Miguel Arsénio

“A mente de alguém que ganha muito, só pensa em ganhar mais”

03 fevereiro 2020
7 min
Miguel Arsénio chegou ao trail há um ano e meio, vindo do BTT, e começou logo “a dar nas vistas”. Em 2019 alcançou vitórias em várias provas, destacando-se a conquista da Taça de Portugal, em Novembro. O atleta de 23 anos pretende afirmar-se este ano no top três nacional.

Texto: Carla Laureano

Foto: Davide Sousa

Como é que começou a praticar trail?

Comecei a praticar trail pela impossibilidade financeira de voltar a fazer o meu desporto de eleição: XCO - BTT.  Sempre pratiquei desporto e depois de uma paragem de dois anos, porque fui trabalhar para Albufeira, decidi começar a correr.

Quais foram as principais dificuldades sentidas no início?

Conseguir correr por mais de 30 minutos. Mas apesar de só conseguir correr meia hora, fazia 7 km, o que já é bom! Então sabia que só tinha de treinar.

Quais eram os principais objectivos quando começou a entrar nas provas de trail?

O principal objectivo era voltar a praticar desporto. O primeiro trail que fiz foi o STE - Montepio Sintra Trail X’Treme, de 12 km, em Julho de 2018, no qual fiquei em 4.º lugar da geral. Não receber prémio ficou-me na mente e, dois dias depois, inscrevi-me para um trail de 30 km, em Setembro. Treinei todas as semanas e a verdade é que ganhei o Trail de Alpiarça. Deixei as pessoas da zona todas em choque!

O facto de ter praticado BTT antes deu-lhe algum tipo de vantagem quando se iniciou no trail?

A maior vantagem penso que seja a nível psicológico. A bicicleta faz-nos sofrer muito, ainda para mais em alta competição. Também trago do ciclismo uma boa leitura de corrida e o saber estar em prova.

É operador de produção na Sumol+Compal. Como concilia os treinos e as provas com o lado profissional?

Por vezes não é fácil, trabalho por turnos rotativos, mas costumo dizer que só não treina quem não quer. Fazer 30/40 minutos diários é sempre possível. Durmo menos uma hora, por exemplo.  

Como estrutura os seus treinos?

Tenho um grande amigo/treinador, o Pedro Bento, que tem uma marca de treinos, a Treinar Melhor. Trabalhamos desde os meus 11 anos, ou seja, há 12. Só me limito a fazer o que ele me diz. É ele que estrutura a minha época e define alturas para atingir picos de forma. 

Para alguém que é recém-chegado ao trail, que significado tem ter já conquistado a Taça de Portugal?

Para mim foi o culminar de um processo muito longo, 3000 km corridos e 4000 km de bicicleta depois, chegamos a este resultado. Parece algo difícil de alcançar, e é, na realidade, mas agora que já está, já ficou para trás. A mente de alguém que ganha muito, só pensa em ganhar mais.

Quais foram as principais dificuldades sentidas no Windmills Trail?

O Windmills foi especial pela humidade e pelas características próprias da ilha Graciosa. A lama também não ajudou muito, mas o trail também é adversidade e todos os que competiram sabiam o que iam encontrar. 

Compete pela Trilho Perdido Eventos/Imporlux. Que vantagens vê em competir integrado numa equipa?

Competir integrado numa equipa traz algumas vantagens ao atleta, tais como não suportar todos os custos. Participar numa prova a 200 ou a 1000 quilómetros de casa, como é o exemplo das ilhas, dá para imaginar os custos que isso tudo implica? Além disso há o espírito de camaradagem e o apoio que sentimos.

Quais são os objectivos para esta temporada?

Esta temporada quero-me afirmar como top três nacional. Quero fazer uma prova no estrangeiro, que já está no calendário e agradeço a quem me proporcionou tal coisa. Mais perto anunciarei qual é. E depois quero muito ser campeão nacional.

O Campeonato Nacional de Trail Ultra, que se disputou nos Trilhos dos Abutres a 1 de Fevereiro, também estava nos seus planos, mas uma lesão no Trail da Boa Ventura afastou-o desse objectivo. Como se lida com estes imprevistos?

Foi uma péssima altura para contrair esta lesão. Treinei durante um longo período para estar bem para o Campeonato Nacional de Trail Ultra e tal não vai acontecer. É difícil para mim, mas a melhor opção agora é mesmo descansar. Ainda só estamos no início do ano.

Anunciou que vai voltar ao BTT. Como vai conciliar a prática das duas modalidades?

Conciliar as modalidades não será fácil. Para isso conto com a ajuda do meu treinador em quem confio a 100%. Conheço o seu trabalho e sei que, com sacrifício, podemos sempre superar-nos. 

Sendo alguém novo neste meio, como se sentiu recebido pela “comunidade do trail”?

Ao início não foi o paraíso. Um miúdo que chega e começa logo a ganhar… Para alguns não caiu muito bem.

Como vê a prática desportiva de trail a nível nacional?

O trail está com uma grande projecção, mas ainda é muito amador. Ao nível de associação, e com a dimensão que tem, a Associação de Trail Running de Portugal [ATRP] devia exigir aos associados que quisessem disputar circuitos nacionais, campeonatos ou o ATRP Pro League, um exame médico desportivo, no mínimo.  Outra questão é o valor cobrado para certas provas, que considero uma loucura. No entanto, o facto de se ter criado uma liga remunerada é um grande passo.

Das provas onde já competiu, qual o marcou mais?

A prova que mais me marcou foi sem dúvida o Estrela Grande Trail. Os trilhos, a paisagem, a dureza, a neve, as pessoas e a amizade que fiz com o Ricardo Silva, que viria a ser campeão nacional de trail ultra. Foi fantástico.

Onde gostaria de competir e porquê?

Gostaria de correr a Transvulcania, na ilha de Las Palmas, e tenho a certeza que conseguia fazer uma boa prova, pelas condições climatéricas, altitude e terreno. Em Portugal a prova que mais me dá cobiça é o EstrelAçor 100 km, por ser na Serra da Estrela, na altura em que é e pelos sítios por onde o percurso passa. Arrisco-me a dizer que é uma das mais duras provas em Portugal, já para não falar do facto de serem 180 km!

Que atleta, a nível mundial, gostaria de conhecer e porquê?

O Killian Jornet! Penso que toda a gente o tem como referência. Não só pelo trail, mas pelos diversos desafios que ele faz e pela superação de adversidades.

BI

Miguel Ângelo Mendes Arsénio 

22/11/1996

Natural de Santarém

Clube: Trilho Perdido Eventos/Imporlux

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