“Vejo o desporto como uma forma de vida”

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Em 2004, Sofia Garcia Bardoll levou um susto. Um degrau imprevisto na saúde fê-la deitar-se na mesa de operações. Fechou os olhos, temeu, mas tudo acabou bem, e não foi preciso um ano para que passasse a viver “con más ganas!” Esta é história da mulher que vende combustível em Castellón e que se tornou campeã europeia de maratonas de montanha.

Rute Barbedo

Antes de correr a Baikal Ice Marathon, em Março, na Sibéria, Sofia confessou não saber no que se estava a meter. O cronómetro respondeu por si, com uma vitória. Dez meses antes, tinha vencido a Maratona da Grande Muralha da China. Pelo meio, foi declarada a primeira campeã da Europa de maratonas de montanha. Nasceu há 34 anos em Vilafamés, um pueblo de 1 600 habitantes montado sobre rochas e na sombra de oliveiras. Encontrámo-la no Azores Trail Run, frenética, a querer saber tudo, de tatuagem tribal na perna que mais puxa para a corrida. Acha que “correr numa ilha é especial”, porque permite conhecer um mundo inteiro num par de horas. Não tivemos a mesma sorte: Sofia Garcia Bardoll é bem mais do que uma ilha. Mas nos minutos em que estivemos com ela, vimos terra firme.

O desporto é algo que te está no sangue?

Toda a minha vida fiz desporto. Jogava basquetebol, desde o colégio. Um dia, ofereceram-me uma bicicleta e, como eu gostava de treinar com intensidade e dureza, comecei a andar com alguns amigos. Depois, a minha irmã tinha um problema na coluna e precisava de praticar natação. Então eu ia com ela. Conclusão: meti-me no triatlo e estive uns anos a fazer isso. Aos 18 anos, mudei de casa para um lugar onde não havia piscina, por isso tive de procurar alguma coisa para fazer. Então comecei a fazer trail. Mas, em 2004, tiveram de operar-me para que não desenvolvesse um cancro no útero. Foi aí que passei a ver o desporto como uma forma de vida. Logo em 2005 ganhei o meu primeiro trail. Dediquei-me muito ao treino, passei a conhecer pessoas, lugares e países novos.

O trail fez de ti uma pessoa diferente?

Totalmente. Eu gostava de viver de outra maneira: de sair com amigos, de festa, ainda para mais estando em Espanha… Mas a vida dá-nos golpes duros. Então percebi que a minha vida não era só sair com os amigos; havia muito mais. Como já gostava de praticar desporto, encontrei aqui uma via de motivação, de ânimo, de alegria.

Como foi a adaptação?

Quando não podes correr, caminhas. E já está.

Quando começaste a correr fora de Espanha?

Em 2010, fiz o primeiro campeonato de Espanha e, em 2011, comecei a viajar com o clube [Club I Castell Muga] por toda a geografia nacional. Mas, para o estrangeiro, comecei a ir sobretudo a partir de 2012, sendo que os meus “pratos fortes” foram a vitória na Maratona da Grande Muralha da China, no ano passado, e, este ano, a maratona no lago Baikal, na Rússia.

Como consegues financiar as viagens e o equipamento, tendo em conta que não és uma trail runner profissional?

São mesmo muito poucas as pessoas que conseguem viver do trail, infelizmente [Sofia é comercial numa empresa de combustíveis]. Quando fiz o campeonato de Espanha, era o clube que me apoiava. Eu arcava com metade ou menos dos custos. A partir de 2012, começaram a interessar-se por mim. Felizmente sou uma pessoa popular e agora consigo material e tenho o apoio financeiro de duas marcas.

O que te permitiu ir à China… Como foi a experiência?

A China tinha muitos anos na minha cabeça. Foi um sonho cumprido. Tinha vontade de descobrir aquele país e tinha planeado fazê-lo com o meu namorado da altura. Consegui que me patrocinassem a viagem, mas, no final, ele não pôde vir. Então fui eu. Apanhei dois aviões e aterrei em Pequim. Estive ali cinco dias, com a Maratona da Grande Muralha pelo meio. Fui a primeira espanhola a ganhá-la e a quarta mulher no mundo a chegar à meta [no ano anterior, 2013, a portuguesa Filipa Elvas foi a vencedora]. Foi incrível! Senti-me como uma nuvem em toda a viagem.

Não tens medo da distância e da dificuldade das provas?

A maratona é a minha distância favorita. É aquela que o meu corpo melhor sabe medir. No ano passado, fiz seis ou sete maratonas de montanha, o que me fez terminar o ano muito cansada, não só pela competição mas principalmente pela preparação. Mas isso fez com que fosse campeã da Europa de maratonas de montanha. Este ano voltei à competição no lago Baikal. Venho do Mediterrâneo, onde há sol, bom clima, um Inverno temperado…

Como te preparaste?

O material foi emprestado por um companheiro das corridas, que já tinha feito provas em climas semelhantes. (É claro que eu não tinha nada daquilo… [sussurra]) Depois, treinava na aldeia onde vivem os meus pais, por volta das seis horas da manhã, quando rompia o sol, porque era a temperatura mais fria a que conseguia chegar.

Estamos a falar de quantos graus?

Seis graus negativos, contra os 25 [negativos] da Sibéria.

E correste no gelo e na neve, um terreno que não te era propriamente familiar…

Foi duríssimo. Atravessámos uma tempestade. Houve momentos em que tivemos neve até aos joelhos, e eu nunca tinha corrido na neve… A cinco ou seis quilómetros do fim, o vento era tão forte que eu tinha a sensação que também a meta estava a ser levada…

Qual foi o segredo para teres chegado ao fim?

Geri muito bem o esforço, o cansaço. Tinha muito claro que tinha de beber e comer, porque, com o frio – não nos apercebemos – consomem-se muitas calorias, para que o corpo mantenha a temperatura. Depois, era a vontade de não parar, de seguir em frente. É claro que, no final, tiveram de acompanhar–me ao hotel, porque mal conseguia caminhar.

O que te atrai mais numa prova?

Que as subidas sejam duras, porque me defendo bem.

É a adrenalina da dificuldade?

Sim, gosto de viver intensamente.