Maternidade

Atletas, mães, resistentes

03 fevereiro 2020
17 min
Deve uma atleta de alto rendimento abdicar de ser mãe? Devem as marcas e clubes reduzir o financiamento? No ano passado, a polémica estalou quando a multi-medalhada Allyson Felix denunciou a proposta de corte de 70% no contrato com a Nike. E em Portugal? Quanto custa a uma atleta ser mãe?

Texto: Rute Barbedo

Sara Moreira, 34 anos, mãe em 2013, bronze na Maratona de Nova Iorque em 2014. Jéssica Augusto, 38 anos, mãe em 2015, bronze na maratona do Campeonato Europeu de Atletismo em 2016. Dulce Félix, 37 anos, mãe em 2017, quinto lugar na Maratona de Valência em 2018. Filomena Costa, 34 anos, mãe em 2012, sexta na Maratona de Hamburgo, em 2014, depois de mais de um ano parada. Sandra Teixeira, 41 anos. Grávida, foi campeã nacional por equipas no corta-mato curto; tornou-se mãe em 2014. Afinal, é a maternidade o fim da carreira de uma atleta? Durante muitos anos julgou-se que sim, daí que no atletismo português sejam poucas as mulheres que decidiram ter filhos para depois voltar às pistas. Era preciso escolher entre o papel de atleta e o de mãe.

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Foto: Marcelino Almeida

A especialista nos 3000 metros e fundista, Sara Moreira, preferiu não acreditar nesta separação. “Sempre quis ser mãe antes dos 30 anos [foi aos 27], e mesmo assim adiei por causa do atletismo”, conta à RUNning. A decisão não foi fácil. “Não havia grandes referências de atletas em Portugal que tivessem sido mães durante a carreira. Fi-lo completamente às escuras.” Nos balneários, repetia: “Quero ser mãe antes dos 30.” E as colegas acreditavam que Sara iria acabar por mudar de ideias ou que, concretizado o desejo, já não regressaria ao desporto. Mas, em 2013, a atleta da Selecção Nacional engravidou e, com Guilherme na barriga, foi campeã da Europa nos 3000 metros de pista coberta, em Gotemburgo. Com o título, “houve uma série de coisas em termos de corridas, prémios, cachet que se alterou. E em boa altura, porque, quer queiramos, quer não, ser mãe é uma viragem.” Uma viragem em termos emocionais, físicos, mas também financeiros, uma vez que menos resultados implicam menor rendimento.

Como descreveu a atleta olímpica Alysia Montaño num artigo publicado no ano passado no jornal The New York Times, existe “uma indústria multi-bilionária que elogia as mulheres por terem família em público, mas não lhes garante um salário durante a gravidez e o início da maternidade”. Referia-se à Nike, a mesma marca acusada de propor à multi-medalhada Allyson Felix um corte severo no novo contrato quando esta planeava a maternidade. “A Nike queria pagar-me 70 por cento menos do que antes”, declarou a velocista, que decidiu romper o silêncio para questionar o seguinte: “Tenho sido uma das atletas mais amplamente comercializadas pela Nike. Se eu não consigo garantir um apoio na maternidade, quem consegue?” A atleta tem 34 anos e há quem tenha correlacionado a atitude da empresa com o peso da idade e com um possível não regresso às pistas no pós-parto. Mas o certo é que, três meses após a denúncia no jornal americano, a Nike (e outras marcas desportivas, como a Altra e a Burton, replicaram a atitude logo de seguida) mudou a sua política em relação aos direitos das mulheres atletas, passando a assegurar 18 meses de pagamento e bónus no período em torno da gravidez.

Uma das atletas que em Portugal foi apoiada pela mesma marca é a campeã europeia Jéssica Augusto. Questionada pela RUNning, a meio--fundista afirma que, no ano da gravidez (2014-2015), a Nike não deixou de a apoiar. “Apenas alterou o meu contrato. Fez-me um que depois ia ao encontro do anterior caso eu cumprisse os objectivos. Algo normal. Há sempre incertezas com os regressos e houve casos de atletas que continuavam a ser apoiadas e depois não regressavam ao mais alto nível como eles queriam, o que felizmente não foi o meu caso”, resume. No entanto, admite que, “no desporto, ser mãe é uma grande decisão”. “Muitas colegas não o são por terem medo de perder apoios ou de o clube não apostar mais nelas após o regresso.”

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Foto: Cortesia da HMS

Também quando perguntámos a Sara Moreira se alguma porta no mundo do atletismo se fechou pelo facto de ser mãe, a atleta responde incisivamente que não. No entanto, esteve seis meses sem receber do clube e ainda viu recusadas por parte do Estado as prestações de apoio à parentalidade. Por um lado, “os rendimentos ultrapassavam o limite mínimo”, por outro, na altura, a lei não previa o pagamento deste apoio social a trabalhadores independentes, como é o caso dos atletas de alto rendimento em Portugal. “Estava no Maratona Clube de Portugal e cumpri os objectivos definidos até ao Campeonato Nacional de Corta-mato. Na época seguinte, 2013-2014, já não os pude cumprir. Só voltei a receber do clube quando voltei a competir. Fiquei de Setembro a Março sem vencimento, o que foi um pouco penoso.” Não tivesse Sara Moreira economias e, como pré-finalista, o direito a receber por parte do Comité Olímpico, e a aventura da maternidade teria sido mais turbulenta. Por outro lado, teve “a sorte” de contar com o apoio da família. “Eles viveram quase durante um ano para mim. Posso mesmo dizê-lo.” Um mês após o parto, a atleta retomou os treinos. “Quanto mais rápido voltasse, mais rápido estaria a competir e também a receber.” 

A volta à pista

Hoje, os trabalhadores a recibos verdes têm direito a apoio à parentalidade. “Descontamos para a segurança social, como todos”, lembra Sara Moreira. Mas “a cultura desportiva em Portugal tem muito que evoluir”, não só na questão da maternidade, como dos estudantes (conciliar o estudo com o desporto), do pós-carreira e inclusive do apoio popular, defende a corredora. “As pessoas não acham que ser atleta seja uma profissão. E essa noção tem de vir de cima, o nosso estatuto tem de ser definido.”

Mas voltemos a 2014. Guilherme era recém-nascido e Sara Moreira voltava a calçar os sapatos de bicos. Passados 12 meses do nascimento, arrecadou o bronze na Maratona de Nova Iorque e, em 2015, alcançou o segundo lugar – e o terceiro melhor tempo português (feminino) de sempre – na Maratona de Praga.

Durante mais de 300 anos acreditou-se que a gravidez era o início do fim da juventude de uma mulher e, mais certo ainda, de uma atleta de alto nível. Contudo, as vitórias das mães Fanny Blankers-Koen nos 100 e 200 metros, nos Jogos de 1948; Liz McColgan, nos 10 000 metros do Campeonato do Mundo de Atletismo, em 1991; e Paula Radcliffe, que continuou imparável nas maratonas após ter tido o primeiro filho, em 2007, alteraram a visão sobre a figura da mãe-atleta. Hoje, a ciência confirma que, “durante a gravidez, existem diversas alterações que influenciam a performance desportiva”, variando significativamente consoante o caso. Acredita-se, inclusive, que podem ocorrer efeitos positivos no pós-parto (sobretudo no caso de corredoras de longas distâncias), devido às alterações a nível pulmonar (expansão da caixa torácica) e cardiovascular (a maior capacidade de retenção de sangue no coração aumenta a eficiência com que o oxigénio é fornecido aos músculos), pensam alguns especialistas. E numa gravidez e parto sem complicações, “não estão descritas alterações irreversíveis, não sendo expectável o deterioramento da performance desportiva”, nota Alexandra Ruivo Coelho, médica interna de Ginecologia e Obstetrícia na Maternidade Dr. Alfredo da Costa (MAC), pós-graduada em Medicina Desportiva e colaboradora na Consulta de Exercício na Gravidez da MAC*. Irreversíveis talvez sejam as transformações psicológicas. Muitas atletas descrevem uma motivação que desconheciam antes de serem mães, que as impulsiona a treinar e a competir mais afincadamente.

“Fiquei muito mais disciplinada e organizada, com maior sentido de responsabilidade; tive de me transcender”, dá conta Sara Moreira. Por outro lado, “a paragem faz bem porque dá tempo para que se regenerem todas as pequenas mazelas, limitações ou lesões que às vezes impedem de conseguir treinar bem”. E há ainda outro factor que se ajusta às pistas: “Houve muita gente que, quando soube que estava grávida, me dizia que já não voltava a ser atleta, e eu tive necessidade de provar que era possível.”

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Foto: Marcelino Almeida

O exemplo inspirou colegas como Dulce Félix, que decidiu ser mãe depois de mais de 20 anos dedicada ao atletismo. “Atletas como a Sara [Moreira] ou como a Jéssica [Augusto] regressaram e com grandes resultados. Por aí, o meu receio ficou logo de parte. Depois, falei com o clube e com os meus patrocinadores e tive o apoio de toda a gente, o que conta muito”, recorda a atleta do Sport Lisboa e Benfica. O regresso à competição, no entanto, não foi fácil. “Engordei 23 kg na gravidez. A minha filha nasceu em Dezembro e só em Março recomecei a correr. Foi um processo lento, mas não me queria precipitar. Ser mãe de primeira viagem é uma aprendizagem todos os dias.”

 

Sem “dinheiros”

É claro que, como para todas as mães trabalhadoras, “a vida profissional acaba por se complicar”. “Passamos a ter uma pessoa que precisa de nós e que não podemos abandonar”, resume Sandra Teixeira. Também por essa razão, assim que a atleta regressou aos balneários do Sporting Clube de Portugal, logo a seguir a ser mãe, “havia um olhar de ‘como é que ela consegue voltar?’” Para a desportista, a resposta era simples: “Quando queremos muito uma coisa, somos capazes. E eu ainda sou guarda prisional e treinadora.” Ainda assim, “um atleta é feito de resultados”, que inevitavelmente se perdem, por falta de disponibilidade física, com a gravidez. “Noutras áreas, o ordenado é fixo, mas no desporto ganhamos consoante a nossa prestação. Sabemos que um ano de grávida é um ano em que esses dinheiros não vão entrar. Cabe aos clubes – e felizmente não tenho nada a apontar ao Sporting – apoiarem-nos”, defende a especialista em corta-mato.

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Foto: RUNning/Gonçalo Vilaverde

Mas como reage o corpo no regresso à competição? “É uma questão de adaptação e o nosso organismo adapta-se a tudo. Estava habituada a dormir oito horas e passei a dormir cinco. Passei a fazer as coisas com mais pressa: não há tempo para alongar porque temos de ir buscar o filho ao infantário... Mas também é verdade que durante 20 anos de carreira nunca tinha tido lesões e comecei a lesionar-me com mais frequência”, admite Sandra Teixeira. No entanto, há sempre o outro lado: “A nível de resultados, fiquei mais forte. Aliás, fiz o corta-mato nacional e fui quinta. Corri espectacularmente bem. O meu filho estava na meta à minha espera e dizia ‘vai, mamã!’ Aquele grito era a minha força.”

 

Três perguntas a Alexandra Ruivo Coelho, interna de Ginecologia e Obstetrícia e pós-graduada em Medicina Desportiva

1. Quais as principais alterações fisiológicas durante a gravidez que podem ter impacto na performance desportiva?

A nível cardiovascular, temos um aumento do volume plasmático, da frequência cardíaca, assim como uma diminuição da resistência vascular periférica. A nível pulmonar, dá-se o aumento da ventilação com capacidade residual funcional diminuída e, a nível osteoarticular, temos uma alteração do centro de gravidade e o aumento de laxidão dos diferentes ligamentos. No início da gravidez, as alterações descritas não trazem desvantagem para o treino, contudo, com o evoluir da mesma, estas alterações acabam por condicionar um cansaço mais fácil, com o atingimento mais precoce do nível de esforço máximo, assim como um maior risco de lesões, principalmente a nível articular, por maior laxidão.

2. No alto rendimento, têm sido relatados casos de atletas que engravidaram propositadamente para aumentar o rendimento. Teórica e cientificamente, a que poderia dever-se tal opção?

A base científica destas alterações tem sido bastante questionada e actualmente acredita-se que o benefício de uma gravidez precoce não melhora o rendimento desportivo. Acreditava-se que poderiam existir vantagens em termos cardiovasculares, hormonais e músculo-esqueléticas, podendo-se traduzir num maior aporte de oxigénio pelo aumento da produção de eritrócitos, um aumento hormonal de testosterona assim como uma vantagem pela maior mobilidade articular. Contrariando este mito, os estudos têm mostrado que, inicialmente, o aumento do volume plasmático deve-se principalmente ao aumento do plasma, havendo pouco contributo dos eritrócitos nessa fase inicial. Por outro lado, o incremento da testosterona é mínimo, não traduzindo vantagem na força muscular, e o aumento da relaxina apenas amplia o risco de lesões. 

3. A gravidez implica grandes transformações no corpo de uma mulher. No regresso à vida desportiva, as atletas profissionais serão as mesmas em termos de performance ou há alterações irreversíveis?

Durante a gravidez existem diversas alterações que influenciam a performance desportiva. Estas, apesar de fisiológicas, não desaparecem no período pós-parto imediato e têm impacto (positivo ou negativo) por um período indeterminado, com grande variação interpessoal. Adicionalmente a estas alterações tem de se ter em conta a recuperação pós-parto, que difere consoante o tipo de parto e o nível de actividade física durante a gravidez. Após esta fase inicial de transição, e caso se trate de uma gravidez e parto sem complicações, não estão descritas alterações irreversíveis, não sendo deste modo expectável o deterioramento da performance desportiva.

*A Maternidade Dr. Alfredo da Costa disponibiliza uma consulta para as mulheres que pretendem manter o exercício físico na gravidez. O e-mail é consultaexerciciomac@gmail.com

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