“Vou fazer tudo para representar o meu país da melhor forma”

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Tiago Martins Aires, Campeão do mundo de orientação e atleta da selecção nacional de trail

Texto: Rute Barbedo

Foto: Celestino Santos

Aos 34 anos, Tiago Aires mantém o fascínio de uma criança, porque a vida gira à volta do desporto. O dele faz-se de coordenadas (é cartógrafo de profissão); a criar clubes (como o Gafanhori); e a surpreender no mundo do trail (embora defenda que os resultados não são surpresa mas trabalho). Cresceu no Barreiro, vive no Alentejo, desenha mapas pelo mundo.

Começaste muito cedo, aos 14 anos.

Sempre fiz muito desporto, toda a minha infância, mas até aos 14 anos fazia-o por indicação médica, porque era asmático num estado avançado. Mas confesso que não era com grande gosto. Eu era sempre o pior (tirando no futebol). Só que, aos 13 anos, desapareceu tudo [problemas de saúde] e comecei por fazer muitas corridas de estrada (o meu pai é maratonista).

O teu pai foi um grande incentivador?

O meu pai e o meu tio [Tiago chegou a viver com ele], que sempre foi muito ligado aos desportos de ar livre, como a caminhada, a escalada, o montanhismo ou o parapente. Um dia, ele foi experimentar a orientação e levou-me, tinha eu 16 anos. Começámos a correr pelos “Perdidos do Barreiro”… Na primeira vez que fiz orientação – a 11 de Janeiro de 1998 – percebi que era o desporto da minha vida. Até escrevi um texto no diário…

Como percebeste isso?

Porque a orientação tem tudo. Tem a componente física, que não é preponderante, e tem o lado técnico, táctico ou cognitivo, que pode fazer toda a diferença. É fascinante, quase como uma caça ao tesouro. E não é um evento estanque, onde há sucesso ou fracasso. Mas atenção que, nos dois primeiros anos, eu ficava sempre em último. Ainda hoje o meu tio me goza.

Então o factor “competição” não era importante?

Eu tentava, mas… A primeira vez que tive um [bom] resultado foi na primeira manga do campeonato nacional de sprint, em Évora, em 2000. Cheguei ao primeiro lugar e fiquei tão nervoso que à tarde fui desclassificado! Ou seja, eu era competitivo e queria ter resultados, mas tudo tem o seu tempo.

Mas és persistente.

Quando gosto de uma coisa luto por ela. No trail, quando decidi que ia tentar o apuramento para o Campeonato do Mundo [no Estrela Grande Trail] treinei, falei com pessoas, tentei reduzir o meu handicap: a experiência que os outros tinham e eu não.

Foi um trabalho de investigação?

Sim. É um lado de que gosto bastante. Venho da área do desporto e fascinam-me a metodologia do treino, os pequenos truques, até os factores psicológicos, os treinadores, as referências. Também aconteceu isso na orientação: comecei a gostar tanto que, para conseguir melhores performances, envolvi-me de várias maneiras. Comecei a organizar treinos e provas, a fazer mapas. Com 18 anos já tinha grandes responsabilidades ao nível da Federação [Portuguesa de Orientação]: organizei estágios e cheguei a ser seleccionador nacional nas camadas jovens; criei o clube Gafanhori [no concelho de Arraiolos, que chegou a ser o clube com maior número de membros no país], o Clube Português de Orientação e Corrida, o Clube da Costa do Estoril…

Cartografia, organização de eventos, criação de clubes. Veio tudo ao mesmo tempo?

Sim. Veio tudo muito naturalmente, por querer saber mais e nunca ficar satisfeito. Depois, em quase todas as épocas tive uma lesão diferente mas sempre relacionadas com sobrecarga. Estava envolvido em demasiadas coisas, mas por paixão. Nos últimos tempos tenho sido mais egoísta a esse nível, talvez por ter chegado à conclusão de que não vale a pena tanto esforço por uma causa quando sozinhos não conseguimos fazer muito.

Que causa é essa, especificamente?

A da orientação. Na Suíça, por exemplo, a Simone Niggli Luder já foi considerada várias vezes a atleta do ano num país onde há nomes como o de Roger Federer. A orientação tem capacidade para ser um desporto de massas e saudável, onde no mesmo local podem competir um campeão do mundo, um veterano, um novato e um miúdo. Isto é praticamente único.

Em Portugal a modalidade é subvalorizada?

Eu culpo-nos a nós, orientistas, porque somos os primeiros a não lhe dar o devido valor e a não saber publicitá-la. Nos dias de hoje, a divulgação, as redes sociais, o show-off são fundamentais; temos de saber vender.

Também tens uma faceta promocional e política associada ao desporto, pelo menos do que podemos avaliar da tua postura nas redes sociais.

Até há dois anos, era daquelas pessoas que dizia que nunca iria ter Facebook. Mas “se não consegues vencê-los, junta-te a eles”… Quanto à luta por causas, sim, sempre foi assim. Tive muitas lutas e muitas guerras.

O que ganhaste com elas?

Acho que pelo menos ganhei o respeito daqueles que não concordam com as minhas ideias.

E patrocínios?

Fui campeão nacional de orientação 11 vezes, competi em 19 países, faço orientação há 18 anos… E assim que fiz a primeira prova de trail [o Trail Vicentino da Serra, em Janeiro], comecei a receber várias propostas.

Não é estranho que um orientista ingresse no trail, mas, no teu caso, qual foi a motivação?

Já há três anos que queria experimentar, só que tive lesões. Mas a Raquel Costa, que é a minha mulher [também atleta e cartógrafa], participou no Trail Vicentino e gostou muito. Além disso, era no Alentejo, uma zona de que gostamos e que escolhemos para viver apesar de sermos os dois da Margem Sul. Uma semana antes da prova, soube que o Armando Teixeira também estava inscrito e mudei para o trail longo [42 km], para me poder comparar com os melhores [ficou em primeiro lugar, à frente de André Rodrigues e Hélio Fumo]. Nesse momento, senti o entusiasmo dos 17 anos. 

Desde então, imagino que muita gente se pergunte sobre a pessoa que apareceu de repente no trail com estes resultados.

A única coisa que peço é que não pensem que é genético ou que acontece por acaso. Eu treino há muitos, muitos anos, fui campeão nacional muitas vezes e por isso é que isto acontece. É claro que há uma adaptação, a pouco e pouco…. Agora estou focado no Campeonato do Mundo de Orientação, em Agosto, e no de Trail, em Outubro, por isso vou fazer menos provas, para me preparar. E vou dar tudo para representar o meu país da melhor forma.

Nisto tudo, onde fica a cartografia?

A cartografia é o meu ganha-pão [risos]. Quem me contrata são clubes, federações ou autarquias, de Portugal, Espanha, França, Suécia, Noruega. É tudo muito bonito mas em Portugal não é possível viver do trail ou da orientação.

Última pergunta: no teu percurso, a orientação está a perder terreno face ao trail?

Não… Simplesmente tenho este entusiasmo da novidade em relação ao trail. Mas também é verdade que na orientação estou em fim de carreira, ao nível da elite. O trail veio na altura certa.

 

Agosto 2016