Rui Pinho: “O futuro da ATRP é fiscalizar todas as provas”

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Para Rui Pinho, quase há dois anos à frente da ATRP, “o trail é um desporto amador ao qual é exigido profissionalismo”. Se isso pontua a favor do seu reconhecimento, também assinala o peso da crítica por parte da comunidade desportiva. São as “dores de crescimento” numa história que ainda agora começou.

T: Rute Barbedo F: Paulo Jorge Magalhães

Em Novembro, a ATRP divulgou o calendário de 2018. Entre as críticas, acusaram a ATRP de estar a criar um “trail for the boys”. Rui Pinho, presidente da associação desde Janeiro de 2016, reagiu de imediato. Diz que as críticas são motivadas pela “desilusão e revolta” de quem ficou de fora dos campeonatos. Há muito por profissionalizar no trail português e uma das principais batalhas desta direcção, segundo o dirigente, é certificar e fiscalizar o maior número de provas possível.

É difícil gerir a ATRP?
É difícil gerir as expectativas das pessoas relativamente à ATRP. A associação, em si, é muito pequena, com um orçamento que já fez rir responsáveis de clubes [ronda os 70 mil euros]. A ATRP tem de profissionalizar algumas das suas funções de gestão. Temos subsistido com a carolice dos oito que estão na sua gestão.

Quais são as expectativas mais difíceis de gerir?
Nós, portugueses, ansiamos sempre por alguém que nos proteja. Eu compreendo. As pessoas esperam de nós uma boa regulação da modalidade e que tenhamos atenção ao que se passa nos trails, e é essa a nossa meta. Mas também sabemos que só falha quem faz e que algumas situações acontecem porque estamos no campo do amadorismo. Este é um desporto amador a quem é exigido profissionalismo.

Então não é justo que, de cada vez que a ATRP lança uma novidade, surjam críticas?
Há sempre uma forma diferente de fazer as coisas. Mas pior do que uma má decisão é uma eterna indecisão. O que aconteceu este ano foi que implementámos o modelo de Séries 150 e Séries 100 e chegámos a uma altura em que ainda havia possibilidade de os principais candidatos lutarem pelo campeonato e aconteceu uma impossibilidade da parte da ATRP, relativa ao apuramento do ranking ITRA [Associação Internacional de Trail-Running] de partida das provas. Todos temos noção desse ranking. Mas não basta ter noção, temos de o provar. Sabemos, por exemplo, que o MIUT [Madeira Island Ultra Trail] é uma prova com ranking ITRA de partida superior ao EstrelAçor, mas tínhamos de o provar. E não houve possibilidade de cruzar informação, a nível informático, entre a ATRP e a ITRA. Portanto, tivemos de pôr um critério adicional, senão iríamos ter empates no fim do campeonato. Pusemos o critério de confronto directo porque achámos que era justo. Depois, tanto no plano feminino como no masculino, os resultados acabaram por facilitar e por falar por si.

Esta direcção introduziu mudanças relativamente ao número de provas e à forma de pontuar para os campeonatos…
O número de provas exigido é o mesmo. O que havia antes era um circuito limitado, com poucas provas, onde muitos atletas participavam nos campeonatos todos. Continuam a poder fazê-lo mas o que quisemos foi dar ao atleta a possibilidade de escolher as provas às quais quer ir, diversificar a oferta, dando oportunidade aos organizadores de mostrarem o que valem e fazendo com que as provas cresçam por elas. Sabemos que a grande maioria dos atletas de
trail quer ser finalista do campeonato.
Quando entrámos [na direcção], o grande desafio foi começar a entrosar o trail [nacional] com a ITRA e com a IAAF [Federação Internacional de Associações de Atletismo], tendo em conta os novos regulamentos. Dependemos disso; não podemos ser diferentes do que se faz lá fora, onde nos consideram estar num nível de expertise. A ATRP está a “dar oportunidade aos organizadores de mostrarem o que valem”.

Não deveriam mostrá-lo antes de verem as suas provas incluídas nos campeonatos?

Claro que sim. A grande maioria das provas que foi este ano integrada nos campeonatos já tinha feito parte de campeonatos interiores… Mas o novo modelo de certificação da ATRP vai introduzir uma nuance: as organizações associadas certificam a prova; todas as provas certificadas pertencem, no ano seguinte, à Taça de Portugal de Trail; e, sendo certificadas, são consideradas para o circuito do ano a seguir. Este modelo serve para que tenhamos um fio condutor entre todas as provas.

Quais são os critérios para que uma prova pertença aos circuitos da ATRP?
Para os campeonatos, quisemos ter uma boa distribuição geográfica, porque não se tem de fazer só trail em serras muito duras; tem de haver trail no Alentejo, no Algarve, nos Açores… E tem de haver heterogeneidade dos próprios trilhos, para que todos os atletas tenham oportunidade de correr nos ambientes que preferem. Depois, as organizações devem cumprir os critérios quanto à segurança, abastecimentos, inscrições, ao número de associados que devem admitir nas provas, etc.

Como vês o trail desenvolver-se em Portugal?
O passo da certificação foi o primeiro. É um processo informático, mas depois falamos com os organizadores, vemos a prova, os trekkings, sabemos que têm as licenças necessárias. A partir daí, são as associações regionais [dependentes da FPA] que licenciam as competições. O futuro da ATRP é fiscalizar todas as provas de trail em Portugal e todas as que sejam certificadas por nós. Não podemos ter centenas de pessoas numa montanha e não saber onde estão e o que lhes vai acontecer.

Quantas provas estão certificadas?
Ao todo, são cerca de 150 provas. Que nós saibamos, em Portugal, há perto de 400, portanto, ainda estamos muito longe do número ideal [de certificações].

E como serão apurados os campeões de 2018?
O vencedor do circuito não tem nada a ver com o campeão nacional. Os campeonatos nacionais serão disputados apenas numa prova, como se faz no atletismo. Já a Taça de Portugal de Trail será nos mesmos moldes deste ano, com o apuramento das séries regionais e com uma final. As taças de Portugal de Ultra Endurance e de Ultra Trail serão também disputadas numa única prova. As taças são abertas a todos os atletas, enquanto o campeonato nacional é fechado aos que tiverem o ranking exigido. Portanto, acabaram os mínimos, um sistema que a IAAF também vai adoptar.

Uma prova mais difícil não deve valer mais pontos?
No World Tour o modelo de classificação é assim. Mas nós não achamos muito justo, porque nem sempre o atleta com mais técnica será o melhor no ultra endurance. Se fizermos a classificação das provas pelo grau de dificuldade, os organizadores vão incluir subidas – se calhar algumas sem sentido – para o participante. O atleta que faz a Rocha da Pena no Algarve deve ter a mesma oportunidade de disputar o campeonato do que quem faz ou Louzan Trail ou a ultra da Freita. Depois, na final, é que se define o vencedor.

Muitos atletas da elite portuguesa optam por competir no estrangeiro. O que é que isso revela sobre os campeonatos nacionais?
Não é bem assim. O Armando Teixeira e o Carlos Sá, por exemplo, fazem muitas provas em Portugal, até para se prepararem para competições lá fora. Ou seja, encaram-nas como corridas de preparação. Nestes casos… Mas a grande maioria gosta de competir com os melhores atletas portugueses e, em termos de organização, não ficamos atrás de nenhum evento lá fora. Portugal é muito bom a organizar trail.

E o controlo anti-doping? Não faz falta?
O controlo não depende de nós mas da ADoP [Autoridade Antidopagem de Portugal]. São eles que definem as modalidades que querem controlar. Mas acho que o atleta de trail é leal e tenho por princípio confiar nas pessoas. E a verdade vem sempre ao de cima.