Jéssica Augusto

Jéssica Augusto: “Vou tentar os mínimos para a maratona dos Jogos ..."

26 setembro 2019
7 min
Em entrevista à RUNning, Jéssica Augusto, do Sporting Clube de Portugal, que voltou recentemente a ser treinada por João Campos, revelou que está na luta pelos mínimos olímpicos para Tóquio 2020 e que é na Maratona de Valência (a 1 de Dezembro) que os espera alcançar.

As últimas épocas não têm sido fáceis para Jéssica Augusto. A atleta, de 37 anos, que já esteve presente em três Jogos Olímpicos (Pequim 2008, nos 3000 metros obstáculos e nos 5000 metros; Londres 2012 na maratona, onde alcançou o 7.º lugar; e Rio de Janeiro 2016 na maratona, onde acabou por desistir); e que detém a segunda melhor marca nacional na distância (2h24m25s, na Maratona de Londres em 2014), atrás da olímpica Rosa Mota, regressou aos pódios logo após a maternidade (medalha de bronze no Campeonato da Europa de Meia Maratona em 2016 e na Meia Maratona de Barcelona em 2017). No entanto, entrou numa espiral de lesões que a tem afastado dos principais palcos internacionais do atletismo, concentrando-se nas competições nacionais ao serviço do clube que representa. Recentemente voltou a ser treinada por João Campos (que havia sido seu treinador entre 2005 e 2013), terminando “a parceria” com António Nogueira da Costa. Ontem, na apresentação da 7.ª Corrida Montepio (27 de Outubro, Lisboa), Jéssica Augusto disse à RUNning que está de volta aos treinos para discutir um lugar na selecção nacional e correr a maratona nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no próximo ano.

Este ano tens o dorsal número um, pela primeira vez, na Corrida Montepio, apesar de participares na prova desde a primeira edição. Sentes uma responsabilidade acrescida?

A Corrida Montepio faz parte do meu calendário. Participo desde a primeira edição, que foi muito especial, porque venci-a e, sem saber, estava grávida da Leonor. Portanto, corri por duas e a Leonor venceu a sua primeira prova. Gostei tanto da experiência e sinto sempre tanto orgulho ao cortar aquela meta, porque é uma corrida realmente solidária, que faço questão de voltar todos os anos e de pagar a minha inscrição. Claro que ter o dorsal número um é sempre uma responsabilidade acrescida, mas corro sempre para ganhar. E este ano vou levar a Leonor para fazer a Corrida Pelicas, da qual também já fui madrinha juntamente com a Rosa Mota. Será a primeira prova da Leonor… A solo [risos].

É caso para dizer: “Filha de peixe sabe nadar?”

[risos] Desde que tem um ano e meio que a Leonor tem a noção de que a mãe corre e sempre se interessou por isso e por correr. Quando recebeu as primeiras sapatilhas, mesmo não sendo de corrida, calçou-as logo e andava pela casa e dizia: “Mamã, as minhas sapatilhas correm mesmo rápido!” Depois começou a pedir para ir para o atletismo e vou inscrevê-la no Atlético da Póvoa, que é ao lado de casa, pelo menos para se cansar.

Como é que encaras a possibilidade de a Leonor poder ter interesse numa carreira no atletismo, olhando para o teu percurso?

Bem. Para mim foi uma boa escolha profissional. Amo o que faço, sempre gostei, e, às vezes, quando fico chateada e triste falo comigo e digo: “Mas porque é que te chateias, porque é que queres desistir, se fazes o que amas”? A verdade é que pude viajar, conhecer pessoas, ver atletas a sagrarem-se campeões olímpicos. Tudo por causa do atletismo. De outra forma seria difícil, porque os meus pais não tinham possibilidades.

Foi isso que sentiste nos últimos tempos?

Sim. Nós, atletas, pensamos que é só correr, mas temos fraquezas no nosso corpo que podem demorar a aparecer, mas que estão lá e que precisam de ser trabalhadas para prevenir lesões. Nem sempre o fiz, por isso deparei-me com lesões que tive de ultrapassar e para regressar tive de fazer todo um trabalho de reforço e de prevenção. Hoje sei que tenho de trabalhar esta parte para não estar sempre a recomeçar do zero.

Recomeçar do zero implicou também a mudança de treinador?

Eu e o Prof. Nogueira da Costa somos muito amigos, mas em termos de relação treinador-atleta estávamos a chocar, o que, com o tempo, levou à ruptura. Assim, num dia em que tínhamos treino marcado, fui “à civil” e disse que tínhamos de conversar e ele concordou. Chegámos à conclusão de que o nosso percurso profissional em conjunto tinha de terminar ali, para que a amizade pudesse continuar. O Prof. Nogueira da Costa disse-me que desejava o melhor para mim e fiquei muito contente com essa atitude.

O melhor para ti é o Prof. João Campos?

Decidi ter uma conversa com ele, resolver situações do passado (não deixei de treinar com ele por ser mau treinador, pelo contrário, é um excelente treinador, é campeão olímpico e as medalhas que conquistou com outros atletas falam por si) e propus-lhe voltarmos a trabalhar.

Com que objectivos?

O meu objectivo é tentar os mínimos olímpicos para Tóquio na Maratona de Valência, a 1 de Dezembro.

O que é que o treinador diz sobre isso?

Quando lhe falei desse objectivo, o Prof. João Campos disse que não me conhecia actualmente e que tinha de voltar a conhecer-me como atleta. Por isso, concordámos em ir com calma, porque anteriormente sabíamos que precisávamos de 10, 12 semanas de preparação para este objectivo, mas agora não sabemos. Já começámos a trabalhar e até agora está a correr tudo bem, apesar do cansaço próprio de um recomeço.

Na tua opinião, a maternidade influencia?

Sim, mas o pai da Leonor [o guarda-redes Eduardo] agora já não está fora e ajuda mais com a Leonor. Sei que é difícil alcançar os mínimos, mas acredito que vou conseguir, embora o patamar também esteja elevado. Temos uma Carla Salomé [Rocha] num nível bom, a Dulce [Félix] regressou bem [da maternidade]. Se me perguntares se me acho pior do que elas, digo que não, mas dantes trabalhava e as coisas apareciam, agora tenho de trabalhar muito mais para aparecerem.

Como é que estás a planear a época?

Decidimos fazer a maratona em Dezembro, porque a partir de Janeiro temos sempre os compromissos do clube, como os nacionais de corta-mato, de estrada e a Taça dos Clubes Campeões Europeus e, nessa altura, quero estar totalmente focada nestas competições, para depois poder preparar a maratona olímpica.

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