“Somos mais do que os olhos, somos os agentes os psicólogos, tudo”

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Nuno Alpiarça foi parar ao atletismo adaptado “por acaso”, a reboque de uma história de amor por terras catalãs. De Espanha vieram bons ventos e o professor de Educação Física, atleta-guia e treinador de 49 anos acabou por “fazer” campeões como Carlos Lopes ou Gabriel Potra, ambos invisuais, regressarem a Portugal com o brilho do ouro paralímpico.

Texto: Rute Barbedo

Fotos: Celestino Santos

Existe investigação em Portugal que congregue a experiência no desporto adaptado com o saber científico relativo às deficiências?

A APCAS [Associação de Paralisia Cerebral Almada Seixal] está a fazer um trabalho com a Faculdade de Motricidade Humana [FMH] sobre o atletismo adaptado, com o qual estou a colaborar. Na FMH [onde Alpiarça se formou], existe um saber muito grande do ponto de vista científico das deficiências, do que as caracteriza e das consequências das suas limitações. Mas depois falta uma ligação à prática, e é isso que se está a começar a fazer.

Não é tarde?

Claro que é. Se tivéssemos aproveitado uma janela de oportunidade ali pelos anos 1990, em que tivemos um sucesso enorme – e falo mais da área em que dou treino, que é a visual –, para aliar esses dois conhecimentos [o científico com o da prática desportiva], muito possivelmente tínhamos mantido o mesmo nível.

Não havendo investigação aplicada, imagino que o trabalho de um treinador nesta área seja um pouco às escuras…

É… Usamos o nosso bom senso. Mas é evidente que não aprendi tudo do zero. O facto de ter começado como guia do Carlos Lopes [atleta paralímpico, invisual, que ganhou as medalhas de ouro nos 200 e 400 metros dos Jogos de 1992, e nos 400 metros e 4×400 metros nos Jogos de 2000, entre outras distinções] com o treinador José Santos, que me foi transmitindo conhecimentos, permitiu-me aprender muito.

Como começou a interessar-se por esta área?

Foi um acaso. Eu e o professor José Santos praticávamos atletismo e [em 1993] ele perguntou-me se eu queria ser guia, porque tinha um atleta muito bom [o Carlos Lopes], mas o guia que o tinha acompanhado até Barcelona [para uma competição] apaixonou–se [solta uma gargalhada] por uma catalã e ficou lá a viver. Então eu avancei e foi uma experiência [faltam-lhe as palavras]… Foi uma ligação, uma empatia forte, tanto do ponto de vista das personalidades, como técnico. Parecia que tínhamos estado sempre juntos. Já lá vão 23 anos. Passado pouco mais de um mês de eu ter começado a guiá-lo, ele foi convidado para um meeting em Berlim, onde ganhou tanto os 200 como os 400 metros. E aquilo [ser guia] foi fácil! É claro que ele ajudou, porque é uma pessoa extremamente inteligente e sensível.

Quando começou a treinar o Carlos Lopes?

Até 1998, o treinador do Carlos foi o professor José Santos. Em 1999, o Carlos pediu-me para treiná-lo. No início nunca sabemos bem para onde vamos. Com o tempo, fui-me apercebendo da importância, não só do ponto de vista técnico mas também do ponto de vista humano, da minha função. Se numa situação de treino, o guia tem o papel de eliminar todos os obstáculos e dificuldades com que o atleta se depara, quando vamos para uma competição somos os olhos deles. E muitas vezes somos mais do que isso: somos os agentes, os psicólogos, tudo para eles.

Na altura já era treinador no Sporting [Clube de Portugal] e tive de acumular as duas coisas. Foi difícil.

E como se acumulam os papéis de guia e de treinador?

Vou ilustrar isto de uma forma séria e depois a brincar. A sério: é difícil porque estando a falar de especialidades muito técnicas, como os 100, os 200, os 400 [metros], eu não tenho um distanciamento do meu atleta que me permita ver como ele está a correr, as posições dos pés, dos braços… Por outro lado, o doseamento que lhe dou é, se calhar, muito mais acertado, porque eu vou com ele e tenho as mesmas (ou mais ou menos) sensações do que ele.

E a explicação a brincar?

É que o Carlos nem ao atleta-guia podia dizer mal do treinador…

O atletismo adaptado ainda deve ser mais personalizado do que o atletismo em geral?

[Acena com a cabeça respondendo que não.] Entre 1994 e 2010, fui treinador do Sporting e só a partir de 1999 é que comecei a dar treino a atletas com deficiência. A sensação que tive foi de que o nível de adaptação é diferente, mas a individualização é um dos princípios básicos do treino, para qualquer atleta.

Isso também se aplica à componente psicológica, ou seja, ao papel motivacional do treinador?

[Hesita.] São mundos um bocadinho diferentes. Os atletas paralímpicos estão habituados a muita adversidade, mas, por outro lado, quando já estão num determinado estatuto, acham que já não têm de lidar com certas coisas, o que provavelmente acontecerá com os olímpicos também.

Com que tipo de coisas não querem lidar?

Questões que tenham a ver com o Programa de Preparação Paralímpica, como os estágios se realizarem ou não; ou em vez de irmos para Vila Real de Santo António, vamos para Rio Maior; ou afinal vamos de autocarro… Esse tipo de pormenores, num determinado ponto da carreira, já encontra um grau de tolerância muito reduzido. E compreendo porquê: eles estão sistematicamente sob pressão.

E os atletas olímpicos não?

Antes do topo, provavelmente os paralímpicos adaptam-se melhor, mas quando estamos a falar do topo, ficam todos mais parecidos. E se calhar isto é uma boa forma de dizer que a diferença entre eles é reduzida e que tanto dá serem pessoas com deficiência ou não. São seres humanos.

Se estes dois grupos não são assim tão diferentes, porque o são os apoios institucionais?

Eu ponho isto em dois planos: o público, que é gerido pelas federações e pelo Comité Paralímpico; e os clubes. Tanto de um lado como do outro, os apoios são completamente diferentes. Por exemplo, o Luís Gonçalves foi campeão do mundo e tem uma bolsa de pouco mais do que 500 euros. Se fosse olímpico, receberia cerca de 1300 euros [e repartiria o valor com o atleta-guia]. Para um ano de preparação precisa-se à volta de 25 mil euros, mas um atleta paralímpico só pode ir até aos 8000 euros. E a diferença não se vê só por aí, mas também nas condições que os clubes dão aos atletas com deficiência. É muito difícil iniciar a carreira num clube, porque não há uma rede de captação de atletas com deficiência.

O Luís Gonçalves, por exemplo, não estava no Sporting antes de ganhar a medalha…

Não. Foi para lá agora [antes estava no Centro Desportivo Universitário de Lisboa], porque o Sporting considerou que era uma mais-valia. Mas o que dão a um destes atletas não tem nada a ver com o que dão [aos outros]. Os mundos também são completamente diferentes. Há muito mais publicidade agregada ao atletismo regular…

O que se pode fazer para aumentar a expressão do atletismo adaptado em Portugal? Melhorar a rede de captação de atletas?

O problema é esse mesmo. É claro que depois de a rede estar montada são precisas estruturas de suporte ao que se capta. Mas o facto é que essa rede [com associações, federações e o desporto escolar] não existe. O único momento em que isso, de algum modo, existiu, foi quando o professor José Santos, na ACAPO [Associação para os Cegos e Amblíopes de Portugal] conseguiu juntar um grupo de atletas que começou a dar cartas ao nível mundial. Mas passados 30 anos não se tornou a fazer nada, mesmo tendo uma receita que resultou.

Consegue explicar por que não se fez nada?

Nos anos 2000, a FPDD [Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência] continuou a ter muito bons resultados e em vez de aproveitar essa força não conseguiu construir nada. É preciso fazer um trabalho continuado.

 

Pontas soltas

Data de nascimento: 24-09-1966

Clube: freelancer desde 2010 (antes esteve no Sporting Clube de Portugal)

Começou como guia em 1993 e como treinador de atletas com deficiência em 1999

Treinou Carlos Lopes (um dos atletas paralímpicos portugueses mais medalhados de sempre), Luís Gonçalves (prata nos Jogos de Pequim – 2008) e Gabriel Potra (ouro nos Paralímpicos de Sidney – 2000), entre outros atletas de topo

Coordena o Centro de Formação Desportiva – Atletismo, em Lisboa, uma estrutura que visa fomentar a prática do atletismo nas escolas.

É professor de Educação Física na Escola Fernando Pessoa, em Lisboa, a primeira a incluir a modalidade de atletismo no seu plano de ensino.