Entrevista

Mariana Machado: “Adorava ser uma inspiração para os mais novos”

11 setembro 2020
11 min
Única atleta a conquistar duas medalhas de ouro nos últimos Nacionais, graças aos títulos nos 1500 e 800m (pista coberta), a estreia em provas seniores não podia ter corrido melhor, embora o percurso trilhado até aqui deixe antever a continuação de uma história de êxitos entre a elite da modalidade.

TEXTO José Lima | FOTOS Paulo Jorge Magalhães

Ambiciosa no discurso, a atleta de 19 anos, actualmente a frequentar o 2.º ano do curso de Medicina, crê que é nos triunfos desportivos que um dia pode “inspirar os outros”. Mariana, ela que se assume “uma eterna insatisfeita”, ressalva que já não se trata de uma promessa do Desporto nacional e aponta, sem pestanejar, aos Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão. “É difícil, mas vou lutar pelo sonho”. 

Na última Gala da Confederação do Desporto de Portugal afirmou que já não era uma promessa. Porquê?
Fui eleita, pelo segundo ano consecutivo, a atleta revelação. Ou seja, já sou uma certeza, correcto? Fiquei feliz por ter vencido e ver que há pessoas que reconhecem o meu trabalho. Não retiro, contudo, o que disse, que sou uma certeza, sobretudo pelo ano que passou, pelos recordes que bati e pelas medalhas conquistadas. Estou a destacar-me no panorama sénior.

Que provas destaca neste percurso?
A medalha no Europeu de 3.000 metros em que caí, quando era candidata à vitória, foi um momento bastante triste. Estava muito confiante, apesar de ter tido varicela uma semana antes, e acreditava que era possível vencer. Dei a volta por cima, embora se calhar faria diferente se fosse hoje. Fiquei satisfeita pelo 2.º lugar, mas teve um sabor agridoce porque queria ouvir o hino nacional. Depois, destaco o 3.º lugar no Europeu de Corta Mato. Estava a correr em casa e foi um dos momentos mais marcantes da minha carreira, com toda a gente que gosta de mim presente na prova.

E crê que o melhor ainda está para vir?
Penso que se ainda não correspondi ao que queria é porque esse momento vai chegar. Estou a destacar-me no panorama internacional e às vezes tenho de colocar um travão. A minha mãe diz-me para ter calma, que estou a ir bem, mas sou uma eterna insatisfeita, quero sempre mais e mais.

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Depois dos últimos sucessos, acredita que ainda vai a tempo dos Jogos?
É um grande sonho e para isso é que trabalho; quem me dera que fosse já nos próximos. É difícil, porque tenho de estar nas primeiras 45 do ranking, e actualmente estou no 53.º. Mas vou lutar pelo sonho, estando consciente que tenho 19 anos e são poucos os casos em que com essa idade vão aos Jogos Olímpicos. Seria algo inédito ou dos poucos casos em Portugal.

Está optimista?
Sou optimista por natureza! Já passei por tanta coisa, como varicela uma semana antes de uma prova, sofri uma queda que me fez perder o 1.º lugar, que agora mereço uma recompensa. Vou trabalhar para lá chegar e tenho a certeza de que em 2024 vou lá estar. 

Está a dar tudo pelo apuramento para Tóquio?
Nunca vou descurar a possibilidade de ir a Tóquio. É um objectivo claro e estaria a mentir se dissesse o contrário. Vamos ver como as coisas correm.

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Assume que é “fanática” pelo SC Braga. Já recebeu convites de outros clubes?
Tive propostas mais vantajosas de outros clubes, mas sempre disse que gostava de continuar no SC Braga, pois sinto um carinho especial por parte dos bracarenses. Se mudasse para outro clube seria uma traição a mim mesma e às pessoas que gostam do clube. No entanto, também tenho noção de que não posso abdicar de propostas muito melhores, porque se o SC Braga não corresponder à minha confiança vai ser difícil manter-me aqui. Mas, sem dúvida, é a primeira opção.

Tem cuidados extremos com a alimentação?
É importante ter uma alimentação cuidada e variada, mas há dias em que temos de sair das rotinas. Se me apetece comer um bocadinho de chocolate ou um bolo, também não abdico. Se já abdicamos de tanta coisa na carreira... Também sou uma sortuda, pois não tenho tendência para engordar.

Qual a maior falha que aponta a si mesmo?
Tento dormir nove horas por dia, mas é muito difícil, sobretudo para conciliar o atletismo com o curso de Medicina. Se calhar, essa é a minha maior falha enquanto atleta. Fazer uma sesta, por exemplo, é-me completamente impossível. E a verdade é que é no sono que os músculos regeneram.

Como gostava que a recordassem?
Adorava inspirar outras pessoas, ser uma inspiração para os mais novos, inspirar o Mundo, mostrar às pessoas que nunca devem desistir. Mais cedo ou mais tarde acredito que a nossa hora vai chegar, que o sucesso vai chegar, independentemente dos percalços que possamos ter. Que temos de lutar, sempre, pelos nossos sonhos!

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“A queda no Europeu mostrou quem realmente sou”

Mariana Machado pratica atletismo regularmente há cinco anos (desde os 14), sobretudo por influência da actual treinadora, Sameiro Araújo, e não tanto pela sua grande inspiração, a mãe, Albertina Machado. A jovem atleta do Sporting de Braga regressa ao passado para contar como tudo começou e explica como consegue aliar o alto rendimento aos estudos. Além disso, conta-nos como um obstáculo numa grande prova internacional serviu de motivação para não desistir. 

Começou no atletismo com que idade?
Desde muito nova o atletismo esteve sempre presente na minha vida, tanto pela minha mãe, como pelos colegas dela, que me perguntavam se queria seguir as pisadas dela. Quando queria começar, aos 11 anos, a minha mãe disse: ‘Nem pensar, és muito nova e esta é uma vida de muitos sacrifícios’. Entretanto, participei num mega sprint pela minha escola. Não tinha preparação e esforcei-me tanto, mas tanto que fiquei tão maldisposta que disse que não queria saber mais de atletismo. Todavia, a minha irmã, que é mais nova, começou a praticar atletismo com a Sameiro Araújo, a minha actual treinadora, que quando me via dizia sempre que eu tinha a estrutura ideal para estar no atletismo. 

E lá cedeu… 
No 9.º ano, o meu professor de Educação Física convenceu-me a ir ao corta-mato distrital e prometeu-me que me atribuía cinco valores na nota. E foi aí que tudo começou, aos 14 anos. É um pouco tarde, mas foi o ‘timing’ perfeito, porque dei um passo de cada vez. Nunca me saturei do atletismo e foi uma decisão natural quando decidi entrar na modalidade, tanto da minha parte, como dos meus pais. E foi graças a isso que, acredito, é-me possível estar sempre a evoluir.

A sua mãe nunca a pressionou? É muito cautelosa e nunca me coloca pressão, preocupa-se é se está tudo bem comigo. Cuida muito de mim e tem receio que tenha lesões.

O apelido alguma vez pesou?
Lido muito bem com isso. Desde muito nova nunca dei ouvidos a quem me dizia que pelo nome, por ser filha da Albertina Machado, estava obrigada a ganhar. Mas não é assim, há outras atletas com valor e que têm uma ambição legítima pela vitória. 

Acredita que vai superar os êxitos da sua mãe?
Já a superei nos 1500 metros, o que não é mau [risos]. Espero que sim e acho que está ao meu alcance.

Qual a frequência com que treina? 
Sete dias por semana, dez ou onze vezes… 

Não deve ser fácil conciliar com o curso de Medicina.
Não há tempo para outras distracções! Não faço mais nada além de comer, dormir  treinar e estudar. Quando tenho um dia mais livre, o que não é fácil, não descuro a parte social, de sair com os meus amigos, estar com a família, momentos que no dia-a-dia não tenho oportunidade. Não é fácil conciliar os treinos com o curso. No ano passado houve uma adaptação, e este ano lido melhor. Tenho de ser muito organizada e no dia anterior procuro estipular horários para o dia seguinte. Contudo, quando se gosta muito do que se faz, não custa. Claro que não é fácil acordar às 7h00, ir treinar para o frio, mas é aí que vou buscar motivação.

Além da motivação, a ambição é indispensável…
Sou muito ambiciosa e, mesmo perante as adversidades, nunca desisto. Nunca baixo os braços para lutar pelos meus objectivos. Só tenho de estar satisfeita pelo meu percurso. No Campeonato da Europa de 3.000 metros [em Julho de 2019] caí, levantei-me e lutei com todas as minhas forças pelo 1.º lugar. Trouxe o 2.º lugar, mas aquela prova demonstrou a minha garra, personalidade e atitude. Transformei-me quando caí e são estes momentos que mostram quem realmente somos.

Como é trabalhar com a Sameiro Araújo?
Tem uma experiência que mais ninguém tem em Portugal. Os resultados não são apenas o reflexo do meu trabalho, mas também da minha treinadora. Está mais do que provado que a experiência dela dá resultados. Estou muito feliz por ter contribuído para essa colecção de títulos que ela já ajudou a conquistar.

Os 1500 metros é a sua prova de eleição?
Neste momento, sim. Adoro a prova de 800 metros, mas é quase um amor não correspondido: temos de ser rápidos do princípio ao fim. A prova de 1500 metros não é rápida nem lenta, dá para gerir e é onde me sinto mais à vontade.

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In Revista Running #35

Leia a revista na íntegra AQUI

 

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