“Vale a pena dedicar o nosso tempo para que a modalidade se desenvolva”

Dong-Liu
Dong Liu, ex-campeã do mundo de 1500 metros
3 February, 2017
Abutres_gajo
Trilhos dos Abutres: E no fim ganhou a Pila
7 February, 2017
Ricardo-Silva

Ricardo Silva é de Cossourado (Barcelos), uma daquelas freguesias com cruzeiro e capela em granito; trabalha em Esposende, como militar da Guarda Nacional Republicana; e treina no concelho de Viana de Castelo. Subimos com ele ao zimbório do santuário de Santa Luzia para ver de cima com que réguas se mede este triângulo.

 

T: Rute Barbedo F: Paulo Jorge Magalhães

 

Em miúdo, Ricardo teve uma paixoneta pelo futebol, “como era normal naquelas idades”, mas acabou por perceber cedo que tinha maior apetência para os desportos individuais, como o BTT e a corrida. Chegou a pensar em seguir uma carreira desportiva, até ter percebido que a vida não era “tão linear”. A entrevista começa assim que o atleta minhoto lamenta: “Em Portugal, o desporto não é fácil.”

 

Só em Portugal?

O desporto escolar em Portugal é quase nulo. Sem falar no futebol, noutros países as outras modalidades não são tidas como amadoras. Há um investimento desde o desporto escolar e tenta-se canalizar os jovens para a aptidão que eles têm. Eu acho que isso é a base do desporto. Não se pode estar à espera que as pessoas se tornem atletas e invistam no desporto aos 20 e tal anos. A probabilidade de termos grandes atletas é muito menor do que se quisermos trabalhá-los desde a infância. Quando não se criam estratégias para que as pessoas pratiquem verdadeiramente desporto, depois não se pode esperar muito. No meio fundo, por exemplo, já tivemos bons tempos, e hoje… E o hóquei em patins, que é uma das modalidades que mais títulos nos deu, continua a ser amadora.

 

Então, na escola, nunca percebeste se terias queda para o atletismo.

Mesmo hoje continuo a não saber se tenho grande queda… [risos] Desenrasco-me mais ou menos. Sei que temos muito potencial e se tivéssemos melhores condições… Basta ver o resultado que tivemos no último mundial [de trail, em Outubro, em Portugal], ao lado de países que já praticam há mais tempo e que têm um maior número de atletas. Não somos assim tão inferiores ao resto do mundo. É uma questão de trabalho e de criar condições. Vale a pena dedicar um bocadinho do nosso tempo para treinar e para evoluir, para que a modalidade desenvolva.

 

Resumindo: Portugal não está assim tão mal. Mas tu, que foste o segundo melhor da equipa nacional, dizes que te desenrascas mais ou menos…

Quando falamos numa distância mais longa, o conjunto de variáveis é maior e é preciso saber geri-las. Mas às vezes é uma questão de sorte. No caso do mundial, por exemplo, nós jogamos em casa e isso pode ter tido bastante peso no resultado. Este ano, em Itália, acho que as coisas vão ser ligeiramente diferentes. Primeiro porque não sei se vamos ter possibilidade de reconhecer o percurso da prova e depois porque é uma distância mais curta. Passa tão rápido que não há muita margem de manobra.

 

Por que procuraste, em 2014, o EDV Viana Trail?

Queria voltar a praticar desporto com regularidade e, para isso, quis juntar-me a um grupo. Depois, tinha a ver com a proximidade geográfica. Há um espírito dentro da equipa e acho que a maioria das pessoas que cá está, senão todas, tem esse espírito. Às vezes o que nos diferencia é a nossa união; 90% dos dias treinamos juntos. Há uma entreajuda enorme e, na altura, quando vim para o clube, não tinha muita noção disso, até porque ele cresceu muito nos últimos dois a três anos. Éramos 20 e tal e pessoas e hoje acho que somos mais do que 100.

 

Quem foram os teus modelos?

O Rui Seixo e o Gabriel [Meira], o Albino Magalhães, eram referências em termos de performance desportiva e experiência. Depois há aquelas pessoas que têm menos resultados, mas que têm muito a ensinar sobre a forma de estar e o desporto em si. Um dos fundadores, que é o senhor Domingos, tem uma forma de encarar o desporto, as provas e os treinos que acaba por ser uma referência para toda a gente. Outro dos fundadores, o José Carlos Alcobia, é um dos grandes mestres, porque é ele que faz com que toda a equipa funcione. Mesmo aquelas pessoas que são mais novas vão-nos dando algumas dicas e pontos sobre os quais nós pensamos: “Pá, isto vale a pena.”

 

Quais são os teus objectivos para este ano?

Os meus objectivos sempre foram trabalhar as provas e este ano continua a ser exactamente a mesma coisa. Não vou para uma prova com o objectivo de ganhar. O meu desafio é comigo mesmo, não é com mais ninguém. Procuro terminar as provas, o que só por si é um desafio.

 

Mas ao obter lugares de destaque a nível nacional e no campeonato do mundo, a fasquia não fica mais alta?

Eu vejo isso quando as coisas nos correm menos bem e as pessoas perguntam o que é que aconteceu. E eu acho que não acontece nada. Simplesmente somos humanos e as coisas nem sempre nos vão correr bem.

 

Como defines o teu calendário?

Procurando fazer as provas que ainda não fiz, como o Piódão [Trail Running], a Geira Romana, a prova de Vila de Rei [integrante do Território Circuito Centro], o UTAX [Ultra Trail Aldeias do Xisto], que tentei fazer em 2015 e desisti. Depois, obviamente, farei a [Grande Trail da] Serra d’Arga porque faz parte da Taça de Portugal e também porque é aqui perto… Sinto que é um erro fazer a mesma prova dois anos seguidos.

 

Porquê?

Porque perde-se aquele entusiasmo da descoberta.

 

Quanto tempo da tua semana dedicas ao trail?

Não contabilizo. [sorri] É uma correria constante. Eu trabalho por turnos, não tenho um horário fixo, e praticamente sei o meu horário de semana a semana, o que me obriga a uma grande gestão. Às vezes tenho de passar dois dias fora de casa… Dorme-se muito pouco, fundamentalmente, e depois tira-se à vida familiar.

 

E compensa?

[hesita] Para já, tem compensado. Também tenho a sorte de ter uma família que me apoia e um grupo de amigos que está sempre por perto. A questão da saúde é que não conseguimos controlar tão facilmente e quando a factura aparecer espero que não seja cara. O desporto, acima de um determinado nível, não é benéfico. Andar a correr 20 horas no meio do monte? Qualquer médico vai dizer que isso é tudo menos saudável! Depois, o nosso corpo precisa de tempo para regenerar. Quando olhamos para um atleta profissional, ele tem um médico, treinador, fisioterapeuta, e tudo está mais do que estudado. Qualquer atleta desse nível não faz mais do que duas maratonas num ano, e nós andamos a fazer 50 km de 15 em 15 dias ou de mês a mês, portanto, alguma coisa está mal. Podem dizer-me que os ritmos são diferentes, mas eu sei que ele irá no limite dele e eu, na minha prova, também vou no meu.

 

O início da factura já começou a aparecer?

Ainda não. E espero chegar aos 60 anos e poder correr, ainda que não ao mesmo ritmo. Se calhar até vou desfrutar mais do que hoje.

 

Sobre o atleta

Tem 36 anos

Corre pelo EDV Viana Trail

Em 2016, foi vice-campeão nacional de trail ultra e o segundo melhor português no Campeonato do Mundo de Trail, em Outubro de 2016, no Parque Nacional da Peneda-Gerês

Em 2015, obteve o nono lugar no Madeira Island Ultra Trail (MIUT)

Em 2014, foi campeão nacional de trail