Ultra Trail Andorra Vallnord, um trail que vale pelas pessoas.

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O Trail começou a fazer parte da minha vida há cerca de três anos e, apesar de já ter feito as principais provas do circuito nacional de Ultra Trail/Endurance, nunca tinha saído dos montes e das serras portuguesas. A realidade das montanhas é outra história bem diferente, assustadora, mas exatamente por isso, motivadora e desafiante.

A minha prova era o Celestrail, com 85 km e 5000 D+. Era uma espécie de fiel de balança porque abaixo havia a Marató del Cims (42,5km e 3000D+) e uma caminhada solidária de 10 km; acima vinha a Mitic, com 112km e 9700 D+ e, por fim, a joia da coroa, o empeno-mor, Ronda del Cims com 170km e 13500 D+.

O cardápio para a jornada de 14 a 17 de Julho era este: o arranque para o Celestrail seria à meia-noite de sábado; duas horas antes haviam saído os participantes na Mitic e o pessoal da estiva (Ronda) já estava a correr desde as 07h00 de sexta.

Ao fim da tarde de sexta, cheguei a Ordino, que era o centro de partidas e chegadas de todas as provas, e era palpável o ambiente de festa, antecipação, nervosismo e boa disposição entre os corredores, organização e população. Tudo estava bem sinalizado com todas as informações para levantamento de dorsais e entrega do saco para a muda de roupa. A única dificuldade foi abrir caminho pela Carrer Major ao som de uma cacofonia de línguas diferentes e de uma confusão de cores fluorescentes, amarelos, laranjas, cor-de-rosa choque, roupa compressiva e músculos. A tribo estava reunida e num movimento confuso e nervoso preparava-se para enfrentar a Montanha.

A expressão “como um burro a olhar para um palácio” reflectia bem o meu estado de espírito. Não era só a organização (em Portugal também temos excelentes organizações), era um ambiente diferente, eram aquelas muralhas de pedra com aqueles cumes apontados para o ar em jeito de desafio, era o linguajar fechado dos Andorranos, eram as pedras escuras das casas e dos telhados inclinados, era aquele vento frio da noite que deslizava pela Montanha abaixo, não sei… Era qualquer coisa que nunca tinha experienciado e sentido e que, mesmo depois de lá ter estado, continuo com dificuldade em classificá-la com palavras. É algo que tem de ser vivido.

Ronda-dels-cims-renato

Parti à meia-noite ao som dos tambores e dos aplausos de uma enorme multidão. Ao deixar a Carrer Major para trás, revi os objectivos para a Celestrail: acabar de forma confortável, disfrutar e respeitar a Montanha sem forçar o andamento. A ideia era ir num registo confortável. Na verdade, estava cheio de medo da montanha, da altitude, da vertigem, do frio, da escuridão e do meu intestino por causa do raio da lasanha que nunca devia ter comido antes da prova!

 

Éramos 443 e, apesar dos primeiros quilómetros terem sido feitos no asfalto, quando vieram os trilhos, à luz do potente frontal do meu companheiro de corridas, Cid, a nuvem de pó assemelhava-se a uma debandada de gnus na savana. Aumentei o ritmo para sair do grande pelotão e assim escapar à poeirada e na primeira subida para Sedomet consegui correr mais livre com menos gente à frente e atrás. Tinha começado o diálogo interior, o nervosismo e o medo iniciais estavam a dar lugar à Hubris que eu sabia que me ia apresentar a conta mais à frente. A subida era enlameada, pouco inclinada, alternada com single tracks cobertos por vegetação. Subi num trote consistente sem grandes dificuldades e, de repente, uma descida. Sabia que quando ela chegasse iria ter o primeiro desafio a sério: Coma Aubosa, aos 10 km.

Ia subir dos 1500 metros para os 2200 metros antes de chegar ao primeiro abastecimento no refúgio de Joan Canut. Sentia-me bem e, apesar de ter andado em algumas pendentes, cheguei ao refúgio quase sempre a correr. Ali não perdi muito tempo, enchi os flasks com água gelada de uma fonte, enchi as mãos de melancia e lá fui a correr e a comer. A seguir, ia subir ao refúgio de Comapedrosa e daí a Portela de Sanfons, a 2520 metros, e foi entre estes dois picos que a maldição da lasanha começou obrigando-me a sair do trilho e a contemplar o céu estrelado com o braço da nossa Galáxia a passar bem por cima da minha cabeça e uma linha ondulante de luz feita pelos frontais dos atletas a descer e a subir a Montanha a vir na minha direcção.

De volta ao trilho, a confiança inicial deu lugar à insegurança. Sabia que a maldição não tinha sido exorcizada, as pernas e os músculos estavam cheios de vontade, mas a mente estava fragilizada e abrandei o ritmo. Já corria sozinho quando entrei num bosque (depois de ter passado o abastecimento do Coll de la Botella, onde comi uma canja quentinha e me encharquei de coca-cola para afogar a maldição. Aqui senti muito frio.) com pinheiros afiados e muito altos e uma escuridão total. Um single track absolutamente delicioso e divertido animou-me e desatei a correr como um teenager inconsciente. Fui dando conta da inconsciência quando comecei a passar vários companheiros e, quando saí do bosque, vislumbrei o vale onde se aninhava Escaldes, localidade da base de vida, aos 45 km, e o sol, que sol e que luz! É um amanhecer auspicioso, pensava eu!

Esses 7/8 km a descer foram feitos a grande velocidade. Sabia que ia cruzar uma ponte medieval, Sant Antoni de seu nome, e depois de a passar ia abrandar para chegar confortável a Escaldes, mas o raio da ponte não aparecia e quem abrandou foi o corpo, não fui eu. Cheguei a Escaldes abatido, dorido e cansado e só faltava metade da prova!

Tinha começado a pagar a arrogância e a falta de respeito pela Montanha. Ia subir até Engolasters. Deixei de correr, andava, encostei por causa da maldição mas já não havia o encanto das estrelas, só o sol que começava a ser cada vez mais forte. Passam por mim dois franceses que me perguntam se estava tudo bem. Respondi que sim com os calções na mão, embaraçado pela situação e por os tipos serem franceses.Ronda-dels-Cims-Renato

No fim de um ziguezague que parecia não ter fim, chego ao Coll de Jovel e perco-me, perdi mais de 30 minutos para voltar a encontrar o trilho com a ajuda de uma corredora que veio a ficar em segundo lugar na geral feminina. Quem anda no Trail e faz distâncias superiores a 60 km conhece os vários estados psicológicos que atravessamos, desde a euforia à depressão. Cada um deve ter a sua forma de lidar com eles. No meu caso, quando vou abaixo, começo a falar sozinho, às vezes sem saber se estou a pensar ou a falar em voz alta e falo comigo e com os que amo e mentalizo-me de que a partir dali é sempre a recuperar porque já bati no fundo e, numa prova grande como esta ou de três dígitos, bato algumas vezes no fundo, mas de cada vez que caio levanto-me sempre mais forte. É esta resiliência, este sacrifício e esta força de vontade que torna o Trail em muito mais do que uma simples corrida com pódios, tempos ou medalhas, mas numa verdadeira construção de carácter e personalidade.

Sentia-me derrotado, esgotado, o sol apertava cada vez mais, suava abundantemente e já quase não tinha água. É aqui que nos agarramos a nós e a quem amamos para nos forçarmos a seguir em frente e, milagrosamente, ouço “força Portugal, anda campeão, que somos campeões da Europa!” Era um posto de controle com dois portugueses de Andorra. Não sei explicar a sensação. É uma alegria, mais do que uma alegria, uma euforia que sobe até nos deixar com pele de galinha. Tinha ressuscitado outra vez, mais uma vez e desde aí, o incentivo dos andorranos e dos portugueses, que são uma comunidade muito numerosa em Andorra nunca mais cessou de me dar alento e força. Gente portuguesa que muito contribui com o seu suor e trabalho para o desenvolvimento económico de Andorra.

Lembro-me que na aldeia de Aldosa, mesmo antes de entrar no trilho que me levaria ao Coll de la Cauba, a 1908 metros, no km 66, ouço o seguinte diálogo vindo de uma casa em construção: “Ó Zé, vai ali um português, car….!” O Zé coloca a cabeça fora do entaipado e diz uma frase de incentivo cheio daquele português genuíno, ancestral, nortenho, rude mas cheio de emoção. Que bálsamo para alma, Zé! Empurrou-me pela Cauba acima e animou-me quanto pôde para o maior desafio de todos, o Coll de Arenes (2600 metros aos 74km). Subida lenta, dura, com muito sol e pseudo-ataques de cavalos que pastavam alheados ao esforço dos atletas.

Uma vez mais, muito incentivo da malta do abastecimento que estava a abarrotar porque no Coll da Arenes juntavam-nos com a Mitic, como já tinha acontecido em Comapedrosa. Fujo da multidão com as mãos cheios de melancia e preparo a cabeça para 10 km de descida até Ordino, bem melhor era preparar os quadríceps que gemiam a cada travagem naquele declive que não dava mostras de abrandar. Foi só quando comecei a ver campos de cultivo e cães a correr atrás de mim e as primeiras casas que senti que ia acabar e essa sensação é outra coisa indescritível. Não era saber a posição em que ia ou quem ia atrás de mim, era eu que me preparava para acabar mais um desafio. A emoção toma conta de nós, as pessoas empurram‑nos com as palmas e com palavras de incentivo e quando temos a sorte de ter quem nos ama na meta, a emoção transborda e não cabe em nós. Foi assim que cheguei a Ordino, eufórico, emocionado, agradecido e cheio de sede.

Tinham partido 443 atletas e chegaram 268, cheguei na 22.ª posição na geral e 7.º no meu escalão com um tempo de 14h25m22s. Foi uma experiência extraordinária, pelos trilhos, pela corrida, pela Montanha, pela organização, pela paisagem, pelas estrelas, mas principalmente pelas pessoas, voluntários nos abastecimentos ou postos de controle, andorranos ou portugueses, incansáveis no apoio e na força que transmitiam. Perdi a conta às vezes que ouvi “Força Portugal, Campeões” ou “Animes Portugal”. Parece-me que o Andorra Ultra Trail Vallnord, mais do que a Montanha tem nas suas gentes o principal atrativo para quem lá vai superar-se. Obrigado Amics…

Ronda-dels-Cims-Renato1Não podia terminar este relato sem um agradecimento especial à minha equipa, Paredes Aventura, também ela um reduto de amigos, à Running Magazine e ao Cláudio Teixeira, porque sem ele não teria corrido em Andorra, ao grande chefe Carvalho e Flora que moram em Escaldes e me fizeram uma Paella para debelar de vez a maldição da lasanha, aos meus companheiros de treinos e corridas, Hélder Silva, Cid e Orlando Marques. É com eles que tenho partilhado a emoção, sangue, suor e lágrimas ao longo de três anos. Ao meu irmão, Rui Silva, o meu mister e “gajo” que sabe tudo sobre o mundo do Trail e a Elisabete Cardoso, minha amiga que tratou do Hotel, Spa e contribuiu para a mais rápida recuperação desde que corro, além de demonstrar uma preocupação genuína com o meu bem-estar durante a prova e, por fim, à Lili, à Catarina e ao Duarte, porque são meus e estão sempre comigo nestas aventuras.