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Pé ante pé

19 março 2020
7 min
26 ossos, 33 articulações, 11 ligamentos e 20 músculos. Tudo isto cabe num pé. Olhando também para o seu maior aliado, o tornozelo, siga os conselhos de Paulo Felicíssimo, director do serviço de Ortopedia B do Hospital Fernando Fonseca para poupar os “amortecedores” do corpo para as corridas.

Quanto mais violenta for a atividade física e mais pesado for o atleta, mais toneladas recaem sobre os pés e tornozelos. “O facto de o nosso pé ser constituído por múltiplos ossos é exactamente para reduzir o impacto, porque eles acabam por desmultiplicar o esforço total – é como termos vários amortecedores”, enquadra o director do serviço de Ortopedia B do Hospital Fernando Fonseca, Paulo Felicíssimo.

Da estrutura muscular à óssea, passando pela anatomia e níveis vitamínicos, até ao calçado desportivo e tipos de piso e corrida, os mundos do pé e do tornozelo vêm juntos, porque um não vive sem o outro.

As curvas do pé

Os detentores de pés cavos ou chatos ou de uma passada supinadora ou pronadora devem ter cuidados redobrados.” As variações anatómicas podem ser favoráveis ao surgimento de patologias”, alerta o ortopedista Paulo Felicíssimo. Os pés cavos, por exemplo, ao terem uma área de apoio menor, fazem com que as pressões incidam sobre os calcanhares e metatarsos. Em muitas situações, estas alterações podem ser minoradas ou corrigidas com uso de palmilhas adaptadas.

Calendário em alerta

“Quando é que temos a maior parte das lesões?”, introduz Paulo Felicíssimo. A resposta é: nas fases iniciais de época e nos períodos de maior intensidade da prática desportiva. As lesões surgem, normalmente, porque “o indivíduo quer, num curto espaço de tempo, atingir uma performance muito intensa e isso leva a um esforço superior ao normal”. Aqui entram as tendinites, por exemplo. Também o tempo de recuperação é essencial, frisa o médico, indicando que “nunca se deve repetir uma maratona em menos de três meses”.

Correr descalço (ou quase)

A opinião do especialista é clara: “Nas sociedades primitivas, em que não se usa calçado, não sentiram muito a falta dele, porque prepararam a pele ao longo da vida para algum amortecimento. Mas numa sociedade como a nossa, correr descalço não parece lógico”.

Deficiências nutritivas

As patologias ósseas podem ser mais frequentes em pessoas com défice de vitamina D. “Há o mito de que, em Portugal, como temos muito sol, não temos carência de vitamina D, mas não é verdade”. No tratamento de fracturas de stresse, normalmente, o médico suplementa o doente com vitamina D, adicionando, por vezes, cálcio, “embora este seja relativamente fácil de adquirir na alimentação”.

 

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Patologias mais frequentes

Tendinite de Aquiles

Impulso | Está muito associada à corrida de explosão e aos saltos. “É mais frequente em pessoas com pé cavo. Mas também se associa à tensão que os músculos gémeos exercem em relação à amplitude da articulação do tornozelo, particularmente quando puxamos o pé para cima”, contextualiza o médico. “Os atletas com menor potencial de amplitude de base são os mais predisponentes para esta patologia”.

Cronicidade | A expressão “calcanhar de Aquiles” para designar um problema “bicudo” não é utilizada por acaso. A inflamação deste tendão “tende a arrastar-se no tempo e incapacita de forma intensa”. Aí surge outro problema: “Muitas vezes, o atleta não quer parar durante o tratamento, mas isso pode ser muito contraproducente, porque o problema maior das tendinites surge quando as tornamos crónicas”, avisa Paulo Felicíssimo.

Outras tendinites

Peroniais | As lesões dos tendões peroniais estão muitas vezes associadas a luxações, principalmente em atletas com mais idade ou pessoas que começam a correr depois da juventude. Muitas vezes, a situação é “confundida com uma entorse, porque o tornozelo fica inchado”.

Tibiais | O tendão tibial posterior pode tornar-se disfuncional, começando a ganhar comprimento. Nessa altura, o pé que tem uma curvatura normal começa a ter tendência para aplanar. “É o que chamamos pé plano do adulto, que não tem nada a ver com o pé laxo que pode existir na criança”.

Hálux | O Flexor do hálux pode ser facilmente danificado, principalmente nos corredores da velocidade e nos saltadores. A lesão ocorre devido à força intensa exercida sobre o dedo grande do pé, no momento do salto. Normalmente, a lesão ocorre na região posterior do tornozelo, porque este tendão percorre toda a planta do pé.

Fascite plantar

“Tem muito a ver com o tipo de calçado e com as características anatómicas do atleta”, afirma o ortopedista. “Há situações em que pode ser conveniente um calçado adaptado, para reduzir a variação da pronação ou da supinação, e o impacto do calcanhar sobre o solo.”. Portanto, também o tipo de piso em que se corre tem bastante importância – pisos duros levam mais facilmente ao aparecimento das fascites, tal como terrenos acidentados, devido à necessidade de saltar. Numa óptica de prevenção, importa investir em alongamentos de qualidade.

Sintomas | Normalmente, a dor mais aguda surge no início de cada movimento.

Lesões ósseas de stresse

São mais frequentes nos fundistas, por estarem associadas ao impacto de repetição. O calcâneo e o metatarso são as zonas mais fustigadas, sobretudo em pessoas com mais peso ou com pé cavo, mas também com défice de vitamina D.

Entorse

As entorses não costumam suscitar grande preocupação – a redução da actividade física, breve imobilização da articulação e colocação de gelo devem bastar como tratamento. O maior problema surge quando, ao fim de 15 dias, a dor e o edema persistem. “Podem existir lesões associadas que contribuem para a instabilidade do tornozelo, contribuindo para entorses de repetição”, ilustra o médico. As lesões osteocondrais do astrágalo, por exemplo, “são causa de dor, derrame e desconforto”. Neste caso, apenas uma ressonância magnética pode detectar a patologia.

 

In RUNning edição n.º25

Rute Barbedo
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