Ricardo Ribas: devem pensar que eu vim do Rio mais fraco, mas estão enganados.

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Ricardo Ribas

Rute Barbedo / Paulo Jorge Magalhães

 

Ricardo Ribas chegou dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, caminhou 200 km até Santiago de Compostela e quando se olhou de novo ao espelho, em Guimarães, já era estudante. Encontrámos o atleta do SL Benfica no Instituto de Estudos Superiores de Fafe, nas aulas de Educação Física e Desporto, longe de uma depressão pós-Rio, perto de Tóquio 2020.

O regresso às aulas aconteceu mais cedo do que esperava. Quais eram os planos iniciais?

Surgiu esta oportunidade. Os planos eram acabar a carreira na alta competição e depois dedicar–me à parte académica [estudou até ao 9.º ano e ingressou, este Outono, no Ensino Superior através do programa especial para maiores de 23 anos] e pensar no futuro. O atletismo é uma passagem. Há pessoas que terminam a carreira desportiva e depois não sabem [o que fazer]. Não queria que isso acontecesse. Já trabalhei num restaurante durante oito anos [depois de, aos 17 anos, ter fugido de Malhadas, em Miranda do Douro, para Lisboa à procura do sonho do atletismo] e sei o que isso é.

Não pensava assim quando era mais novo.

Na altura, os pais querem o melhor para nós e uma pessoa não liga nenhuma. Neste momento, sou eu a dar esse conselho [tem uma filha com 7 anos]. Dou o meu exemplo àqueles jovens que querem dedicar-se ao atletismo a 100% e dizem que não têm tempo para os estudos.

O mais difícil tem sido gerir o tempo?

Sim. Tenho de me levantar às 6h30 para treinar, para conseguir os meus objectivos e os do meu clube [SL Benfica]; tenho as aulas para assistir [são seis horas diárias], os testes para fazer…

E ainda assume funções de treinador…

Sim, tenho um grupo de 12 atletas, um deles foi medalhado [bronze na maratona, na categoria T46] nos Jogos Paralímpicos [em Setembro], que é o Manuel Mendes. Estou também a dar apoio, como treinador-adjunto, à Dulce Félix [com quem vive] com a professora Sameiro Araújo. Depois tenho a Doroteia Peixoto e um mini- -projecto online [Training The Online Distance], em que acompanho 30 atletas de pelotão. Faço-lhes planos de treino de quatro em quatro semanas, vamos falando e eles vão conseguindo progredir. O primeiro rapaz que me contactou pesava 120 kg e queria fazer a Maratona do Porto…

Conseguiu?

Sim.

Em que idade se começa a pensar nestas actividades paralelas à competição?

Eu sempre tive uma ambição muito grande e quero estar ligado à modalidade, por isso tenho os meus projectos. Até já registei uma marca de roupa, a RR, e tenho mais de 250 camisolas a correr nas estradas nacionais.

E o atletismo paralímpico? Quando começou o contacto com esta realidade?

Um dia, o Manuel Mendes foi à Maratona do Porto e fez a marca de referência para os Paralímpicos. Contactou-me, disse que gostava que eu o orientasse e a partir desse momento foi… foi até à medalha! Posso dizer que uma das melhores coisas que me aconteceu neste contexto de treinos foi o senhor Manuel ter-me aparecido [há três anos], porque eu estava a passar por uma fase menos boa a nível desportivo, e quando conhecemos alguém que tem uma dita deficiência e a vida dele está sempre bem, percebemos que somos uns “queixinhas”. Se ele não arranja uma tempestade num copo de água…

…ninguém pode arranjar. Como foi assumir esse papel de motivador?

Nós apostámos os cavalos todos na maratona de Abril, no Campeonato do Mundo. Ele bateu o recorde pessoal [com 2h37m] e foi quinto. Então, ficámos logo com grandes perspectivas de ir aos Paralímpicos. Só que estivemos três meses a trabalhar sem certezas. Não foi fácil, mas ele empenhou-se. Depois, a minha participação nos Olímpicos [em Agosto] não foi a que mais desejei [ficou no 134.º lugar, com uma marca 25 minutos acima do recorde pessoal], mas tirei as minhas ilações, como atleta e como treinador. Contei ao Manuel as dificuldades que tinha passado, o clima que apanhei [92% de humidade]… Se calhar uma das grandes asneiras que fiz – agora também não se sabe – foi ir [para o Brasil] pouco tempo antes da prova, enquanto ele foi 22 dias antes.

Até porque nada indiciava um resultado assim. Tinha acabado de bater o seu recorde pessoal.

Sim, em Abril [na Maratona de Dusseldorf]. Fiz tudo bem, mas naquele dia as coisas não funcionaram. Para mim, ir aos Jogos Olímpicos era um sonho, mas tornou-se um pesadelo, porque foi a prova da minha vida em que mais sofri. As pessoas diziam-me para não desistir, mas eu chorei e só queria acabar.

Já percebeu o que se passou? Foi a pressão dos Jogos?

Não acredito nisso. Com 39 anos já não sinto pressão nenhuma.

Que palavras teve à sua espera quando concluiu a maratona?

É óbvio que fui reconfortado. Estava lá a pessoa que tem sido muito importante na minha vida, a Dulce. Eu comecei a chorar e… E disse: “Se eu fiz o que fiz hoje, sou um super-atleta.” Muita gente deve pensar que eu vim de lá mais fraco, mas estão completamente enganados. Vim do Rio muito mais forte. Tenho 39 anos mas não descarto estar em 2020 em Tóquio a correr a maratona.

Aliás, a sua resposta às críticas foi: “Já estou concentrado no futuro.”

[risos] Se acabo uma maratona destas, penso logo no futuro. O que me interessa é o facto de ter 24 anos de carreira e andar sempre de cabeça erguida. Já tive bons e maus momentos. Costumo dizer que há dois tipos de atletas: os que ganham medalhas e os que são referências porque trabalharam, nunca desistiram e conseguiram alcançar o que pretenderam. É neste grupo que me identifico. Dizer aos miúdos para irem para o atletismo para ganharem medalhas é provavelmente uma asneira, porque à primeira vez que não ganharem vão desmotivar e vão desistir.

Como começou a obsessão pelo atletismo?

Sempre fui fanático pelo atletismo. Nunca precisei de ver ninguém ganhar uma medalha. Com 8 ou 9 anos já fazia os meus percursos de 7 km, registava e cronometrava tudo.

 Veio tudo da sua cabeça?

Tudo. Foi aquela paixão de conquistar, de um dia ser um grande atleta. Depois [aos 17 anos] houve a famosa fuga para Lisboa…

Nessa altura estava no Ginásio Clube de Bragança. Esperar que o chamassem de um clube maior não era uma hipótese?

Ainda mandei cartas para o Benfica e para o Sporting, mas é óbvio que nunca recebi resposta.

Mas quando chegou a Lisboa, as portas não se abriram logo.

Fui para um restaurante trabalhar, mas depois as coisas proporcionaram-se e fui para o Maratona Clube de Portugal. Estava oito horas diárias no restaurante e treinava duas vezes por dia. Os resultados começaram a aparecer e assim que o Maratona apostou em mim deixei o restaurante. Agora ponho-me a olhar para trás e vejo que podia ter corrido mal. Passei dois ou três dias em Lisboa num ambiente nada agradável [chegou a arrumar carros na zona do Campo Grande]… Foi um risco.

O risco da mochila às costas. Tem orgulho nesse episódio?

Consegui o que queria e o que ainda quero. E não critico a atitude, na altura, dos meus pais. É óbvio que estando numa aldeia, dizer-se “quero correr” não é fácil. Mesmo hoje… “Correr é o quê?” Mas essa fase já passou e os meus pais apoiam-me.

Isso mostra como é difícil singrar-se no atletismo.

É como em tudo na vida. Há um estudo que mostra que só 10% das pessoas em Portugal trabalham naquilo que gostam. Eu lutei por isso. Já estive quase para desistir, mas voltei a recuar, porque quando uma pessoa começa um livro tem de acabá-lo.

Quando é que este livro se completa?

[risos] Não sei. Eu acredito que o capítulo mais vitorioso ainda está para vir. Para já, acho que tenho feito um caminho interessante. Tenho noção de que não sou um atleta talentoso, mas um atleta de trabalho. Para ganhar aos meus adversários tenho de trabalhar mais do que eles, dormir mais do que eles e descansar mais do que eles.

Há quanto tempo deixou Lisboa [para viver em Guimarães]?

Há seis anos.

Sentia falta do Norte?

Foi o coração que mandou. [risos, numa referência a Dulce Félix]

Perguntei isto porque há uma grande quantidade de atletas, entre os melhores, com raízes no Norte de Portugal. Há uma explicação para isso?

Eu acho que sim. Grande parte dos atletas vieram de zonas onde o trabalho é muito duro, e basta uma pessoa ter talento e olhar para o pai e para a mãe que saem de casa para trabalhar oito horas numa fábrica e ganhar o ordenado mínimo… Isso faz com que olhem para o atletismo de outra forma.

 Muitos profissionais queixam-se das dificuldades do atletismo e da falta de apoios. De que lado o Ricardo se coloca nesta discussão?

O atletismo não é fácil, e para se chegar ao topo tem de se ter um patrocínio muito grande: a família. Se não tivermos a família do nosso lado, a apoiar-nos a 300%, pode haver um clube, uma federação, um projecto olímpico… A família tem de ser muito forte.

Há pouco tempo fez o Caminho de Santiago, desde Guimarães. Como foi caminhar uma distância destas para alguém que corre?

Há mais ou menos dois anos conheci o José Capela, que faz muitos trails e participa em corridas solidárias, que me disse que se eu ficasse nos dez primeiros lugares no Europeu íamos de Guimarães ao São Bento [da Porta Aberta, o santuário em Terras de Bouro] a pé. Eu fui décimo, e quando chegámos ao São Bento ele disse-me: “Oh Ribas, agora, se conseguires ir aos Jogos Olímpicos, é de Guimarães a Santiago de Compostela.” Fizemos Guimarães-Santiago em três dias. Foi muito duro. Fisicamente nunca hei-de estar preparado para isso, e psicologicamente não estava. Mas foi uma emoção muito grande, porque uma hora e meia depois de ter chegado a Santiago, o Manuel [Mendes] ganhou a medalha de bronze. No final, eu só disse ao Capela: “Agora, se eu for a Tóquio, veja lá o que vai prometer!”

 

Ricardo-Ribas-011

 Factos

Idade: 39 anos

Naturalidade: Hamburgo (Alemanha). Aos 3 anos, voltou com os pais para a aldeia de Malhadas, em Miranda do Douro.

Clube: Sport Lisboa e Benfica (desde 2012)

Treinadora: Sameiro Araújo

Recorde pessoal na maratona: 2h13m21s

Objectivos: repetir o título de campeão nacional de corta-mato; conseguir um bom resultado na maratona do Campeonato do Mundo, em Londres, em    2017; e participar nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.