Ultra Trail du Mont-Blanc: Tudo bons rapazes

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Num evento como o Ultra Trail du Mont-Blanc, o trabalho em equipa é mesmo isto: um corre, o outro ouve, alguém providencia o jantar, dois revezam-se no Salão de Exposições. Assim foi com os portugueses em Chamonix. Tudo bons rapazes.

T: Rute Barbedo  F: Quim Farrero

Há uma exposição de meias, camisolas, cuecas e calções a secar ao sol na varanda. Alguém lavou a roupa na última semana? “Só o Mário”, responde Vítor Dias, de aspirador na mão, não com o fim de limpar a casa de Chamonix, mas “para ver se funciona”. Só as peças que Mário Leal utilizou na prova TDS – Sur les Traces des Ducs de Savoie, de 119 km, chegam para monopolizar o estendal. Não que mais ninguém tenha direito a utilizar a minúscula máquina de lavar a roupa encaixada na cozinha, mas na semana de 28 de Agosto a 3 de Setembro só o faialense deu gás às pernas por terras alpinas.

UTMB2João Melo até gosta de correr, mas prefere a estrada e distâncias mais curtas. Andar pelos trilhos é complicado, porque vê-se obrigado a parar a cada 50 metros para observar as plantas que vão surgindo. Afinal, a botânica é a raiz deste açoriano, director do Parque Natural do Faial. Para Vítor Dias, do blogue Correr por Prazer, este também não é o momento para puxar pelo corpo. Deu para alguns treinos e caminhadas “mas muito ficou por conhecer” neste lugar pelo qual ficou “apaixonado”. Juntamente com o filho, Gonçalo Dias, e o açoriano Nelson Andrade, esta é a equipa que se juntou às mais de 20 000 pessoas de todo o mundo para tentar decifrar o famoso espírito de Chamonix e – aproveitando a oportunidade – promover o Azores Trail Run no Salão de Exposições do evento.

A montanha que nunca dorme

Mas correm os participantes do Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB) com três mudas de roupa às costas? Certamente que não. Em cada uma das provas do evento – nesta 15.ª edição, foram cinco –, há pontos em que os atletas encontram o seu saco (com o nome e número do dorsal) para poderem trocar de equipamento. Aí, o controlo é absoluto: a organização verifica se os participantes têm consigo o “arsenal”obrigatório. “Em Courmayeur [do lado italiano], por exemplo, se falta alguma coisa, há uma loja aberta às três da manhã para as pessoas poderem comprar equipamento”, tal como os cafés estão prontos a servir pequenos-almoços, relata Mário Leal.

As poucas horas de sono são, aliás, a “cruz” de quem vive estes dias em Chamonix-Mont-Blanc. Os atletas que não dormem, ansiosos, na véspera das competições; os que não o fazem durante aprova por razões óbvias; e os que, tendo trocado os ponteiros ao corpo, não conseguem “pregar olho” depois de terem cortado a meta integram o painel de sonâmbulos do UTMB. Do outro lado, estão os pais, irmãos, enamorados e amigos que acompanham cada quilómetro. Ainda noutra vertente, não dormem os profissionais e voluntários da organização – como o animador que recebe os atletas toda a noite –, os mais de 200 jornalistas que reportamos acontecimentos em directo para o mundo e os alpinos que vivem o pico de comércio e turismo.

UTMB4Sobre a prova TDS, Mário Leal chega a referira espécie de miragens que surgem com a ajuda do sono, das temperaturas, da luz ou da falta dela. Há quem fale num “segundo estado” de consciência. “Nessa noite [de 30 para 31 de Agosto] não dormi”,conta o açoriano. “Fiz uma paragem de 40-45 minutos, mais ou menos aos 80 km, tirei algumas selfies e depois olhei para elas e percebi que estava muito bem!”, congratula-se. “Fiz um vídeo muito engraçado. Querem ver?” Na varanda, junto às meias, mostra o lago estático e o som contínuo dos guizos a musicar o vale, o mesmo com que o público saúda os atletas durante toda a semana. “Vaquinhas dos Alpes”, classifica Mário Leal. Título feito.

O abraço da meta

Enquanto Mário subia aos pontos altos de Col Chavannes e de Col de la Seigne, planava junto ao lago de Verney, descia por caminhos romanos e ganhava energia no posto de abastecimento de Bourg Saint-Maurice, João, Vítor, Nelson e Gonçalo arregalavam os olhos em casa, frente ao canal online UTMB Live. “Acompanhámos o Mário desde a partida. Tínhamos sempre a Internet ligada para saber quando é que ele passava, víamos os vídeos para saber se estava com ‘boa cara’, tudo!

Havia muitos portugueses que perguntavam como estava a correr a prova do Mário e éramos nós que passávamos a informação”, conta Gonçalo Dias.

Na chegada à meta, Mário Leal adivinhava que o grupo com quem escolheu vir para o Monte Branco haveria de trocar a Internet pela rua. “Foi recebido em festa”, recorda Gonçalo. “E acabou por vencer a previsão do sistema; chegou mais cedo do que o que esperávamos!”, relata. “Mas nós não falhámos”, completa o pai.

À grande e à portuguesa

No dia seguinte, os cinco amigos do Porto e do Faial haveriam de celebrar Chamonix à grande e à portuguesa. Dos oito quilogramas de queijo que João Melo trouxe (para promover os Açores) numa mala vinda do Faial, parada em Lisboa, recambiada para Genebra e transportada para Chamonix, ainda sobraram uns cubos para o piquenique junto ao rio Arve. Aliem-se as pataniscas de bacalhau oferecidas pela mãe de um amigo, o atum açoriano, o licor de amora e o pão e está feita a casa portuguesa.

Mário ainda pontua a conversa com as aventuras em montanha. “Existe uma parte em que se demora mais de meia hora a descer e a atravessar uma zona plana e depois encontra-se uma grande subida. Quando olhei para lá, todas as luzes [dos frontais] estavam paradas.” Riso geral. Há também os encontros inevitáveis ou a enorme distância entre as expectativas e a realidade. “Lembro-me de quando as pessoas me falavam de que correr na Madeira era muito difícil, especialmente num sítio chamado Lombinho, no Porto da Cruz. Mas eu agora vejo isto e penso: quantos ‘lombinhos’ não há aqui??”

Mais uma gargalhada, mais uma patanisca. Dobrada a toalha e bebido o café na casa com vista para a montanha, os cinco (como nos livros de Enid Blyton) aproveitam as horas de sofá e preparam os casacos para a noite fria. “Lá para as quatro e meia já quero estar junto à partida”, avisa João Melo. É preciso aplaudir os que desta vez vão enfrentar 171 quilómetros. Anunciam chuva,temperaturas negativas, um cenário negro. E estes bons rapazes podem até não chorar na escuridão dos Alpes, mas no arranque de cada prova e na chegada dos atletas, como confessa Gonçalo, “não é possível conter os arrepios nem as lágrimas”.