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Armando Teixeira: “A minha vontade era voltar a representar a Salomon”

20 setembro 2019
10 min
Armando Teixeira está de volta à Salomon Suunto. Em entrevista à RUNning, o ultramaratonista que está a terminar a licenciatura em treino desportivo, falou sobre os novos desafios que passam por voltar a correr nos trilhos, enquanto orienta outros atletas, através da plataforma beAPT.

Texto: Vanessa Pais

Foto: Miro Cerqueira

Estás de volta à equipa que te viu despontar para o trail: a Salomon/Suunto. Este regresso significa que “o bom filho a casa torna”?

Sim [risos]. Em primeiro lugar, não vou dizer que fiquei surpreso com o convite, porque, no fundo, quando saí para integrar o projecto Prozis Xtrail Team equipped by Berg Outdoor, tanto eu como a Salomon sabíamos que era temporário e que a saída serviria para poder alimentar outros sonhos.

Como o de estudar e apostar numa carreira na área do treino desportivo?

Na altura em que aceitei o convite para integrar esse projecto da Prozis e da Berg tinha acabado de entrar na Universidade para a licenciatura em Treino Desportivo e queria rescindir o contrato com a empresa na qual trabalhei durante 21 anos, que era a antítese daquilo que queria fazer em termos desportivos. A oportunidade que me foi apresentada foi a de poder ter uma base para alcançar esse meu objectivo e também de me dedicar mais à plataforma beAPT, com o Paulo Pires, que é hoje a minha principal fonte de rendimento.

No entanto, esse projecto durou apenas um ano. O que é que aconteceu?

O projecto mudou de configuração e foram-me apresentados o desafio e a oportunidade de criar uma equipa de raiz para uma nova formação da Berg Outdoor. Além de escolher os atletas, pude participar nos processos de contratação e gestão da equipa, construção da estrutura, delineando a estratégia para a marca. Foi algo que me fez crescer muito profissional e pessoalmente. Mas foi um projecto que “morreu à nascença”.

O fim da marca nacional foi uma notícia que nos chegou a todos no início desta época. Mas vocês souberam-no algum tempo antes. Como é que processaste esta “morte anunciada”?

No final de 2018 já tínhamos a equipa constituída e todos os objectivos bem delineados, quando recebemos a notícia. Acabámos por competir com bons resultados, como aconteceu em provas do World Tour e de Skyrunning, mas foi algo que não pôde ser comunicado enquanto equipa, porque já não podíamos divulgar a marca. No entanto, a Berg honrou o seu compromisso connosco até ao final e isso diz muito sobre a marca e sobre as pessoas. Acho que temos de olhar para esta situação e relativizar, até porque havia dezenas de pessoas com contratos de anos que ficaram sem trabalho e isso é muito mais grave. Por outro lado, tenho de pensar que se não fosse esta oportunidade não tinha obtido a disponibilidade necessária para me dedicar aos estudos e à minha carreira enquanto treinador da beAPT.

A competição acabou por ficar para trás...

Foi preciso estabelecer prioridades. Quando se treina para provas de três dígitos o investimento diário é muito grande e quando estamos numa fase em que se chega a casa e há trabalhos para apresentar, frequências para fazer, alguma coisa tinha de ficar para trás e foi a corrida, porque a prioridade era a licenciatura.

Também no ano passado o Estrela Grande Trail (EGT) “abandonou” os três dígitos. É uma decisão para ficar?

Os três dígitos numa prova como o EGT envolvem uma grande logística e disponibilidade de toda a equipa. Por isso, vamos ter de repensar o evento, até porque no ano passado a prova de 49 km foi campeonato nacional de ultra-trail, o que levou mais gente a essa distância, mas penso que começámos a perder o conceito e a identidade que motivou a organização do evento. O EGT tem de voltar a conquistar por ser uma prova de montanha, de uma região e com uma identidade e isso não é compatível com a massificação. Queremos continuar a conhecer e acompanhar todos os atletas e aproximá-los da montanha e da região.

Com o regresso à Salomon estarás também de volta à montanha em competição. Depois de já teres sido chefe de equipa, que compromisso irás assumir agora com a marca?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que foi muito fácil chegar a acordo, porque a minha vontade era mesmo voltar a representar a Salomon, voltar a casa e retomar a minha carreira a nível desportivo. No entanto, quero abraçar outros desafios que não passam necessariamente pela obrigatoriedade de presença em provas ou de vencer competições. Quero voltar “a vestir a camisola” para representar bem a marca enquanto embaixador; quero que as pessoas voltem a associar o Armando à Salomon e a Salomon ao Armando.

Por que trilhos vamos poder ver-te?

O calendário de provas ainda não está fechado, mas estarei em provas do circuito internacional, embora o World Tour não seja propriamente o objectivo (poderei fazer eventualmente uma prova), mas sim provas emblemáticas internacionais e nacionais, bem como preparar o regresso a algumas internacionais, como a Ronda dels Cims.

Os circuitos nacionais e a disputa por um lugar na selecção nacional estão fora de plano?

Vou querer estar presente em provas a nível nacional, mas não com o objectivo de competir em campeonatos nacionais. Quanto à selecção nacional, sempre que a representei as coisas surgiram naturalmente, ou seja, não era propriamente um objectivo para a época, por isso se surgir novamente a oportunidade ficarei muito contente.

Como é que perspectivas esta nova fase da tua carreira?

Quero ter uma carreira cada vez mais relaxada e sossegada, voltar aos trilhos para correr por prazer e estar na natureza, pois é isso que sempre me apaixonou e que perdi um pouco durante estes últimos dois anos, fruto das minhas outras actividades.

Olhando para o teu percurso, que sugestões podes dar a quem quer fazer do trail a sua profissão?

Em primeiro lugar é preciso gostar mesmo da modalidade, porque só assim é que se tem êxito e resultados. É preciso ter consciência de que o percurso não é fácil, é tão sinuoso como a montanha, mas tudo se consegue com trabalho, esforço, resiliência e, principalmente, humildade.

A dificuldade passa também por não se conseguir viver exclusivamente do trail?

Já passei por várias fazes, com apoios, sem os ter, várias marcas, mas acho que as pessoas em Portugal não têm muita noção do que é realmente o trail. Lá fora há atletas que já ganharam grandes competições e que ainda não têm os apoios devidos. Em Portugal ainda se colocam falsas expectativas, havendo quem pense que um atleta que tem um patrocínio recebe um ordenado e compensações por pódios e por objectivos, mas muitas vezes não é isso que se passa.

Temos de perceber que enquanto o trail não for reconhecido como modalidade será difícil evoluir para a profissionalização. Quando isso acontecer provavelmente vão abrir-se mais portas e os atletas poderão ter mais apoios. Esse caminho já está a ser traçado lá fora e quem este ano foi ao Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB) certamente já se apercebeu disso. O UTMB sempre foi considerado quase como os Jogos Olímpicos do trail, mas este ano é que se notou perfeitamente uma cobertura em termos de comunicação social quase semelhante à de eventos como o Tour de França. E isso é bom para as marcas, porque vão começar a ter visibilidade e, consequentemente, vão gerar oportunidades e melhores condições para os atletas.

trail nacional está ao nível do internacional?

Não nos vejo na cauda, mas integrados na linha da frente. Se olharmos para a nossa base de recrutamento, por comparação com Espanha, França, Itália e Estados Unidos da América, que têm milhares de praticantes, em Portugal somos algumas centenas. Poder fazer um top 20, um top 10, por exemplo, no Mont-Blanc é estar na elite e já o tivemos no UTMB, no World Tour, no Campeonato do Mundo. Agora, claro que estamos atrasados face a outros países, o que se deve também a uma razão muito simples, que é o facto de não termos uma cultura de montanha. Isso faz muita diferença, porque essa cultura aumenta a base de recrutamento, uma vez que as pessoas já nascem com essa apetência. No enanto, somos um país de pessoas trabalhadoras, com ambição e podemos mudar esta realidade atacando pela base, com recrutamento e formação, não aos 18/20 anos, mas mais cedo, aos 12/14 anos. Na parte da pedagogia, as escolas mais do Interior, perto da Lousã, do Gerês, da Serra da Estrela, por exemplo, poderiam ter um papel relevante nesta realidade e incluírem o trail nos programas escolares.

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