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Francis Obikwelu: “Um atleta como eu luta sempre para vencer”

02 setembro 2019
14 min
Aos 40 anos, depois de uma carreira marcada por recordes e medalhas, uma das quais olímpica, Francis Obikwelu tornou-se Campeão Mundial Master de Pista Coberta nos 60 metros.

Aos 40 anos, depois de uma carreira marcada por recordes e medalhas, uma das quais olímpica, Francis Obikwelu tornou-se Campeão Mundial Master de Pista Coberta nos 60 metros. À RUNning, o velocista de origem nigeriana naturalizado português recordou um percurso marcado pelo trabalho árduo e pela humildade, que se reflecte na afirmação a propósito desta sua última conquista: “Aquela medalha de ouro é importante. Como todas as outras que conquistei.”

 

T: António Fernandes       F: Gonçalo Vilaverde

 

O encontro estava marcado para a oficina principal e cartão de visita do atletismo, a Pista de Honra do Estádio Nacional. Francis Obikwelu chegou e disponibilizou-se para as fotografias. Uma entrega profissional, mesmo agora numa nova fase da sua carreira.

Depois, um exercício de conversa em que passámos por alguns dos temas que o marcam e que estão em voga no atletismo português. Um medalhado olímpico, campeão e recordista europeu, que recentemente fez furor nos Mundiais de Veteranos (“Masters”, na designação oficial) em Pista Coberta, mostrando um fulgor que poucos pensariam ter, relançando outro capítulo na sua história. A de um homem que olha para a velocidade portuguesa e pede mais garra; que divulga o objectivo mais memorável da sua carreira e aquele que mais lhe custou a não alcançar; que afirma que a nacionalidade está no coração.

 

O que é que ainda faz correr o Francis?

Adoro correr. Esta é a minha vida, a minha paixão. O atletismo é a minha paixão, por isso continuo a correr e a competir. Praticar a modalidade é a minha motivação, mas sinto que também ajuda em todas as áreas da nossa vida, até no nosso trabalho. Ficar em casa sem fazer mais nada só acumula problemas.

 

Competir nos mundiais de Masters foi outra motivação?

Estava a começar a treinar, como fazia normalmente, não estava a pensar em nada de especial. Só queria estar bem, até que o doutor [Aurélien] Henry, o meu treinador, falou neste objectivo. Fiquei a pensar: Porque não? E aceitei o desafio.

 

Um desafio, mas com um objectivo claro…

Tu conheces-me. Um atleta como eu luta sempre para vencer. Não podia ir apenas para participar. Foi como no passado, fui lá para tentar fazer o melhor, vencer. Sempre fui profissional.

 

Que tal foi essa experiência?

Estar nos Mundiais, apesar dos meus títulos nas grandes competições, fez-me sentir como quando era jovem. Aos 40 anos estou a aprender coisas diferentes, em busca da vitória. Não posso abusar, nem treinar como antes, mas não posso distrair-me (risos).

A experiência na Polónia [país que acolheu os World Masters Athletics Championships Indoor] foi fantástica. Voltei a sentir aquele carinho do público, dos jornalistas. Eles estavam espantados por um atleta que venceu tanta coisa não ter vergonha de estar ali. E digo isto com sentimento: aquela medalha de ouro é importante. Como todas as outras que conquistei.

 

E é para repetir?

Sim, sem dúvida. Quero estar no Europeu ao ar livre, em Itália, e no próximo ano quero participar no mundial no Canadá, em Toronto. Repara, no mundo já se dá importância a estas competições, que são uma oportunidade para quem gosta e quer competir e não tem outra forma. Mas aqueles Campeonatos enganam. Aquilo já é de outro nível, é claro, mas é muito bom. E para se perceber um pouco, estiveram na prova 350 ingleses, com médico e fisioterapeuta. Não é brincadeira para eles.

 

Em Portugal, os Masters estão com boa imagem?

Podemos já ter alguma idade, mas não somos velhos. Temos de dar mérito aos atletas que competem em Masters, pois trabalham e treinam. E é bom treinar, estar bem e poder mostrá-lo de uma forma competitiva. Pouco a pouco, as pessoas vão olhar mais para eles. Eu estou a fazer a minha parte, ajudando a dar alguma visibilidade, enquanto mantenho as minhas ocupações normais…

 

Queres falar sobre essas ocupações?

As minhas visitas a escolas e a outros sítios. É algo que gosto de fazer. Dar o exemplo de alguém que passou por obstáculos, não se deixou abater, e que chegou ao topo dos seus sonhos.

 

Do jovem aventureiro à medalha olímpica

 

Francis Obikwelu nasceu na Nigéria, a 22 de Novembro de 1978. Começou por jogar futebol, tentando seguir as pisadas do pai, mas uma lesão, aos 15 anos, “tirou-lhe a bola dos pés” e “chutou-o” para o atletismo. Foi convocado para a selecção de juniores da Nigéria que iria participar no Mundial em Lisboa, em 1994. Foi o melhor dos não-apurados para a final dos 400 metros, com 46s79’, e esteve na estafeta de 4×400 metros, que foi sétima na final, com 3m09s68’.

Com dois outros elementos dessa estafeta – Wilson Ogbeide e Sylvester Omodiale – optou por permanecer, ilegal, em Portugal, não regressando à Nigéria com a restante comitiva [ver “O meu Sporting no coração”]. Era o sonho da Europa…

 

Ainda há algo de aventureiro no Francis?

Já não sou tão aventureiro. Faz parte da minha história, não se apaga, mas a minha intenção era conseguir outras coisas. Tinha de arriscar tudo. Mas não foi fácil, para um jovem que vem de África, não conhece ninguém, sem saber falar português… Ainda hoje não sei falar muito bem [risos]! É assim a vida. Tinha de arriscar, pois tinha talento, mas na Nigéria não dava, porque são 200 milhões de habitantes e 180 milhões são talentos! Tinha de tentar noutro lado.

 

Foi a melhor opção?

Foi. Não estou nada arrependido. Sinto-me inteiramente português. Ninguém me trata como nigeriano. Este é o meu trabalho. As pessoas trabalham, pagam impostos e eu, orgulhosamente, retribuo com a minha competência. Na Nigéria já sentem que não sou de lá. Vou lá sempre de férias, ver a minha família, mas esta é a minha casa. Em Portugal. Não volto à Nigéria.

 

Sentiste alguma vez negatividade por seres naturalizado?

Não, nada disso. Já disse anteriormente, as pessoas tratam-me como se fosse um filho de Portugal.

 

Qual a tua opinião sobre os novos atletas naturalizados?

Não gosto muito de falar sobre isso, porque há coisas que só quem passa por elas entende. Cada um pode escolher onde quer viver. O importante é que a pessoa, ao naturalizar-se, possa sentir a opção que está a tomar. Se é aqui que se sente bem, que pode realizar os seus sonhos, então tudo bem.

Agora, antes de tomar essa decisão [da naturalização] deviam sentir o país, as pessoas, perceber o que se pode esperar deles. Acima de tudo, é importante que possam sentir que é aqui a sua casa. Como aconteceu comigo.

 

Olhando para a tua carreira, quando é que sentiste que o teu objectivo estava cumprido?

A medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2004 foi o momento mais alto. Em 2000 lesionei-me em Sydney, ainda a competir pela Nigéria, e fui operado ao joelho no Canadá. As coisas não correram bem e o médico disse-me que era melhor deixar o atletismo. Eu não estava “para aí virado” e disse-lhe: “Nos próximos Jogos vou estar no pódio.” Eu pensava mesmo assim, que tinha tanto talento e ainda não o tinha mostrado. Fui para Espanha, não tinha corrido os 100 metros, só os 200 metros e decidi que iria fazer os 100 metros. E assim chegámos ao dia. Estava pronto para vencer, mas o Justin Gatlin foi mais forte. Fica para sempre aquele momento, ganhar a prata por Portugal, pela Nigéria (a minha mãe disse que a Nigéria até parou…).

 

Mas há sempre o reverso da medalha…

Sim, foi nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Cometi um grande erro com o meu treinador. Treinámos demais. Sentia que estava em melhor forma até do que em 2004, mas queria tanto ganhar que bloqueei. Não passei das meias-finais. Foi o momento mais difícil e triste. Treinei tanto, tanto! Mas não há o que inventar, que faltou isto ou aquilo. Aconteceu. Em 2004, em Atenas, não tinha nada a perder. Mas em 2008 já havia alguma pressão. Cometemos um grande erro, que nos custou caro.

 

À procura de velocistas

 

São também esses erros que te levam a querer apostar agora na carreira de treinador?

Já dou conselhos e quero treinar, mas alguns jovens vêm treinar comigo e parece que têm medo. Sou muito profissional, comigo não dá para brincar. Quem quiser estar comigo tem de trabalhar.

Não estamos a conseguir potenciar muito bem os talentos. Parece que os atletas têm medo ou não têm motivação. Trabalham muito para conseguirem mínimos, mas nas grandes competições não conseguem ultrapassar-se.

 

Como é que interpretas esse panorama?

Temos de colocar os olhos em atletas como Rui Silva, Naide Gomes e Nélson Évora, que ultrapassaram essas barreiras. Eles têm de mostrar que são melhores. Nos campeonatos temos de chegar e mostrar que somos os melhores.

O Ricardo dos Santos, nos Europeus, foi batendo recordes nas fases da prova, até à final; o Nélson Évora melhora sempre nas finais. Ambos têm treinadores estrangeiros [Linford Christie, de Ricardo, e Ivan Pedroso, de Nélson], que foram campeões e conhecem esse salto.

Os nossos treinadores precisam de ganhar esse momento. São muito bons, mas é preciso mais qualquer coisa. Comigo aconteceu isso. O Fausto Ribeiro é um grande treinador. Ele mostrou que sou um atleta talentoso, mas houve um momento que senti que necessitava de algo diferente e apostei no Pascoa Piqueras, em Espanha, para o conseguir. Muda-se a mentalidade e é-se mais ambicioso e não se tem tanto receio.

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DESTAQUES DE CARREIRA

Vice-campeão olímpico de 100 metros (2004)

Campeão europeu de 100 metros (2002 e 2006), 200 metros (2006) e 60 metros – pista coberta (2011)

Vice-campeão europeu de 200 metros (2002)

Terceiro nos 200 metros no Mundial de 1999 e no Mundial de Pista Coberta de 1997

Vencedor da Taça do Mundo em 200 metros,

2.º em 100 metros (2006) e 3.º em 100 metros (2002)

Campeão mundial de juniores em 1996 (100 e 200 metros)

Campeão africano de 200 metros e 4×100 metros em 1999 (2.º nos 100 metros)

Recordista da Europa de 100 metros (9s86’, em 2004)

Recordista de Portugal de 100 metros (9s86’, em 2004), 200 metros (20s01’, em 2006), 4×100 metros (38s79’, em 2014) e 60 metros – pista coberta (6s53’, em 2011)

29 vezes internacional (por Portugal): 26 em pista e três em pista coberta

Nove vezes campeão de Portugal

Campeão Mundial Master de pista coberta em 60 metros (2019)

Vice-campeão Mundial Master de pista coberta em 4×200 metros (2019)

 

“O meu Sporting no coração”

Com Francis Obikwelu na equipa, junto aos outros nigerianos que tinham ficado por Portugal – Wilson Ogbeide e Sylvester Omodiale –, o Sporting conseguiu conquistar o seu primeiro e único título de Campeão Europeu de Clubes de Pista, em 2000, em Vila Real de Santo António. Depois ainda foi mais oito vezes ao pódio (três vezes vice-campeão).

“Foi um momento muito especial. Ficámos muito contentes por isso. A equipa era fantástica e ainda hoje recordo esse triunfo e continuo a treinar sempre pronto para que o clube possa contar comigo. Não tenho a idade de então, nem esse nível, mas estarei sempre pronto para ajudar o clube”, refere Obikwelu, salientando a grande competitividade que existe entre o Sport Lisboa e Benfica e o Sporting Clube de Portugal nos campeonatos nacionais.

“É sempre de estar com a calculadora até ao fim. São equipas que têm atletas muito bons e nós queremos sempre ganhar. Até agora a vida diz-nos que ninguém ganha para sempre. E este ano sucederá o mesmo, com bons atletas e bons despiques, como o do triplo, com o Nelson Évora e o Pedro Pichardo, que são dois atletas de grande nível mundial”, remata.

António Fernandes
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