Trilhos dos Abutres: E no fim ganhou a Pila

Ricardo-Silva
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Pela quinta vez, sim, tenho em mim a loucura suficiente para isso, fui correr “os Abutres”. Ao longo das semanas que antecederam a prova, ouvi e li informações sobre como, mais uma vez, o tempo não daria tréguas e previam-se dificuldades extremas, fruto da chuva e frio.

No dia anterior a fazer-me aos 30 e picos km, durante o levantamento do dorsal, membros da organização disseram-me que tinha nevado na parte mais alta do percurso. Desta forma, redobrei os cuidados, começando por um belo bife, com molho de Licor Beirão ao jantar, acompanhado com batata frita e “pomada” caseira, afinal de contas, não queria ir em “fraqueza” para a prova. A marmeladinha, digestivo local, mostrou-se eficaz no combate à ansiedade que teimava em permanecer.

Ao contrário de outros anos em que parti da zona de Lisboa por volta das 4h00, mal tendo dormido, este ano fiquei num hotel e aproveitei a partida mais tardia para descansar convenientemente.

Apresentei-me, assim, confiante junto dos outros aventureiros exibindo um belo par de bastões adquiridos no dia anterior (aproveito para solicitar aos fabricantes dos ditos que estes sejam acompanhados de folhetos exemplificativos ou que sejam colocados vídeos online a explicar como se abrem e fixam!) e a tatuagem temporária com o percurso, fornecida pela organização, estampada no braço.

As eructações, vulgo arrotos, das primeiras subidas não diminuíram o ânimo e as dificuldades iniciais foram ultrapassadas qual gazela saltitante. Os bastões, esses, teimavam em dificultar-me a vida, não se fixando…um botão! Tudo dependia de um botão… e andei vários km nisto!

À chegada ao abastecimento de Gondramaz, após todas as subidas terem sido superadas, ouviam-se risos e palavras divertidas sobre o percurso, desafios e apostas. Senti-me desconfiado com tanta animação e a minha resposta, em forma de descida deitado numa parede de lama até o rabo embater numa pedra, fez-me ter a certeza que ainda não tinha acabado.

Como as previsões meteorológicas não se tinham cumprido, as pedras apresentavam-se sem lama e as minhas sapatilhas teimavam em escorregar em todas elas. Em resultado disso, demorei mais tempo a terminar o percurso, mas certamente ganhei em nota artística, com tanta queda dada.

Felizmente, vários colaboradores e curiosos contribuíram para que a dureza dos trilhos fosse minimizada e cerca dos 20 km um grupo de amigos oferecia bifanas e minis aos atletas. No último abastecimento, em Espinho, um dos voluntários que ali se encontrava, percebendo a minha necessidade de proteína, insistiu que comesse uma febra!

Devidamente nutrido, segui até à meta, não evitando sorrisos quando vi um atleta aplicar um creme anti-inflamatório no cóccix de outro ou quando ouvi, já em plena Miranda do Corvo, alguém dizer alegremente: “Estou farto disto, vou mas é desistir e beber um copo!” Fiquem tranquilos, acabámos a prova juntos e utilizámos essa expressão nos brindes que se seguiram.

E de repente alguém se lembrou de perguntar quem tinha ganho e a resposta surgiu célere, nos ultras ganharam o André Rodrigues e a Pila! Pila, Mercedes Pila, mais uma atleta que, vinda do país vizinho, se mostrou encantada por correr em Portugal e a todos cumprimentou com um largo sorriso.

Deste fim-de-semana, só fiquei com pena de não provar a Francesinha de Chanfana. Que belo aspecto tinha! Bom, provas na zona não faltam…