Trail Noturno da Lagoa de Óbidos “Um falso fácil”

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Jorge Serrazina começou a correr em 2003, “já depois de velho”, diz ele, aos 60 anos. A “culpa” foi do Clube de Atletismo de Óbidos, fundado para dar vida à pista municipal por um grupo de vizinhos que contrabalança a actividade física com grandes almoçaradas. Assim se criou o Trail Noturno da Lagoa de Óbidos, o primeiro a realizar-se à luz da lua e de frontais.

Rute Barbedo

A história do Trail Noturno da Lagoa de Óbidos (TNLO) mistura-se com a do clube?

O clube formou-se em 2003. Um vizinho meu [António Miranda] trabalhava com miúdos num clube das Caldas [da Rainha] e quando a Câmara de Óbidos fez o estádio com a pista de tartan tinha de lhe dar alguma utilização. Não havia nada de atletismo em Óbidos. Então contactaram-no para trabalhar com os miúdos. Para formar o clube, as primeiras pessoas que ele contactou foram os vizinhos. Lá tivemos de começar a correr… Somos vizinhos e amigos, vivemos num aldeamentozinho que fizemos de raiz. Todos os meses, juntamo-nos para almoçar e para fazer os trabalhos comuns.

Conte melhor a história do aldeamento.

Embora fôssemos um grupo de amigos, cada um vivia no seu local. Nos anos de 1980, decidiu-se comprar um terreno em Óbidos e desenvolver um projecto de construção em que cada um tem o seu lote, mas as despesas e os trabalhos das áreas comuns, como cortar a relva e ajeitar as coisas, são partilhados. E em cada mês, um lote faz o almoço para todos os outros. Para formar um clube e dar vida à pista também era preciso pessoas, quer praticassem [corrida] ou não.

Como foi o início?

O Clube de Atletismo Óbidos (CAO) foi o primeiro nos Campeonatos Distritais de Corta-Mato a associar uma caminhada ao evento, aí em 2004 ou 2005, quando ainda não se usava muito. Tínhamos um grupo de pessoas que não fazia propriamente desporto mas que queria participar.

E o Jorge, corria ou caminhava?

As minhas filhas já estavam semi-criadas e então pensei: “Olha, vou começar a correr!” Um dia, em 2003, comecei a dar umas voltas à pista e, 15 dias depois, já estava a participar na primeira prova em montanha.

De quantos quilómetros?

7. Era uma prova ali na Serra dos Candeeiros, muito diferente dos trails que há hoje, mas era já um pouco a génese disso. Cheguei ao fim um bocadinho mal tratado, mas correu bem. Quatro meses depois, nós (uns cinco elementos do clube) fizemos o Circuito Nacional de Montanha. Participávamos em tudo o que eram provas, comoas do [José] Moutinho [criador do Ultra Trail da Serra da Freita]. E, por acaso, [o Trail Noturno da Lagoa de] Óbidos surgiu numa altura em que não havia provas para além do circuito nacional, da Freita e dos Caminhos de Santiago [também organizados por José Moutinho]. Foi numa edição dos Caminhos de Santiago [160 km em quatro etapas] que começámos a pensar em dar o nosso contributo à causa [do trail]. Como em Óbidos não tínhamos montanha e queríamos fazer uma coisa diferente, tivemos a ideia do trail nocturno.

Foi o primeiro em Portugal?

Sim. A ideia era fazê-lo coincidir com a lua cheia, porque a volta à lagoa ganha um encanto… No primeiro trail [em 2008], as coisas correram bem, com 35 km e 130 participantes (a Freita tinha 50 e era a Freita!), mas se fosse hoje era uma loucura. Não havia material reflector, andámos lá a inventar umas fitas…

Mas havia frontais…

Frontais do chinês… Muitos avariavam a meio e as pessoas andavam perdidas.

Foi começar do zero.

Sim. O que se faz actualmente já não tem nada a ver. Delineamos trilhos com mais rigor, temos objectivos para cada uma das provas, material disponível para fazer marcação eficiente… E em relação às pessoas, costumo dizer que o trail é uma doença que se agrava com a idade.

Em si tem-se agravado muito…

Sem dúvida. Vamos lá ver onde é que isto vai parar…

Qual é o próximo desafio?

É a Transpyrinea [a entrevista foi realizada em Junho, a um mês da prova]. Tenho andado de carga às costas aí pela montanha, a treinar. Ainda ontem [18 de Junho] fiz o Louzan Trail [com 18 kg às costas, foi 25.o da classificação geral e o único do escalão M60 a concluir a ultra], onde descobri trilhos espectaculares. É isso que o trail tem de maravilhoso: faz-nos conhecer novas realidades.

Quando programo uma saída, não é bem com o objectivo da competição.

E a família? 

Não pratica mas acompanha. Tive agora duas deslocações por causa da minha filha, ao Evereste e à Patagónia. E a razão não foi a competição; foi porque a minha filha anda a dar a volta ao mundo de bicicleta há dois anos e meio.

Desde 2003, a sua vida também deu uma grande volta…

A esse nível, sim, sem dúvida. Mas a experiência mais marcante foram os 330 km, no Tor de Géants… Chegar ao fim e chegar bem é fundamental. Eu recuso-me a ultrapassar os limites. É que chegar ao limite é uma coisa, ultrapassá-lo é outra.

Quanto ao TNLO, que novidades terá esta edição?

Não há uma edição que tenha sido igual. Este ano, a distância da ultra é ligeiramente superior [passou de 50 para 60 km]; atrasámos a realização do evento um fim–de-semana, para que não coincidisse com o Mercado Medieval de Óbidos, e por isso também vamos estar num espaço diferente. Vamos ocupar o espaço do mercado, perto da pousada. Depois, há mudanças ao nível do percurso. Os 15 km fazem uma volta muito bonita à barragem. Os 60 km vão pela barragem e depois seguem para as arribas e para as Sezaredas. Reduzimos a parte junto à lagoa, para não esticar tanto e porque as arribas de Óbidos, infelizmente, estão a ser ocupadas por grandes urbanizações. No ano passado, também tínhamos uma maldadezinha à chegada, um quebra-pernas, e este ano os últimos oito quilómetros são em bons trilhos mas um pouco mais fáceis. Por último, vamos ter um novo assalto ao castelo.

Quer dizer que este ano as provas são menos exigentes?

O TNLO é um “falso fácil”. Não tem grandes altitudes mas tem um “sobe e desce” constante. Se não houver cuidado, torna-se muito difícil. No ano passado, houve uma percentagem anormal de desistências no segundo abastecimento, precisamente por algum facilitismo.

Como tem sido a colaboração com a autarquia local?

A Câmara Municipal não se opõe… Praticamente nunca tivemos patrocínios, excepto um ano o da Asics. Há muita entreajuda, muito trabalho e muito gosto. Os prémios dos finishers são sempre pintados à mão… Este ano, por exemplo, vai haver uma tigelinha para comerem a sopa no fim.

 

Ficha técnica

Trail Noturno da Lagoa de Óbidos

13 de Agosto de 2016

60, 30, 15 e 12 km

Integra o Circuito Nacional de Trail Running

O número máximo de inscritos é de 1150

Organização do Clube de Atletismo de Óbidos