Doping

Doping! A arte de enganar no desporto

14 novembro 2019
8 min
O que é o doping? Como se administra? Quem a ele recorre? Como é que os atletas se podem proteger? Especulações – e casos mediáticos à parte – a RUNning foi procurar resposta para as questões que assolam o “lado puro” do desporto.

Texto: José Costa

Doping. O estrangeirismo entrou para o léxico português como a sua prática para o lado obscuro do desporto. Mas o que define esta palavra afinal? A resposta é simples: o doping não é mais do que o uso de drogas ou de métodos específicos que visam aumentar o desempenho de um atleta durante uma competição, de modo a beneficiá-lo relativamente aos outros atletas. Assim, as substâncias e medicamentos considerados “doping” são apresentados periodicamente numa lista publicada pela World Anti-Doping Agency (WADA), por responderem positivamente a três critérios: melhorar o desempenho competitivo, violar o espírito desportivo e representar um risco para a saúde dos atletas.

São vários os casos de que ouvimos falar, a maior parte só “descoberta” após muita especulação, acusações, testes, negações, encobrimento e mentiras. Em muitos deles foi preciso ser o atleta a vir a público confessar “a mentira”. Talvez o caso mais mediático tenha sido o de Lance Armstrong, ex-ciclista profissional norte-americano que ficou conhecido por ter vencido o Tour de França sete vezes consecutivas (algo inédito na história da prova). Mas a suspeita recai sobre vários outros atletas de hoje e do antigamente e não raras vezes sobre treinadores e médicos, como aconteceu com Alberto Salazar durante os Campeonatos do Mundo de Atletismo, em Doha, no Qatar. Este caso é ainda mais impactante pela sua relação com a marca desportiva Nike e pelo facto de ter treinado nomes como Mo Farah ou Sifan Hassan, colocando-os automaticamente “na berlinda”.

Vânia Silva, professora de Educação Física e ex-atleta de alta competição do Sporting Clube de Portugal, na disciplina de lançamento do martelo, em 2004/2005, levou a cabo uma investigação no âmbito da sua tese de doutoramento sobre o tema “Os Atletas de Elite e a Dopagem”. Para esta docente a investigação procurou “saber em que medida a dopagem é uma prática corrente entre os atletas de elite”, escrevendo que durante o o seu percurso de atleta de alta competição tem “‘visto’ atletas que aparentam estar dopados, embora com todo o seu clamor ergam a bandeira do seu país em sinal da vitória”. Sobre as razões mais apontadas para o consumo deste tipo de drogas, Vânia Silva escreve que foram “o aumento da performance e vitória, ainda que em outras tenha sido referido o dinheiro e o aumento do estatuto social”.

Mas o doping também existe fora da alta competição. O mais pacato dos cidadãos, no seu ginásio, por exemplo, pode consumir substâncias que o ajudam a definir um corpo mais atlético. Esta prática é comum, muito embora não seja fácil de chegar a quem o vende ou a quem administra estas “drogas”. Todos – profissionais ou amadores – devem estar atentos e conhecer com que “teias se tece” o doping, até porque a par da falsidade desportiva e da ilegalidade subjacente a esta prática, há riscos para a saúde, como ficou demonstrado no recente caso do actor Ângelo Rodrigues. 

É à ADoP que compete o controlo

Quando se fala em controlar os atletas de alta competição, ou simplesmente de competições nacionais onde se preveja que se poderão alcançar participações internacionais, é à Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) que se recorre. Criada pela publicação da Lei 27/2009 de 19 de Junho, a ADoP veio substituir o então Conselho Nacional Antidopagem, enquanto organização nacional anti-dopagem de Portugal, exercendo as suas competências no território nacional e, sempre que solicitada pela WADA ou por federações internacionais, pode fazê-lo no estrangeiro.

Seja por iniciativa própria ou por solicitação das respectivas federações, cabe aos técnicos deste organismo efectuar os respectivos testes e consequentes resultados. No âmbito do Programa Nacional Antidopagem (PNA), cabe à estrutura de suporte deste organismo a definição e a implementação dos Programas de Informação e Educação, a gestão do Sistema de Localização de Praticantes Desportivos e do Sistema de Autorização de Utilização Terapêutica.

No que diz respeito ao Sistema de Localização de Praticantes desportivos há ainda alguns mitos que é preciso esclarecer, nomeadamente, no caso do atletismo, quando se fala em suspensão por “falhar o controlo”. De acordo com a informação disponível no site da ADoP, este organismo, “cumprindo as directrizes da WADA, distribuiu as diferentes modalidades desportivas que integram o PNA, por quatro grupos de risco (Extremo, Alto, Médio e Baixo), sendo que o atletismo faz parte do “Extremo”, de acordo com a equação aplicada: N.º de Controlos = N.º praticantes desportivos juniores e seniores x Fator de ponderação + N.º mínimo de controlos”.

Neste contexto, os profissionais do atletismo de níveis A e B estão inseridos no chamado Grupo-Alvo, ou seja, são sujeitos a controlos anti-doping fora das competições, conforme o disposto no artigo 7.º da Lei n.º 38/2012, de 28 de Agosto e, por isso, integrados no Sistema de Localização do Praticante Desportivo. Isto obriga-os a preencher e a entregar trimestralmente à ADoP formulários com informação localizada sobre a sua localização. Quando tal não é cumprido, após três tentativas de controlo, a ADoP aplica as medidas legais, que podem passar pela suspensão do atleta em causa.

Por último, é ainda importante referir que, tal como noutras matérias legisladas, atletas, treinadores, médicos, dirigentes desportivos, associações e federações, não podem alegar desconhecimento. Mesmo assim, a ADoP tem materiais informativos disponíveis no seu website, além de promover acções de esclarecimento e formação, incluindo os direitos e deveres de todos os intervenientes no movimento desportivo.

Categorias de substâncias proibidas

Estimulantes: Reduzem a fadiga e aumentam a adrenalina

Narcóticos: Diminuem a sensação de dor

Esteróides anabólicos: Aumentam a força muscular

Diuréticos: Usados para controlar o peso e também para ‘mascarar’ o doping

Beta-bloqueantes: Diminuem a pressão arterial do atleta. São usados em competições de tiro e arco e flecha para manter estáveis as mãos do atleta.

Hormonas peptídicas e análogos: Aumentam o volume e a potência dos músculos.

Doping sanguíneo: Método proibido de transfusão em que o sangue do atleta é injectado nele mesmo para aumentar o oxigénio nos tecidos.

Do mesmo modo também há medicamentos proibidos, cuja lista pode ser consultada em jogolimpo.simposium.pt, além de todas as substâncias, medicamentos e respectivas dosagens “proibidas” estarem descritas igualmente na Lei n.º 38/2012, de 28 de Agosto. Apesar disso, é possível o uso de substâncias e métodos proibidos por um praticante desportivo por razões médicas mediante uma solicitação de Autorização de Utilização Terapêutica, cuja documentação pode ser obtida no site da Autoridade Antidopagem de Portugal.

Saiba mais sobre o caso Alberto Salazar aqui.

 

 

 

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