Sylvain Court “O Trail transformou-se numa disciplina de alto nível”

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Sylvain Court

Rute Barbedo / DR

Sylvain Court tem o foco apontado para o Berg® Outdoor Trans Peneda-Gerês – 2016 Trail World Championships. É para isso que tem treinado; foi por isso que, em Setembro, veio estudar o palco da competição. Em entrevista à RUNning, o campeão do mundo fala sobre como pretende defender o título, relata as condições da modalidade em França e indica os trilhos que sonha seguir.

 

O que esperas do campeonato do mundo de trail?

As minhas expectativas são muito simples: bater-me ao máximo pelo pano tricolor, ou seja, pela equipa francesa, e, certamente, defender o meu título mundial.

 

Já correste em Portugal? O que conheces do nosso território?

Nunca competi em Portugal; será a minha primeira vez. Mas já tive oportunidade de explorar, no início de Setembro, alguns percursos do Parque Nacional da Peneda-Gerês, que é realmente um lugar fantástico para correr e fazer turismo. O acolhimento do povo português foi formidável nesta zona e espero que assim continue, para que exista esse ambiente na altura da prova. Mas com isso nem preciso de me preocupar…

 

Esta é a sexta edição do mundial de trail. Como vês a evolução do evento?

Bom, será a segunda vez que participo no campeonato, mas vejo que atravessa uma evolução perpétua. Está cada vez mais estruturado, é trabalhado por vários meios de comunicação social, os controlos anti-doping também estão presentes. Uma coisa é certa: o trail transformou-se numa disciplina de alto nível.

 

Um nível cada vez mais exigente?

Claro que sim, e com cada vez mais nações a participar. É preciso estar no top para conseguir um bom lugar.

 

Tu estás no top da tua forma física?

Estou com uma boa dinâmica. Depois de vencer o campeonato do mundo [no ano passado], que era o meu objectivo da época, tenho focado a minha preparação para esta corrida [a de 29 de Outubro, em Portugal]. Posso dizer que estou em crescendo. Além disso, o campeonato nacional [francês], no início de Setembro, tranquilizou-me [Sylvain sagrou-se campeão pela segunda vez], porque não pensava estar neste nível de competitividade.

 

Como te tens preparado para o mundial?

Passei um Verão bastante calmo em termos competitivos, apostando apenas em formatos curtos ou em quilómetros verticais, de forma a reservar o máximo de energia para o mês de Setembro [a entrevista foi realizada no dia 20], para o qual destinei um grande volume de treino, com montanha, bicicleta e trabalho de velocidade em pista.

 

O que representa para ti um grande desafio?

Não tenho propriamente desafios. Sinto muito prazer em variar a minha prática, mesmo quando me envolvo em formatos de corrida que não são “a minha praia”. No futuro, gostaria de progredir nas ultra-distâncias (mais de 100 km) para correr clássicos como o Ultra Trail du Mont-Blanc, a Diagonale des Fous e outras provas por esse mundo, até porque, acima de tudo, adoro viajar.

 

Quem são os teus grandes rivais?

Sei que o nível do campeonato será elevado, isso é certo. Mas é difícil destacar uns atletas em detrimento de outros. Posso falar de algumas selecções, como a portuguesa, que jogará em casa; os vizinhos espanhóis, que são muito fortes no trail; os ingleses e os norte-americanos também. Entre os franceses, o nível será igualmente elevado… Mas não nos esqueçamos das surpresas, pois os campeonatos do mundo são corridas de um dia em que todos desejam alcançar um desempenho soberbo.

 

Em Portugal, muitos atletas queixam-se da impossibilidade de serem trail runners profissionais, por falta de estrutura económica, essencialmente. Como está a situação em França?

Em França o trail anda a portar-se bem. É uma disciplina em constante evolução, há diversas provas de diferentes formatos onde cada atleta pode encontrar o seu perfil e divertir-se. O calendário de eventos é bastante denso, até podemos fazer um trail todos os fins-de-semana, se quisermos. Mas sejamos razoáveis! Sob o ponto de vista estrutural, há muitos clubes a nascer e mesmo que, por vezes, algumas marcas ou equipas decidam cessar a actividade e o apoio, a generalidade mantém-se activa e consegue representar os seus desportistas.

O apoio material e financeiro (custos de deslocação, prémios em provas…) confere algum conforto, mas nem todas as equipas têm os mesmos meios e, para estruturas maiores, os meios também não são ilimitados. Estamos muito longe de outros desportos… A grande maioria dos atletas, mesmo os melhores, mantém o seu emprego a par do trail. Eu também. E isso torna tudo mais difícil.

 

A longa ascensão de “monsieur Court”

 

Foi em 2009, nos trilhos e estradas de Bordeaux, que Sylvain Court começou a correr. Iniciou-se nas distâncias de 10 e 22 km, mas cedo se aventurou numa maratona que incluía a subida de dois picos com mais de 3000 metros, em Ariège, nos Pirenéus. “A minha inexperiência fez-me partir sem qualquer sistema de hidratação, apenas com duas barras de cereais na mão. Perdi-me depois de ter passado os dois picos mas alcancei o segundo lugar e uma bela hipoglicemia à chegada”, brinca o atleta francês.

A partir de 2012, foi alcançando resultados cada vez mais consistentes, “talvez devido a uma vontade séria e cada vez mais minuciosa de fazer bem as coisas, sem negligenciar detalhes na preparação e no estilo de vida”. Na escalada até ao título de campeão mundial, foi decisivo o apoio do treinador (e seleccionador francês) Philippe Propage, ao lado de Sylvain desde 2010.

Nascido em 1983 na romântica Draguignan, no Sul de França, o campeão do mundo de trail vê no título arrecadado no ano passado em Annecy nada mais do que “a recompensa de muitos anos de trabalho”, que, ao que tudo indica, não ficam por aqui. É que Sylvain acaba de receber a notícia do ano: em Novembro, muda-se de uma região plana para os Alpes. “Vou poder correr diariamente na montanha e progredir ainda mais na minha prática.”