Running no feminino: A diferença em evidência

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Dr.ª Rita Tomás, Médica Especialista em Medicina Física e de Reabilitação e Medicina Desportiva | Clínica CUF Alvalade

Por que é que as mulheres têm menor velocidade e resistência na corrida?

Existem várias diferenças anatómicas e fisiológicas que explicam a menor capacidade aeróbia das mulheres. O sexo feminino apresenta uma maior percentagem de massa gorda e uma menor massa muscular. As mulheres têm uma menor capacidade de transporte de oxigénio no sangue devido a terem um menor volume sanguíneo e menor concentração de hemoglobina. Adicionalmente, a atleta do sexo feminino em idade fértil tem perdas cíclicas de sangue através da menstruação. Estes aspectos levam a uma menor capacidade na captação de oxigénio ao nível dos pulmões e menos oxigénio disponível para ser utilizado pelos músculos. As mulheres têm também um coração mais pequeno, o que leva a um menor volume de sangue ejectado a cada batimento cardíaco.

Quais as lesões mais prevalentes nas mulheres?

A mulher-atleta tem um maior risco de desenvolver lesões de sobrecarga como a síndrome patelo-femoral e as fracturas de stresse. Dois dos factores de risco para a síndrome patelo-femoral (dor anterior no joelho) são o joelho valgo (joelho “para dentro”) e a atrofia do quadricípite, que são mais comuns nas mulheres. A prevenção passa por um treino de força e flexibilidade dos principais grupos musculares da coxa.

O stresse mecânico causado pelas forças de impacto da corrida leva a microtraumatismos no osso. Quando a capacidade de regeneração é excedida, surgem as fracturas de stresse. Esta situação pode acontecer quando há um aumento brusco do volume ou intensidade do treino, mudança de piso ou uso de calçado inadequado (com menor “amortecimento”). Quando há um défice energético (maior dispêndio em comparação com aporte) existem alterações hormonais que levam a que o osso fique mais frágil. Uma progressão cuidadosa da carga de treino e alimentação adequada aos gastos energéticos são importantes para evitar esta lesão. Pode também ser importante corrigir alterações do alinhamento corporal e dismetrias dos membros inferiores.

A hidratação deve diferir entre mulheres e homens?

Alguns estudos revelaram que a taxa de produção de suor é menor nas mulheres e que a sua produção se inicia de forma mais tardia. No entanto, não existe evidência clara de que as recomendações devam ser diferentes entre géneros. A atleta deve hidratar-se antes de iniciar o treino e beber consoante a sede. A monitorização do nível de hidratação pode ser feita através da cor e quantidade de urina.

Há diferenças na suplementação entre géneros?

As mulheres estão em maior risco de carência de ferro e, consequentemente, de anemia devido às perdas de sangue durante a menstruação. A suplementação de ferro não deverá ser feita de forma indiscriminada e só deve ser iniciada após a confirmação do défice através uma análise sanguínea. Em alternativa, podem aumentar a ingestão de alimentos ricos em ferro (como a carne vermelha) e que potenciem a sua absorção (ricos em vitamina C). De acordo com os estudos, as mulheres parecem responder de forma similar aos homens à suplementação com cafeína e creatina.

*Referências

Bruken & Khan’s Clinical Sports Medicine. 4th Edition. McGrawHill (2012)

Hausswirth C. and Le Murr Y. Physiological and Nutritional Aspects of Post-Exercise Recovery: Specific recommendations for female athletes. Sports Med, 2011; 41(10): 861-882.

Tarnopolsky MA. Sex differences in exercise metabolism and the role of 17-beta estradiol. Med Sci Sports Exerc, 2008; 40 (4): 648-54.

Maughan RJ, Shrireffs S. Nutrition and hydration concerns of the female football player. Br J Sports Med. 2007 Aug; 41(Suppl 1): i60–i63.

Chen HY, Wang HS, Tung K, Chao HH Effects of Gender Difference and Caffeine Supplementation on Anaerobic Muscle Performance. Int J Sports Med. 2015 Nov;36(12):974-8.