Agosto), a RUNning, conta-lhe como o atletismo olímpico tem inspirado a História.

Texto: Inês Melo

Na tarde do dia 1 de Agosto de 1936, Adolf Hitler inaugura os Jogos da IX Olimpíada – como ficaria conhecido o evento nesse ano. Enquanto o líder fardado discursa do camarote, mais de 20 mil pombos brancos são lançados nos céus de Berlim. Cá em baixo, no meio da delegação dos EUA, Jesse Owens não parece preocupado com as políticas do Führer. Antes sonha mostrar-se ao mundo e encher de orgulho o peito americano.

Com a Europa mergulhada no fascismo, a Alemanha está determinada a seduzir o resto do mundo. Hitler manda ampliar o orçamento do evento e dispensa os atletas alemães de outras actividades, enviando-os para centros de treino na Floresta Negra. Em 1936, a propaganda do regime está por todo o lado: na televisão (foram os primeiros Jogos televisionados), nas ruas e até nas paredes do estádio. Mas Jesse Owens não a vê. Quando pisa pela primeira vez a pista de atletismo, é engolido pelo ruído da multidão – 100 mil pessoas que aplaudem e gritam por ele. É um ídolo.

A 3 de Agosto, vence a primeira final em Berlim, nos 100 metros. No dia seguinte, regressa para a qualificação no salto em comprimento, mas pisa a linha e falha as duas primeiras tentativas. Quando lhe resta apenas um salto, Luz Long – alto, loiro, olhos azuis –, aproxima-se e sugere-lhe que faça um sinal no chão, uns metros antes. Owens segue o conselho e qualifica-se para a final. Nessa tarde, vence a segunda medalha de ouro. Long é o primeiro a dar-lhe os parabéns. “Foi preciso muita coragem para vir ter comigo ali, à frente de Hitler”, conta mais tarde o afro–americano. “Posso derreter todas as minhas medalhas e taças, que nunca serão mais importantes do que a amizade que senti por Luz Long naquele momento.”

O que ficou por explicar
No dia 5, o atleta despede-se da multidão com um novo recorde olímpico, desta vez nos 200 metros, sem imaginar que voltaria a subir ao pódio. Quatro dias depois, Jesse Owens e Ralph Metcalfe são chamados para substituir Marty Glickman e Sam Stoller (os únicos judeus da equipa norte-americana) nos 100 metros estafetas. Para a história fica a justificação dos técnicos – que precisaram de atletas mais rápidos para ganhar a prova –, mas também a quarta medalha de ouro para

Owens em Berlim.
Durante anos escreve-se que Hitler, furioso com os feitos do atleta, abandonou a tribuna de honra sem lhe apertar a mão. Não terá sido assim. Jesse Owens sempre insistiu que não foi ignorado pelo Führer, até que em 2009 um jornalista alemão revelou uma fotografia dos dois a cumprimentarem-se. Ironicamente, Owens não chegou a ser recebido por Franklin Roosevelt, presidente dos EUA. Teve direito a uma recepção no Hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque, mas devido às leis da segregação racial foi impedido de subir no elevador dos hóspedes e teve de apanhar o dos fornecedores.