“Saber correr atrás dos outros também é um segredo”

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Há 30 anos, na madrugada de uma segunda-feira, Portugal festejava o primeiro ouro olímpico da sua história. Em duas horas, nove minutos e vinte e um segundos, Carlos Lopes escrevia uma página incontornável do desporto nacional e do atletismo mundial, ao tornar-se no atleta mais velho a ganhar uma maratona olímpica. Hoje, aos 67 anos, com a mesma convicção com que embarcou para Los Angeles, partilha as memórias de um percurso dedicado à corrida.

Texto: Inês Melo

Fotografia: Luciano Reis

Como teria sido a vida do Carlos Lopes longe das pistas de atletismo?

Possivelmente, hoje seria reformado de torneiro mecânico, o meu ofício antes de entrar na alta competição. Aliás, cheguei a pôr em causa a continuidade no atletismo pela exigência da profissão. Ganhava muito bem e, se não tivesse encontrado um emprego compatível, teria desistido. Entretanto, fui trabalhar para um banco, passei a treinar duas vezes por dia e os resultados não tardaram a aparecer. Sempre defendi a importância de os atletas terem uma segunda ocupação, para aliviar o stresse da competição a alto nível.

Soube, como poucos atletas, distinguir-se com sucesso em provas de cross, pista e estrada. Qual é o segredo da sua versatilidade?

Correr atrás dos adversários! Aprendi a adaptar-me aos diferentes terrenos com três atletas: o Manuel Oliveira, dono de uma passada fantástica para a pista; o Anacleto Pinto, um dos atletas mais eficazes nas provas de estrada, graças a um ritmo de corrida invulgarmente dinâmico; e o José Lourenço, que tinha uma passada de dois metros fabulosa. Enquanto não consegui captar estas dinâmicas, não descansei. Muitas pessoas desconhecem que eu tinha três tipos de passada, o que me dava uma liberdade tremenda. Portanto, saber correr atrás dos outros, às vezes, também é um segredo.

Chegou a Los Angeles com o estatuto de campeão do mundo de corta-mato e corredor de topo em pista. Não era um maratonista muito experiente…

Acredite que era! Depois de terminar em segundo nos Jogos Olímpicos de Montreal [em 1976, na prova dos 10 000 metros], estive afastado durante dois anos e meio devido a uma lesão no tendão de Aquiles. Nessa altura, deram a minha carreira por terminada. Vencido, mas não convencido, sabia que tinha condições para ser campeão olímpico. Aos 37 anos, a velocidade era um entrave, por isso apostei na maratona. Quando me senti recuperado foi uma questão de trabalho, alguma sorte e muita teimosia, que não me fizeram desistir.

Foi assim que convenceu Mário Soares a fazer um churrasco no Palácio de São Bento?

[Risos] Isso foi uma tentativa de pôr lenha na fogueira… Na despedida da comitiva portuguesa, depois de cumprimentar o Mário Soares, perguntei-lhe: “Doutor, se trouxer uma medalha dos Jogos, temos direito a um churrasquinho de cabrito aqui no vosso quintal?” Ele virou- -se para mim e disse-me: “Você tem uma lata do caneco… mas traga lá a medalha, que não é um cabrito, é um boi!” E foi mesmo.

Passados 30 anos, o que recorda daquele dia 12 de Agosto de 1984?

Lembro-me que estava muito tranquilo. Aliás, o Prof. Moniz Pereira [treinador de Carlos Lopes] viu-me tão descontraído que decidiu medir-me os batimentos cardíacos. Só o ouvi gritar: “46 pulsações! A 40 minutos da prova, este tipo parece que vai para uma festa…” Entretanto, soou o tiro de partida, disse adeus à minha mulher e foquei-me na estratégia que tinha planeado. Quando cortei a meta foi um alívio tremendo – tinha valido a pena os quase três anos de trabalho.

Há um Carlos antes e outro depois de Los Angeles?

Não. Sempre acreditei que o desporto é um prazer próprio, uma força interior. Estava certo de que havia um princípio e um fim, por isso, nunca me custou começar nem acabar.

Como olha para o atletismo nacional?

Sinto que há investimento na modalidade, mas desinvestimento nos atletas. São os clubes de maior dimensão que continuam, teimosamente, a apostar nestas pessoas, mas não chega! Os clubes têm obrigações – trabalhamos para isso [Carlos Lopes é director do Departamento de Atletismo do Sporting desde 2013] –, mas não há capacidade financeira para suportar tantas modalidades. A Federação Portuguesa de Atletismo tinha obrigação de colaborar mais.

O que pode ser feito?

Em Portugal, tenho a sensação de que ninguém se envolve no desporto escolar. Repare num aspecto curioso: temos imensos miúdos nos escalões mais novos, mas pouquíssimos nos juniores. Isto não é possível! Alguém já devia ter feito um estudo para perceber o que está a falhar, porque esta realidade é transversal a todas as modalidades. O desporto escolar sempre foi muito falado, mas talvez tenha sido mal concebido. Por exemplo, sempre entendi que as escolas de cada concelho deviam especializar-se numa modalidade. Podia ser uma forma interessante de estimular a competitividade nacional.


Peripécias do ouro olímpico

“Poucos dias antes da partida para Los Angeles, num treino perto do Estádio da Luz, dei por mim a dar três cambalhotas no ar… Fui atropelado, curiosamente, por um candidato à presidência do Sporting, o comandante Lobato Faria.”

“Quando acabei a maratona, dei uma volta à pista, todo contente, e já estava lançado para outra. Arrependi–me quando comecei a ver os meus adversários exaustos, a vomitarem e a caírem para o lado. Achei que era uma enorme falta de respeito.”

“Depois da vitória estava tão desconcertado que, à saída do estádio, ia sendo preso porque atravessei uma rua contra a ordem de um polícia. Lá me safei e fui direito a um McDonald’s… não comia nada desde as 11h00!”

“A vitória em Los Angeles não mudou nada, mas é engraçado ter sido o primeiro português a entrar num episódio de Os Simpsons.”


 

Carlos Lopes relata corrida contra a diabetes

Depois de abandonar a alta competição, Carlos Lopes teve de enfrentar o passo rápido de uma doença crónica que afecta mais de um milhão de portugueses. O livro “Gerir a Diabetes – Uma Corrida de Fundo”, da editora Gradiva, conta a experiência do antigo campeão olímpico e reúne os conselhos práticos de Luís Gardete Correia, da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal. “Na altura do diagnóstico, pensei que estava a ‘morrer aos bocadinhos’. Esse desconforto deixou-me com a convicção de que era preciso cuidar-me”, revelou Carlos Lopes à RUNning, no lançamento deste livro, em Outubro de 2014..