“Só sentimos a forma quando estamos em prova”

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Susana Simões foi campeã nacional de ultra-trail e a melhor portuguesa na Maratona das Areias. Aos 43 anos, a professora de Matemática soma triunfos em equações de montanha.

Rute Barbedo

Susana domina a conversa, a velocidade, o ritmo. Se tentamos fazê-la parar quando ainda é cedo demais, continua a correr. Imaginamos que no trail seja semelhante e que esse possa ser o segredo dos resultados dos últimos anos. Mas há outros trunfos, como a visão a longo prazo – antes vale ser menos rápida mas salvar o corpo – e o estofo para ultrapassar condições extremas.

Já experimentou muitos cenários, desde os Pirenéus, passando pelo deserto ou os Açores. Chegará o dia em que o trail se irá esgotar?

Eu acho que é inesgotável. Primeiro, porque em cada país há cenários paisagísticos incríveis, que muitas vezes desconhecemos. Há provas para todos os gostos e condições físicas e para qualquer carteira. Há provas ao lado de casa, há provas em tantas aldeias e vilas do país, e no estrangeiro… Só por isso garanto que o trail vai continuar com muita saúde.

No meio de tanta diversidade, como define os seus objectivos?

A minha forma de estar nesta ou noutra modalidade [também pratica triatlo e corrida em estrada] é sempre a mesma: quero estar na modalidade tendo um treino específico e tentando adequar a condição física a cada desafio. Não sou capaz de me inscrever numa prova e não me esforçar para ela. Prefiro não fazê-la. Há provas que correm melhor do que outras, mas isso é normal, vamos tendo picos de forma e temos de encarar essas mudanças e fazer por recuperar. Já tive lesões e algum tempo sem poder treinar e, agora, quando penso numa prova, penso em não arriscar demasiado. Aceito que isso me prejudica bastante porque, por exemplo, numa descida demoro muito mais tempo… [A lesão] foi uma excelente lição.

Como foi participar no Campeonato do Mundo de Trail, o ano passado?

Foi uma experiência única, tanto para nós como para o país. É importante assistir ao desenvolvimento da modalidade e que ela seja reconhecida por instâncias internacionais. Acho que foi um marco histórico. Agora, é importante que todos os organismos ligados ao trail trabalhem nisto. Ainda há muitas opiniões díspares, muitas clivagens entre organizações e, enquanto isso existir, a modalidade tem muito a perder. É importante que todos remem para o mesmo lado. Caso contrário, o barco não chega a bom porto e o trail é levado menos a sério do que outras modalidades que até têm menos praticantes.

Esta semana [a primeira de Março de 2016] a Associação de Trail Running de Portugal [ATRP] ficou sem direcção. O que falta para se conseguir uma maior estabilidade neste organismo?

Acho que tem de haver pessoas que não tenham interesses particulares, que possam gerir de fora e de cima uma série de organizações, porque neste momento há uma luta entre elas, em que cada uma quer ser a mais importante. Se não houver alguém independente, torna-se difícil. Mas é de louvar o trabalho que até agora foi feito, como terem criado um campeonato nacional. Agora, é preciso continuar o trabalho. Há muitas provas, mas nem todas têm qualidade para pertencer ao campeonato nacional e essa gestão tem de ser muito rigorosa. E o trail deveria criar um organismo próprio, não deveria estar associado a nenhuma federação, porque senão fica na sombra.

É um discurso bastante político…

…pois, porque isto é assim: neste momento, há muitas pessoas a descobrir o trail como uma forma fácil de obter lucro. Pensam: “Vamos lá organizar um trail, pôr as fitas, cada pessoa vai pagar X e pronto.” Há organizações com segurança, mas há outras que trabalham sem o mínimo de condições e isso é preocupante, porque põem em risco a saúde e a vida das pessoas. Estar no trail não é tão fácil como as pessoas pensam. Exige muito trabalho e é preciso fazê-lo.

Já esteve envolvida na organização de provas?

Não. Às vezes ajudo, mas não faço parte de nenhuma organização.

É algo que pensa fazer?

Por acaso já nos [inclui o marido, Telmo Veloso, com quem criou a equipa Desafios a Dois] ocorreu, sim, mas não temos tempo para tudo. Temos os nossos empregos e abrimos agora [dia 27 de Fevereiro] uma loja dedicada à corrida [Corremos – Ruas & Trilhos, no Porto], com o Pedro Conde.

Que prova gostaria de organizar?

Uma prova por etapas, sem dúvida.

É mais aliciante pensar-se por etapas?

Acho que sim. Põe à prova muitas capacidades, como saber gerir o esforço, saber aceitar a dor física, porque os músculos vão ficando saturados. Acaba por ser um desafio muito grande e quando se chega ao fim é uma alegria fantástica. Mas é claro que uma prova de cento e muitos quilómetros, em que nos perdemos, sofremos, ultrapassamos obstáculos também é algo indescritível e inesquecível.

Essa gestão emocional, necessária nas grandes distâncias, mudou a sua forma de ser?

Acho que foi ao contrário: tudo aquilo por que passei é que me dá vantagem em algumas provas. Tive de lutar muito para conseguir os meus objectivos e passei por vários momentos difíceis. Mas é claro que às vezes penso que se consegui superar aquela sensação na prova X também consigo superar isto na minha vida.

Quais são as expectativas para este ano? Sente-se em boa forma?

Só sentimos a forma quando estamos em prova. Até lá, estamos sempre a treinar e o corpo anda muitas vezes cansado. Na Madeira [MIUT], no ano passado, a partir dos 70 km senti uma leveza tão grande que pensei: “Agora, sim! Justificam-se todas as horas que andei a treinar.” Se acontecer o mesmo este ano vou ficar felicíssima.

 BI:

43 anos

Natural do Porto

Professora de Matemática e Ciências da Natureza

Começou a praticar trail running em 2009

Foi a sexta mulher a atravessar a meta na Maratona das Areias, em 2012

Venceu (femininos) as 100 milhas do Le Gran Raid des Pyrenées, em 2013

Venceu (femininos) o Campeonato Nacional de Ultra Trail em 2013

Foi a segunda melhor mulher portuguesa no Campeonato do Mundo de Trail, em 2015