Samuel Remédios bate recorde com 18 anos

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Foto: FPA
António Fernandes
António Manuel Fernandes, jornalista profissional desde 1990, é atualmente colaborador do jornal Record, comentador na SportTv, editor de um magazine de notícias online, produzindo ainda trabalhos de comunicação para alguns organizadores de provas e é o correspondente do site da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF)) Autor do livro “Cem Anos de Maratona em Portugal”, foi co-fundador da primeira empresa profissional de organização de provas e colaborou em todos os diários desportivos e ainda nos diários generalistas Diário Popular (até à sua extinção) e Correio da Manhã.
Foto: Marcelino Almeida

Foto: Marcelino Almeida

O destaque desta semana vai para os Campeonatos de Portugal de Pista Coberta, que inevitavelmente se desenrolam em Pombal (por falta de outros recintos de pista coberta que permitam condições competitivas), onde Samuel Remédios, do Juventude Vidigalense, bateu o recorde de Portugal do heptatlo, com um total de 5980 pontos, melhorando em exactamente 50 pontos o anterior recorde, que pertencia a Mário Aníbal desde o ano 2000! Curiosamente, Aníbal é agora o treinador do novo recordista.

As provas combinadas, como o próprio nome indica, são um conjunto de disciplinas que cada atleta faz, cujo resultado é traduzido em pontos (numa tabela internacional de equivalência de resultados), e que somados garantem uma pontuação final que define como vencedor o atleta que somou maior número de pontos.

 

Em pista coberta, os homens têm de enfrentar sete provas (heptatlo) em dois dias: 60 metros, salto em comprimento, lançamento do peso e salto em altura, no primeiro dia, 60 metros barreiras, salto com vara e 1000 metros no segundo dia. As mulheres, têm a prova de pentatlo (cinco provas), mas apenas num dia: 60 metros barreiras, salto em altura, lançamento do peso, salto em comprimento e 800 metros.

Ora, em Pombal, Samuel Remédios, em boa forma, abriu a primeira jornada com recordes pessoais em três das provas (comprimento – 7,52 metros, peso – 13,70, metros altura – 2,03 metros) e ficou a dois centésimos do recorde nos 60 metros (6s92′). No segundo dia, também melhorou nos 60 metros barreiras (7s98′), saltou 5,00 metros com vara, e apenas se foi “abaixo” nos 1000 metros, onde fez 2m57s33′ (que até é uma marca que milhares de corredores não conseguem fazer!), “perdendo” uma oportunidade única de estar numa posição mais cimeira entre os melhores do mundo. Bastaria correr em pouco mais de 2,46 minutos (marca que fez em 2016), para estar confortavelmente à espera de um convite para participar no Mundial de Birmingham. Ainda assim, terminou o fim-de-semana no top 10 mundial (9.º lugar).

 

Campeonatos de Portugal marcados por ausências… e “ausências”

 

Continuando nestes campeonatos em Pombal, registe-se a ausência de Nelson Évora, que estivera em grande em Madrid (ver Para lá da fronteira), e que estando pré-selecionado para o Mundial de Birmingham, prescindiu de estar em Pombal (ao contrário do que os critérios de selecção obrigavam…). Também ficaram de fora, por lesões nas últimas semanas, as triplistas Susana Costa e Patrícia Mamona, o varista Diogo Ferreira, e muitos dos meio-fundistas portugueses, claramente mais virados para provas ao ar livre (corta-mato e estrada).

Já no capítulo das “ausências”, temos de referir os fracos resultados registados nas corridas de meio fundo curto (1500 e 3000 metros), com uma excepção, por parte de Sara Moreira, que sem qualquer oposição acabou por fazer uma marca mediana para ela; e as ausências David Lima e Ricardo Santos nos 200 metros, onde habitualmente têm bons resultados, e de Cátia Azevedo nos 400 metros (ainda fez 800 metros, mas numa marca mediana… também)!

 

As vitórias com nível elevado

Foto: DR

Foto: DR

De resto, no capítulo dos que disseram presente com um grito de qualidade, temos quem já conseguiu qualificação para os Mundiais de Pista Coberta de Birmingham 2018, o lançador Tsanko Arnaudov, do Benfica, que voltou a lançar 20,57 metros; e a velocista do Sporting, Lorene Bazolo, que venceu os 60 metros em 7s30′ (continua perto do recorde de Portugal, 7s25′, de Lucrécia Jardim) e os 200 metros em 24s15′ (e Rosalina Santos fez 24s16’!).

Nos saltos horizontais femininos registo para a sportinguista Evelise Veiga, que venceu o comprimento (6,22 metros) em despique com a benfiquista Teresa Carvalho (6,17 metros) e foi segunda no triplo com 13,12 metros (recorde pessoal), perdendo com a sua colega de equipa Lucinda Gomes (13,14 metros, recorde pessoal).

Nota para o título de campeão de João Vieira, o 18.º nos 5000 metros marcha em pista coberta (e vai em 46 títulos no total da carreira, em pista e estrada!), e para o primeiro título no triplo do ex-cubano, Pedro Pablo Pichardo.

De resto, sem grandes surpresas, de referir que o Sporting foi o clube com mais títulos individuais (17, 10 em femininos!).

Resultados completos na página da Federação Portuguesa de Atletismo.

 

Para lá da fronteira

 

Nelson Évora brilhante em Madrid

 

Foto: FPA

Foto: FPA

Depois de ter aberto a época em França, Nelson Évora esteve brilhante no meeting de pista coberta de Madrid, saltando 17,30 metros no triplo, ficando a escassos três centímetros do recorde nacional e fazendo o seu melhor salto em pista coberta dos últimos 10 anos! Está no mesmo ponto de 2008, ano em que se sagrou campeão olímpico!

Mas este meeting marcava o primeiro embate directo de Nelson Évora com Pedro Pichardo, com este a ficar no terceiro lugar, com um salto de 17,01 metros. Porém, os portugueses (embora em termos de provas internacionais, com marca da IAAF, Pichardo ainda tem que competir como cubano), foram surpreendidos pelo brasileiro Almir dos Santos que saltou 17,35 metros (recorde pessoal), que há um ano tinha dificuldade em chegar aos 16 metros, e agora já tem várias marcas acima dos 17!

Ainda em Madrid, estiveram Cátia Azevedo (4.ª na final principal de 400 metros, com 53s98′), e Emanuel Rolim (7.º na final B dos 1500 metros, com a marca de 3m44s38′).

 

Outros meetings, da Europa… aos “states”

Antes, no Meeting de Paris, estiveram Lorene Bazolo (5.ª na eliminatória de 60 metros com a marca de 7,33 segundos) e Leonor Tavares, oitava na vara com 4,16 metros.

Depois, Tsanko Arnaudov participou no Meeting de Dusseldorf, conseguindo 20,24 metros, ficando no quarto lugar.

No final da semana, Marta Pen foi terceira na série principal de milha, num meeting em Boston, correndo em 4m29s65′ (o seu recorde pessoal), sendo a 81.ª atleta mundial de sempre!

Uma curiosidade: foram realizadas 20 séries de milha, com um total de 249 atletas! Mais, nesta jornada, quase integralmente para provas femininas (mais à frente, no internacional, temos a exceção!), competiram 1149 atletas, 728 nas provas de corrida, 225 nos saltos e lançamentos, e estiveram 49 equipas de 4×400 metros (196 atletas!).

 

E o corta-mato…

Em Cáceres, cujo cartaz da prova homenageava o português Paulo Guerra – que depois esteve na competição a receber essa distinção – que ali venceu as provas de 1997 e 1999, competiram duas sportinguistas, Carla Salomé Rocha e Inês Monteiro.

E foram Salomé Rocha e a romena Ancuta Bobocel que andaram sempre na frente até à última volta, altura em que a etíope Belaynesh Oljira as ultrapassou e correu para a vitória, cortando a meta com 25m40s, deixando a romena a seis segundos, com Salomé Rocha a ser terceira (25m52s). Inês Monteiro terminou no quarto lugar com 26m01s.

O vencedor da prova masculina foi o turco Polat Kemboi Arikan (28m40s).

 

Internacional

 

Uma meia maratona de cortar a respiração

 

Foto: DR

Foto: DR

As provas de fundo no Médio Oriente continuam a espantar pela qualidade e profundidade dos resultados! Na Meia Maratona de Ras al-Kahimah, nos Emiratos Árabes Unidos, onde se registaram os recordes da competição, nos dois géneros, o que mais impressionou foram seis atletas a correr abaixo dos 66 minutos e onze abaixo dos 70 minutos na prova feminina, e o facto de, na classificação geral, registarem-se 22 participantes abaixo de 65 minutos, entre os quais duas mulheres!

A surpresa da prova feminina foi o triunfo de Fancy Chemutai (que em Outubro, em Valência, conseguira 65m36s) com uma marca que ficou a um segundo do recorde mundial (64m52s), deixando Mary Keitany (recordista mundial de maratona) a três segundos (64m55s), enquanto a recordista de meia maratona, Joyciline Jepkosgei se contentava com o quinto lugar (66m46s), atrás das também quenianas Caroline Kipkirui (65m07s) e Joan Chelimo Melly (65m37s).

Ainda abaixo de 67 minutos ficaram a etíope Degitu Azimeraw Asires (66m47s) e Brigid Kosgei (66m49s).

Uma nota: Keitany, Chemutai e Kipkirui passaram às 10 milhas em 49m29s, o que é mais rápido do que a melhor marca mundial de sempre na distância.

 

 

Sete homens abaixo de uma hora…

Os leitores habituais da RUNning sabem o que é correr uma maratona, por isso sabem a importância das marcas que já referimos, e ainda mais as da prova masculina, em que sete atletas baixaram da hora, com o vencedor a ser Bedan Karoki (58m42s), que fez em cada légua 13m53s, 13m56s, 13m56s e 14m12s. O recorde mundial (58m23s) podia ter ficado mais tremido!

O segundo classificado foi o etíope Jemal Yimer (59m00s), com a melhor estreia mundial de sempre, e ainda baixaram da hora os quenianos Alex Kibet (59m06s), Jorum Lumbasi Okombo (59m36s), Morris Gachaga (59m36s), Wilfred Kimitei (59m40s) e Edwin Kiptoo (59m54s).

 

Recorde também em Barcelona

Foto: DR

Foto: DR

Este fim-de-semana realizou-se também a Meia Maratona de Barcelona, prova “Gold Label da IAAF” (o topo das provas certificadas pela federação internacional), em que o seu vencedor baixou pela primeira vez da hora, estabelecendo um novo recorde do percurso. Autor do feito – como não podia deixar de ser – foi o etíope Mule Wasihun, que fez 59m44s, retirando 20 segundos ao anterior recorde (60m04s), que pertencia a Eliud Kipchoge (campeão olímpico) desde há cinco anos! Houve ainda mais quatro corredores abaixo da hora!

Em femininos, triunfo de Tejitu Daba (do Barhain), em 1h08m36s, por um escasso segundo sobre a etíope Dibabe Kuma (1h08m37s).

Curiosidade: estiveram 155 corredores portugueses em Barcelona, sendo 50 mulheres!

 

Corta-mato quase passa despercebido

Com tantas provas de estrada e com tanta pista coberta, como não é ano de mundial desta vertente do atletismo, as provas de corta-mato quase passam despercebidas!

Em temporada do circuito da IAAF (federação internacional), este fim-de-semana desenrolou-se o Crosse de Cinque Mulini, tradicional prova de corta-mato que tem a característica de passar (literalmente!) por cinco moinhos!

Os vencedores desta importante prova italiana, foram os campeões mundiais Sub20, Jacob Kiplimo, do Uganda, e Letesenbet Gidey, da Etiópia.

Em termos de corta-mato, registe-se que este fim-de-semana foi altura da realização dos nacionais no Quénia, sempre uma prova importantíssima no calendário do país.

O vencedor da prova principal masculina foi Geoffrey Kamworor, duas vezes campeão mundial de meia maratona (e que é o líder da formação queniana para o Mundial deste ano em Valência), que mostrou estar em boa forma, enquanto em femininos triunfou Stacy Ndiwa.

 

Edward Chesereck “princípe” da milha

A época de pista coberta está na sua máxima velocidade e os bons resultados seguem-se em ritmo estonteante. Na passada sexta-feira, em Boston, no meeting em que participou Marta Pen, houve apenas uma prova para homens, a milha, onde o queniano Edward Chesereck fez a marca de 3m49s44′ , sendo o segundo homem de sempre a baixar dos 3m50s nos 1609 metros da prova.

Mas o #kingchesereck, 24 horas depois, ainda em Boston, mas no meeting a contar para o circuito da IAAF, mostrou ainda a sua capacidade ao vencer os 3000 metros em 7m38s34′, sendo o terceiro melhor do ano!

Em Boston, houve ainda marcas interessantes, como a de Jenny Simpson (8m40s31′), nos 3000 metros; a de Donovan Brazier (1m45s11′), nos 800 metros (segundo do ano); os 6s46′ do recordista mundial dos 60 metros, Christian Coleman; e o grande duelo entre as barreiristas Sharika Nelvis e Christina Manning teve o seu quarto episódio, com ambas a serem cronometradas em 7,89 segundos, mas a vitória (com recurso aos milésimos) a ser para Nelvis, que vai à frente em três ocasiões: 4.ª em Berlim, vencedora em Karlsruhe e Boston, segunda em Dusseldorf.

Mas a recordista mundial dos 100 metros barreiras ao ar livre, Kendra Harrison, é que não quer saber destas lutas e em Clemson arrasou correndo os 60 metros barreiras em 7,72 segundos, recorde dos Estados Unidos igualado!

Bem alta está a luta pela liderança no “ranking” do salto com vara. Em Rouen, Renaud Lavillenie e o brasileiro Thiago Braz (campeão olímpico), saltaram 5,90 metros, melhor marca mundial do ano, numa disciplina em que sete atletas já saltaram 5,80 metros ou mais…

Os mundiais de Birmingham estão ao “virar da esquina”, já a 1 de Março.

 

Olhando para o futuro

 

Crosse das Amendoeiras e nacionais de clubes

 

Em termos de grandes provas de atletismo, na sua vertente mais competitiva, o próximo fim-de-semana receberá mais uma edição do Crosse das Amendoeiras em Flor, prova integrada no circuito da IAAF e que receberá alguns dos melhores atletas portugueses, bem como atletas estrangeiros com nível internacional.

A pista coberta terá também um momento muito alto, com a realização dos nacionais de clubes, prova que já ferve em interesse, graças a um maior equilíbrio de forças entre os candidatos aos títulos da primeira divisão, Benfica e Sporting.