Jorge corrula

You go, boy!

30 outubro 2019
9 min
Os mais atentos já se cruzaram com Jorge Corrula em provas como a São Silvestre de Lisboa ou a Corrida do Tejo. Em entrevista à RUNning, o actor, que viu na corrida uma forma de manter a actividade física e de aprender “a meditar”, mostrou o seu lado de maratonista e de aspirante a trail runner.

T: Vanessa Pais   F: Gonçalo Villaverde

 

Qual é o teu histórico na corrida?

Sempre corri. A primeira vez que participei numa prova foi no quinto ou no sexto ano, num corta-mato regional, em Alter do Chão [onde viveu até ao final do ensino secundário, apesar de ter nascido em Lisboa], na qual fiquei em primeiro lugar, e depois nos distritais, em Portalegre, fiquei em décimo. Mais tarde, a corrida tornou-se numa forma de manter a actividade física, embora também pratique outros desportos, como o futebol.

 

Porque é que só voltaste a participar numa prova em 2015?

Sempre fui muito indisciplinado na corrida. Enquanto corro tenho sempre de ouvir música ou podcasts, sendo que descobri na corrida a única forma de conseguir meditar. Por isso, nunca procurei competições, encarando o convite para a São Silvestre de Lisboa, em 2015, como mais uma oportunidade para correr. Mas, de facto, o dorsal dá um estímulo extra, porque correr com alguém ao lado faz com que haja sempre tendência para querer ser mais rápido e levar o corpo ao limite, que é algo que não tenho motivação para fazer habitualmente nos treinos, mesmo quando se treina com alguém “a puxar” por nós.

 

Este ano voltas à linha de partida da São Silvestre de Lisboa [a 28 de Dezembro] na qualidade de padrinho em conjunto com a apresentadora Isabel Silva. O que te motiva a regressar?

A São Silvestre de Lisboa é uma prova de que gosto muito, apesar de ser difícil, principalmente nos últimos quilómetros. É uma oportunidade única de ver a capital com as iluminações de Natal e de correr na Avenida da Liberdade. Além de desfrutar do percurso, gostava de baixar dos 40 minutos nos dez quilómetros (o meu recorde é de 42 minutos).

 

Como é que o “corredor indisciplinado” fez 3h29m na Maratona de Nova Iorque, a 1 de Novembro de 2016, na estreia na distância?

Sempre segui o atletismo e nomes como Rosa Mota, Carlos Lopes, mas também Fernando Mamede e, mais tarde, os irmãos Castro, e a maratona é, de facto, a grande prova. Hoje já não consigo acompanhar os Jogos Olímpicos como fazia, mas ainda gravo pelo menos a cerimónia de abertura. Por isso, acho que a vontade de fazer uma maratona vem daí. Na Corrida do Tejo conheci o Ernesto Ferreira, do GFD Running, e acabei por lhe falar desta minha intenção. Ele disponibilizou-se logo para me apoiar nos treinos e, como homem sério que é, levou este meu desafio muito a sério e quando me apercebi já não havia possibilidade de voltar atrás [risos]. Nunca tinha feito mais do que dez, onze quilómetros e em menos de dois meses estava na Maratona de Nova Iorque.

 

O que é que recordas desta experiência?

Em primeiro lugar, os treinos. Fazer 42, 195 km não significou correr quatro vezes mais do que tinha corrido até então, mas, em termos de esforço físico e mental, corresponde a 20 vezes mais. O Ernesto foi um treinador fantástico e conseguiu “puxar” por mim até ao meu limite. Treinávamos no Jamor e pude conviver com alguns atletas profissionais como o Rui Silva ou o Francis Obikwelu, o que me mostrou um pouco da realidade do que é ser profissional e da disciplina que é preciso ter. Só faltei a dois treinos, mas acabei por não fazer mais do que 28 km nos treinos longos, por isso, cheguei à prova sem saber o que esperar depois disso.

Inscrevi-me na partida abaixo das 4h00, porque o Ernesto disse-me que se fizesse mais do que esse tempo estava proibido de dizer que tinha treinado com ele [risos]. Depois, no final, acabei por fazer menos e, por isso, passei grande parte da prova “aos esses” a ultrapassar pessoas. Ao longo do percurso fui tão entusiasmado com todo aquele espectáculo que nem percebi o quão rápido parti. Fiz os primeiros dez quilómetros a 4m50s! Depois a partir dos 30/32 quilómetros tive uma quebra, mas senti-me sempre bem – aliás, nem encaro a corrida de outra forma que não com boas sensações – e só ao chegar ao Central Parque é que percebi que estava muito abaixo do tempo previsto.

A multidão a assistir ajudou a atenuar a sensação de esforço físico?

Ajudou e essa foi outra das razões pelas quais Nova Iorque me pareceu uma boa opção. Em Lisboa, por exemplo, seria impossível ter aquela multidão toda ao longo do percurso inteiro. Mas esta questão recorda-me um episódio engraçado. Disseram-me que deveria levar o meu nome na camisola, porque o público vai aplaudindo e gritando pelos participantes. Como já estava em Nova Iorque, porque fui lá passar uma semana de férias com a família – e isso também tornou esta maratona tão especial – não sabia como encontrar um sítio para personalizar o equipamento. Mas consegui e pedi para estampar a frase: “It’s my first time. Corrula.” Foi uma má ideia. Deveria ter optado por Jo ou Jorge, porque foi hilariante ver as caras das pessoas a quererem dizer “Corrula” e a não sair nada. Acabavam por dizer: “Go! Go” ou “You go, boy! [risos].”

 

Dois dias depois estavas a subir as escadas “ao contrário”?

Não [risos]! Cheguei muito bem ao final e fiz uma óptima recuperação. Dois dias depois já estava a correr novamente no Central Parque. E foi muito bom constatar que os nova-iorquinos andavam no dia seguinte orgulhosamente com a sua medalha e felicitavam-se pelo feito, algo que em Portugal seria impossível, até porque não temos essa cultura do elogio.

 

No entanto, só voltaste aos 42,195 km dois anos depois e novamente numa major?

É verdade. Depois de Nova Iorque estive quase seis meses sem correr. Entretanto surgiu a oportunidade de fazer a Maratona de Londres no ano passado e voltei a treinar com o Ernesto. Mas desta vez, como estava num período com mais trabalho, faltei muitas vezes aos treinos. Mesmo assim melhorei um minuto em relação ao meu tempo anterior.

 

Qual o próximo desafio na corrida?

Gostava de aceitar um desafio no trail. Só experimentei uma prova de 17 km, a favor da Make-a-Wish, por Monsanto, e treinei algumas vezes com a Monsanto Running Team, mas nunca fiz uma prova como as que já ouvi falar nos Açores ou na Serra D’Arga. Como adoro a montanha – ainda agora estive de férias na Mongólia e optei por ir a correr pelas montanhas enquanto o grupo seguia a cavalo – penso que vou gostar muito de me desafiar no trail.

 

E a nível profissional?

Estou numa altura de pausa. Nos próximos seis meses posso dizer que vou continuar a fazer televisão e, no início do ano, cinema.

 

Jorge Miguel Baleiza Corrula

41 anos

Natural de Lisboa

Casado com a actriz Paula Lobo Antunes (que não corre habitualmente, mas já fez a Meia Maratona de Lisboa)

Têm uma filha com sete anos e outra a caminho

Popularizou-se no cinema em 2005 com o filme O Crime do Padre Amaro, de Carlos Coelho da Silva

Participou e protagonizou inúmeras telenovelas e séries, a mais recente das quais Golpe de Sorte, cujos últimos episódios estão a ser transmitidos na SIC

Corre “desde sempre”

A primeira maratona que fez foi a de Nova Iorque, em 2016

O seu melhor tempo na distância-rainha (3h28m) foi alcançado em Londres, no ano passado

Em Portugal gosta de correr a São Silvestre de Lisboa, prova que apadrinha este ano

O seu parceiro ideal na corrida “é o grupo do GFD Running”. Gosta de “os fazer rir”

Considera-se “esquisito” com o equipamento de corrida, pois acredita que este “também corre”. Está sempre atento aos novos lançamentos e procura “conhecer as evoluções dos novos modelos face aos anteriores”

Gosta mais de correr ao final do dia ou ao início da noite, mas as exigências profissionais normalmente obrigam-no a calçar as sapatilhas logo pela manhã

Diz que com a corrida aprendeu “a meditar” e acredita que o próximo desafio pode passar pelo trail

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