50 km marcha

“Esta medalha não é só minha, é do atletismo português”

30 outubro 2019
18 min
Aos 43 anos João Vieira tornou-se no atleta mais velho a conquistar uma medalha num campeonato do mundo de atletismo. De Doha, no Qatar, o recordista nacional dos 10, 20 e dos 50 km marcha trouxe a prata, mas também a vontade de continuar a competir, pelo menos, até 2021.

T: Vanessa Pais   F:Gonçalo Villaverde

 

Comecemos pela medalha de prata conquistada em Doha. O que é que ela significa?

Fui o atleta mais velho a alcançar uma medalha em campeonatos do mundo e isso é algo que me deixa muito orgulhoso. É como se fosse um prémio de carreira, que reflecte os objectivos traçados e os sacrifícios que tenho feito com a minha treinadora e esposa [Vera Santos] e, por isso, estou muito contente. Por outro lado, esta medalha não é só minha, é do atletismo português; da Federação [Portuguesa de Atletismo], que me apoia; do Comité Olímpico, que sempre me apoiou ao longo destes anos todos; e é mais um marco para a marcha atlética portuguesa, que tem trazido resultados para este país. Torna-se ainda mais especial porque foi a única que trouxemos destes campeonatos.

 

Os 50 km foram mesmo a “marcha do inferno”?

Foram difíceis, mas fiz uma excelente preparação, que incluiu períodos de aclimatização na Universidade de Coimbra, para me ambientar às temperaturas e à humidade previstas. Depois, treinámos bastante à noite em Rio Maior, e também em Doha, para regular o meu organismo no sentido da competição nocturna.

 

Isso foi particularmente difícil para quem se deita às 22h00?

[risos] Não foi fácil. Desde Junho que iniciámos os treinos nocturnos, por volta das 22h00, mas depois houve outros que fizemos às 23h00, por exemplo. Treinávamos numa zona praticamente sem luz em Rio Maior e tínhamos de levar a nossa filha a dormir, mas conseguimos.

 

O que é que foi mais desafiante: as condições extremas de Doha ou os últimos 17 meses com a pequena Sofia?

Uma criança significa sempre um desafio acrescido, com momentos bons e menos bons. Não tivemos um ano fácil, porque além das questões inerentes a ser pais, a Vera esteve internada no hospital em Fevereiro, por altura dos campeonatos nacionais de clubes [que João Vieira venceu], e sofremos bastante. Depois, a nossa filha vai connosco para todo o lado. Fui competir ao estrangeiro tinha a menina dois meses e foi connosco. Mas isso acaba por ser positivo, porque dá alegria ao grupo e quando as coisas não correm bem acabamos por não estar tão focados nos aspectos negativos. A Sofia sente-se à vontade e sorri para toda a gente. Até hoje só não sorriu “à primeira” para o Marco Fortes [risos].

 

Voltando aos campeonatos, que estratégia adoptaram?

No momento da partida tive algumas dúvidas sobre se iria conseguir ambientar-me àquelas condições, mas a Vera disse-me que a prova era igual para todos e, como tal, devia ir para a linha de partida e seguir o planeamento traçado. Todos estavam muito preocupados em refrescar-se, mas a nossa estratégia passou por partir devagar, para não desgastar muito o corpo e evitar que o mesmo aquecesse na primeira metade da prova. Sabíamos que se a temperatura cutânea ultrapassasse 35º C não era possível expelir o calor produzido, daí a necessidade de, por um lado, tentar que não aquecesse demasiado e, por outro lado, refrescá-lo. Assim, fiz os primeiros 25 km a cinco minutos por quilómetro, que é o meu ritmo de passeio em treino, e a partir daí comecei a focar-me em ganhar tempo volta a volta.

 

Estar 4h04m59s a marchar com 30º C e uma humidade de 70% desde praticamente a meia-noite exige certamente também uma grande força mental. Isso também se treina?

Actualmente estou a trabalhar com um novo psicólogo e uma das coisas que fazemos é criar boas memórias para que me recorde delas nos momentos mais difíceis da competição.

 

Que boas memórias são essas?

Dividimos essa construção de boas memórias numa da minha vida civil e noutra da desportiva. No primeiro caso são memórias da minha filha. No segundo, é a recordação da minha primeira medalha [de bronze, nos 20 km, nos Campeonatos da Europa de 2006], que ganhei em Gotemburgo, e que foi a que mais me marcou.

 

Que outras boas memórias guarda da competição?

Tenho muitos momentos felizes, como a medalha de prata em Barcelona [nos 20 km dos Campeonatos da Europa de 2010]; o quarto lugar nos Campeonatos do Mundo de Moscovo [nos 20 km, em 2013], porque fui capitão de equipa e o melhor atleta português; e agora esta medalha em Doha.

 

Quais as memórias a afastar nos momentos difíceis?

O momento mais difícil foi nos Jogos Olímpicos de Sidney [em 2000], porque fiquei doente na véspera da prova e o médico impediu-me de competir. Foram os meus primeiros Jogos, do outro lado do mundo, depois de uma preparação que considero que foi excelente, e não pude competir. Foi a maior tristeza que tive até hoje [emociona-se].

 

A felicidade chega quando se corta a meta ou no momento no qual se sabe que se vai conseguir um grande resultado?

Quando sabemos que vamos conseguir. Por exemplo, em Doha só comecei a pensar nas medalhas aos 38 km, porque, tal como a Vera, sabíamos que a qualquer momento o corpo pode ceder. Na maratona é normalmente a partir dos 30 km, mas nos 50 km é aos 40. Penso que foi o que aconteceu aos chineses. Quando passei pelo Quin Wan, que aos 38 km ia com um avanço de 1m40s, ele nem reagiu e acabou por desistir.

 

Será preciso sofrer tanto para competir num campeonato do mundo?

Ninguém quer campeonatos nestas condições, principalmente os maratonistas e os marchadores. Mas o que causou mesmo instabilidade, além das diferenças de temperatura que se faziam sentir dos locais climatizados para a rua, foi a insistência do francês [Yohann Diniz, recordista do mundo dos 50 km marcha] em cancelar a prova ou mudá-la para a pista, porque não se tinha preparado para aquelas condições. Ainda bem que não conseguiu, mas ficámos todos, por momentos, sem saber o que ia acontecer.

 

Para estes mundiais a sua preparação foi diferente da habitual. Como é que, em condições “normais”, são as suas rotinas de treino?

São normalmente em Rio Maior. Levanto-me às 8h00, tomo o pequeno-almoço e entre as 9h30 e as 10h00 saio para treinar marcha, já com os exercícios que tenho de fazer antes do treino realizados. Entre o meio-dia e o meio-dia e trinta vou almoçar; durmo cerca de uma hora; e, à tarde, começo com a fisioterapia de prevenção/recuperação, para depois fazer o treino de corrida. No final, vou para casa, janto, vejo televisão e estou com a minha filha.

 

Tudo isto sob o olhar atento da Vera. Como é que tem sido esta vossa “parceria” no desporto e na vida?

A Vera é a minha treinadora [e o João é o treinador da Vera] e o meu braço direito. É ela que apara toda a minha estrutura. Às vezes enervo-me e é ela que me acalma. Nos treinos é a Vera que me acompanha, que me dá as dicas e que me puxa as orelhas. Vivemos juntos há 13 anos e namoramos há 21 anos. Portanto, somos uma equipa com resultados, completamo-nos.

 

Constituem uma equipa que vive exclusivamente da marcha atlética, o que, nas palavras de Susana Feitor, a propósito da sua última conquista, implica “ser atleta de elite, muito poupado e ter vida longa”. Concorda?

Sim. Na marcha atlética somos um parente pobre do atletismo. A minha vantagem é ser atleta de elite e entrar na preparação olímpica. É isso que nos dá alento para conseguir sobreviver neste mundo e fazer a preparação que fazemos, dedicando-nos totalmente a esta área. Isto porque apesar de a Vera ser a minha treinadora, como não tem grau superior, não recebe apoio por essas funções. Como atletas temos recebido todo o apoio do nosso clube, o Sporting Clube de Portugal, mesmo durante a lesão da Vera e agora a miocardite, que a impede de voltar aos treinos.

 

Como é que olha para o futuro da marcha atlética em Portugal?

Temos esta geração e a seguir a ela não temos mais nada a não ser bons atletas, com muito trabalho para fazer e que vão ter de abdicar de alguma coisa para serem marchadores de alto rendimento. Também abdiquei de muito na minha vida para ser o atleta que sou hoje e estou contente por isso, não me arrependo de nada. Temos de tomar decisões, saber o que queremos ser na marcha atlética, traçar um caminho e segui-lo. Assim, esses atletas com alguma qualidade vão ter de definir e seguir esse caminho. Não há que desviar para os lados, porque isso é que nos afasta dos objectivos.

 

Se o destino da marcha atlética no nosso país estivesse nas suas mãos, que decisões estratégicas tomava?

Criava centros de marcha para os quais fosse possível levar os jovens não só para treinar a disciplina, mas também para estudarem, porque a parte escolar não se pode descurar. Por outro lado, apostava num calendário competitivo diferente daquele que temos. Em primeiro lugar, as associações distritais deveriam incluir provas de marcha no seu calendário; e, depois, a nível nacional, teria de ser criada uma base de provas de Grande Prémio. Se continuarmos sem ganhar prémios monetários e a ter mais despesas do que rendimentos, não haverá atletas interessados em competir a nível nacional nem treinadores dispostos a apostar na preparação de marchadores para competição.

 

A medalha conquistada em Doha mudou o seu destino?

De facto, antes destes mundiais tinha ponderado terminar a minha carreira desportiva, porque já vai longa e há momentos da época em que acuso cansaço extremo. Já o tinha ponderado a seguir aos Jogos do Rio, em 2016, mas depois senti que o desgaste físico ainda não era muito grande e decidi fazer mais um ciclo olímpico dedicando-me totalmente aos 50 km. No entanto, estamos a pensar continuar pelo menos até aos Campeonatos do Mundo de 2021 e voltar a analisar a situação nessa altura. Portanto, os Jogos Olímpicos de Tóquio serão possivelmente os meus últimos e espero conseguir, pela primeira vez, terminar os 50 km, abdicando, assim, dos 20 km. Espero alcançar um lugar honroso nos 50 km para esta recta final da minha carreira.

 

Marcos de carreira

RUN20191011_GONCALO-VILLAVERDE_160

45 vezes internacional, incluindo 4 Jogos Olímpicos, 11 Mundiais, 6 Europeus, 11 Taças do Mundo, 12 Taças da Europa e 2 Campeonatos Ibero-Americanos

52 vezes campeão de Portugal

Recordista de Portugal de 10 km (estrada – 39m06s, em 2010; e pista – 34m44s, em 2011), 20 km (estrada - 1h20m09s, em Gotemburgo, em 2006; e pista – 1h22m26s, em 1999) e 50 km (estrada - 3h45m17s, em Pontevedra, em 2012)

Líder anual nacional dos 20 km marcha há 21 anos consecutivos (1998 a 2018)

Jogos Olímpicos

2004, Atenas: 20 km marcha, 10.º lugar

2008, Pequim: 20 km marcha, 32.º lugar

2012, Londres: 20 km marcha, 11.º lugar

2016, Rio de Janeiro: 50 km marcha, desistiu

Campeonatos do Mundo

2013, Moscovo: 20 km marcha (4.º lugar, que passou a medalha de bronze após a desqualificação do russo Alexander Ivanov por doping)

2015, Pequim: 20 km marcha (23.º lugar)

2017, Londres: 50 km marcha (11.º lugar)

2019, Doha: 50 km marcha (2.º lugar)

Campeonatos da Europa

2006, Gotemburgo: 20 km marcha, medalha de bronze

2010, Barcelona: 20 km marcha, medalha de prata

 

Há 30 anos a marchar com consistência

RUN20191011_GONCALO-VILLAVERDE_206Natural de Portimão, João Paulo Garcia Vieira foi viver, aos dois anos, para aquela que se tornou conhecida no nosso país como “a capital” da marcha atlética, Rio Maior. É de lá que têm saído alguns dos melhores marchadores nacionais e é lá que continua a viver – com a sua esposa e treinadora, a também marchadora Vera Santos, e agora com a pequena Sofia – o expoente máximo da marcha atlética nacional, que veste a camisola do Sporting Clube de Portugal há nove anos.

Numa época em que era fácil captar as atenções dos mais jovens para o atletismo, depressa o pequeno espectador das tardes desportivas do “canal dois” quis passar a protagonista. “Por volta dos oito anos, quando o Carlos Lopes ganhou a maratona em Los Angeles eu e o meu irmão [gémeo, o também marchador Sérgio Vieira] começámos a correr no bairro à volta do pavilhão multiusos e a participar em provas de rua”, conta João Vieira. Quando se pergunta sobre a sua primeira prova, o recordista nacional recorda-a com detalhe: “Tinha oito ou nove anos e foi o 1.º Grande Prémio da Rádio Maior, no Jardim Municipal de Rio Maior. Fiquei em segundo lugar e perdi ao sprint com um atleta que já pertencia ao Clube de Natação de Rio Maior.” Não passariam dois anos até que os irmãos Vieira estivessem a representar o mesmo clube e, incentivados pelo treinador Jorge Miguel, a pensar numa carreira desportiva.

Sem colocar a corrida de lado – chegou a realizar “mínimos” para os Campeonatos da Europa de Juniores nos 10 000 metros –, foi sempre a marcha que o cativou pela polivalência e pelos resultados, tornando-se recordista na categoria de Juniores nos 5, 10 e 20 km em estrada e em pista. A sua carreira estava, assim, “em marcha” e seguiram-se as internacionalizações, com participações em quatro Jogos Olímpicos, outros tantos Campeonatos da Europa, onze campeonatos do mundo e seis Taças do Mundo de Marcha Atlética, num total de 45 internacionalizações.

Em 2004 estreou-se nos 50 km marcha com recorde nacional, mas o feito não o afastou, na altura, dos 20 km, porque era “onde podia competir mais vezes e no estrangeiro”, refere João Vieira. Tomaria essa decisão aquando dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, por já não se considerar “tão rápido nos 20 km” e não ficar “satisfeito com uma posição nos trinta primeiros”. Haveria de desistir, mas insistir, e, depois da prata em Doha, é hora de alinhar para Tóquio, com os olhos postos na meta dos 50 km.

O caminho será certamente mais divertido, já que João Viera abraçou há 17 meses o desafio da paternidade, com a pequena Sofia a espalhar alegria nos treinos, nos estágios e nas competições. Agora são “Os patinhos”, “O Areias”, o “Panda e os Caricas” e a “Xana Toc Toc” que animam as suas viagens, que passam pelos “outros caminhos” de Portugal. “Decidimos periodicamente tirar fins-de-semana para a família para conhecermos o nosso país de uma forma que em competição não é possível. Uma das últimas viagens que fizemos foi a Setúbal, para provar o choco frito e conhecer a Serra da Arrábida”, partilha João Vieira.

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