UTMB: De que pó são feitas as estrelas?

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Kilian Jornet e Caroline Chaverot eram os favoritos do Ultra Trail du Mont-Blanc, mas foram François D’Haene e Núria Picas que beijaram a vitória. Nenhum desporto é previsível, mas anos de competição e um ADN de montanha marcam a fibra desta constelação franco-espanhola.

Texto e fotos: Rute Barbedo

 

François D’Haene, o vencedor-vinicultor

François D’Haene cresceu na região alpina de Savoie. Começou cedo a embrenhar-se no atletismo e a destacar-se no corta-mato. Ao mesmo tempo, mantinha as paixões pelo ciclismo, ski, canoagem e montanhismo. Uma vida de disciplina, um pouco diferente da actual. “Precisei de escapar das competições, que eram demasiado ‘estruturadas’,e das sessões de treino que não se adequavam verdadeiramente ao meu desejo de liberdade e à actividade em montanha”, explica o francês de 31 anos.

Em paralelo, é fisioterapeuta e produz vinho em Beaujolais, a terra que escolheu para viver com a família – a mulher e dois filhos. Em 2014, notabilizou-se pelas vitórias do Ultra Trail World Tour, do UTMB e da Diagonale des Fous. Este ano, quem não votava em Kilian Jornet como favorito, apostava sem pestanejar em D’Haene. “É um corredor muito sólido e completo”, como salientou o catalão antes da prova.

D’Haene não conta os quilómetros que faz a cada semana, mas deixa-se levar por corridas de 30 horas. Não desenha um plano de treinos nem define a época com “régua e esquadro”; vai-se adaptando às escolhas que, no início de cada ano, aponta no calendário. Respeita uma alimentação equilibrada e variada, e é tudo o que faz no que diz respeito ao plano nutricional. “Não gosto da ideia de ter uma balança em casa”, declarou o atleta de 1,92 metros numa entrevista ao jornal suíço Le Temps.

 

Kilian Jornet, o ultra-terrestre

Este ano, o catalão de 29 anos subiu duas vezes na mesma semana o Evereste. O à-vontade – e a velocidade – que tem com a montanha posicionou-o como ídolo da comunidade do trail à escala mundial.

A cada ano, Kilian Jornet Burgada entrega o corpo a 1200 horas de exercício e percorre uma média de 600 mil metros em subidas. Da primeira vez que chegou pelo seu pé a 4000 metros de altitude tinha 6 anos, e a estreia no Monte Branco (Kilian viveu alguns anos em Chamonix; hoje reside na Noruega) aconteceu na companhia e supervisão dos pais (o pai era guia em percursos de montanhismo e guarda florestal; e com a mãe recorda, na sua biografia, as noites passadas na  floresta). A pouco e pouco foi conhecendo a montanha, cada vez mais sozinho, mas sempre com o respeito que se deve ter por ela.

Vencedor por duas vezes do UTMB, entrou no desporto de competição pelas portas do ski e do alpinismo, alcançando as primeiras vitórias no início dos anos 2000. “Diria que competir é um modo mais fácil de ganhar motivação para treinar de forma tão exigente e intensa como tenho de fazer para melhorar o rendimento”, declarou à RUNning. Desde os 17 anos, nunca mais o travaram.

Caroline Chaverot, ascensão e queda

ewwe2016 foi o melhor ano de sempre para a franco-suíça nascida em Genebra, em 1976. Venceu o mítico UTMB, o Ultra Trail World Tour e o Campeonato do Mundo de Trail (em Portugal). Mas os resultados não foram uma aparição sem rasto – o desporto de Caroline tem berço para lá dos trilhos. Competidora de alto nível em caiaque, mas também dedicada ao ski, ao alpinismo e à escalada, começou a investir no trail depois do nascimento dos três filhos. O “momento do clique” foi quando obteve o primeiro lugar na prova CCC (Courmayeur – Champex – Chamonix), de 101 km, em 2013.

Passou a adoptar um modelo de treinos com 10 a 20 horas semanais de corrida em montanha.
No final do ano passado, no entanto, a atleta conheceu o sabor amargo do excesso. “Tinha demasiadas coisas para fazer e queria fazer mais, mais e mais. Eram os treinos, as competições, o trabalho [é professora num liceu] e a família. Foi demasiado e, em Janeiro, explodi”, partilhou a desportista.

O problema acabou por ser diagnosticado como uma perturbação da tiróide associada ao stresse, que a obrigou a desenhar uma nova gestão de vida, com sessões de corrida mais doseadas e a mudança para um horário de trabalho a tempo parcial. Neste UTMB, Caroline Chaverot viu-se forçada a abandonar a prova.

 

Núria Picas, a piedra rolante

wwNascida há 41 anos em Manresa, na Catalunha, o maciço de Montserrat esteve desde muito cedo para Núria Picas como o pequeno-almoço para o comum mortal. Foi ali que descobriu a montanha, com o incentivo dos pais, numa fase inicial movida pela escalada e pelo alpinismo. Aos 22 anos estreou-se na maratona, em Aneto (o ponto mais alto dos Pirenéus, a 3404 metros) e não fez por menos: alcançou o terceiro lugar da classificação feminina.

A carreira desportiva foi, porém, travada por um grave acidente (caiu enquanto escalava) que deixou mazelas no pé esquerdo. “Núria, não podes voltar a correr”, prescreveram os médicos. Mas a catalã negligenciou as recomendações e, em 2010, depois de muito sacrifício e auto-disciplina, foi chamada a integrar a secção de corridas de montanha da Selecção Catalã de Atletismo.

Vencedora do Ultra Trail World Tour e da Diagonale des Fous em 2015, e do UTMB este ano, vive em Vall de Boí y Berga, onde costuma treinar. Se deixou a escalada, o ski e o alpinismo? Pelo contrário. Nos períodos mais intensos de  competição, a corrida é que passa para o segundo plano. Entre temporadas, pratica escalada duas a três vezes por semana. E a isto Núria Picas chama “descanso”.