Nutrição

Nutrir a corrida de forma sustentável

03 fevereiro 2020
10 min
Pode a alimentação de um atleta ser sustentável sem prejudicar o seu rendimento? Especialistas e corredores dizem que sim, mas a resposta depende da vontade (e da consciência) de cada um.

Texto: Miguel Judas

É uma preocupação cada vez mais presente no nutricionismo, a de concretizar uma alimentação saudável, mas também cada vez mais sustentável, com recurso a ingredientes locais, de preferência biológicos, e com uma pegada ecológica a mais reduzida possível. Quanto a isto haverá poucas dúvidas, mas quando estas mesmas questões se colocam ao nível da nutrição desportiva, cujo objectivo final é a melhoria da performance, algumas dúvidas poderão surgir.

“A sustentabilidade é uma preocupação cada vez mais presente no nutricionismo”, refere à RUNning o nutricionista Ivo Barbedo Faria, que tenta “incutir estes conceitos” nos seus pacientes, “de forma a melhorar a sua saúde, mas também como meio de preservar o ambiente”. “É algo que tem a ver com a forma de produção e com o desperdício alimentar, por exemplo. Em manter a produção alimentar sustentável, sem esgotar os recursos, de modo a que as gerações futuras possam continuar a alimentar--se. E o desperdício, além de não ser sustentável, também não é ético”, defende Ivo Barbedo Faria.

“Na minha prática clínica diária é assim que procedo, sempre mediante as necessidades de cada um e mesmo assim apenas podemos passar sugestões, mas nunca obrigar quem quer que seja a fazer o que dizemos”, explica este nutricionista. E na prática desportiva, mais em concreto na corrida, esta realidade é ainda mais evidente, pois a vontade de ser mais rápido e mais forte sobrepõe-se muitas vezes a estas questões de ética, digamos, mais ecológica ou ambiental. Mesmo assim, como reconhece Ivo Barbedo Faria, “vai havendo cada vez mais gente com estas preocupações, mesmo ao nível da nutrição desportiva”.

Ao contrário de outras áreas da nutrição, mais direccionadas para questões como o excesso de peso ou a prevenção de doenças como a diabetes ou a hipertensão arterial, no caso do nutricionismo desportivo há que relacionar os aspectos fisiológicos com a modalidade praticada, adequando não só a alimentação como a suplementação necessária à respectiva actividade física. Ou seja, quem pratica desporto de forma regular tem necessidades diferentes de alguém que apenas procura emagrecer, por exemplo, devido ao gasto energético ser muito superior, tal como a necessidade de hidratação. “É necessário um plano personalizado, o que implica sempre um frente a frente entre o paciente e o nutricionista. Não é algo que se possa simplesmente perguntar ao doutor Google”, ironiza Ivo Barbedo Faria.

Uma questão de consciência

“Já é algo muito comum na alta competição, mas também começa a ser normal entre cada vez mais atletas amadores que querem aumentar o rendimento desportivo de uma forma saudável”, acrescenta o nutricionista. E onde é que se pode colocar então, aqui, a questão da sustentabilidade? “Isso depende da consciência de cada um. Se o atleta em questão, por exemplo, for vegetariano ou vegano haverá uma maior sensibilidade para estas questões, mas a verdade é que todos os alimentos ou suplementos utilizados na prática desportiva podem ser feitos em casa, sejam barras energéticas, bebidas isotónicas ou batidos de recuperação”, assinala. “Além de sair muito mais barato, também não há o desperdício de plástico e de papel decorrente das embalagens. Dá é um bocadinho mais de trabalho”, lembra Ivo Barbedo Faria com humor.

Bons exemplos

Ou talvez não, como garante à RUNning a ultramaratonista Tuxa Negri, atleta vegana que tem o hábito de confeccionar em casa as suas próprias barras energéticas. “Isso é um mito, na Bimby, então, é super-rápido e não dá trabalho nenhum. Sai muito mais barato e ainda poupo o ambiente ao lixo provocado pelo excesso de embalagens”, refere. Para confeccionar as barras, que costuma usar nos treinos, Tuxa Negri usa “só ingredientes naturais”, como tâmaras, alperces ou amendoins. “Gosto de saber o que estou a comer. Não confio nada nas barras processadas, nas quais a maioria dos ingredientes é só ‘porcaria’”. Aconselha, por isso, a que se leia sempre “muito muito bem” a composição. “Se houver alguma coisa que me faça desconfiar não compro”, assegura. E quando tem de comprar abastece-se sempre no Vegangoo, uma loja online de suplementação desportiva natural. “Só compro gomas e Talwind, uma bebida que substitui a alimentação em provas longas. E encomendo sempre embalagens grandes para poupar no papel e nos plásticos. Nem nos treinos uso garrafas de plástico, quando vou treinar para a pista ou na piscina levo a minha própria garrafa de metal”, confirma.

Nas prateleiras virtuais da Vegangoo estão em destaque as barras olimpo, uma criação do também atleta Sérgio Duarte, que num daqueles casos em que a necessidade aguça o engenho, transformou um problema comum a muitos outros corredores numa oportunidade de negócio. “Sempre senti uma enorme dificuldade em consumir os produtos processados existentes no mercado, especialmente em provas com distâncias acima dos 40 quilómetros”, recorda o criador da marca, que então se lembrou de usar as granolas naturais que a mulher já fazia para confeccionar as suas barras. “São muito diferentes do que por aí anda no mercado e surgiram exactamente por isso, como uma necessidade. Basicamente precisava de sentir que comia durante as provas”, narra.

Foi assim que surgiu um dos seus maiores sucessos de vendas, a barra Origem, à qual juntou sal. “O contraste entre o salgado e o doce do mel torna-a muito agradável. Nunca mais tive problemas a alimentar-me durante as provas”, garante. A partir daí foi adicionando alguns componentes que achou fazerem sentido, como tâmaras e figos, alfarroba ou nozes, tudo orgânico. Depois de ter dado as barras a provar a alguns amigos, “que também gostaram”, decidiu comercializá-las, contando para isso “com o apoio técnico de profissionais da saúde e da nutrição”.

 

5 ideias para uma nutrição mais sustentável no desporto

1 Faça você mesmo: Todos os alimentos ou suplementos utilizados na prática desportiva podem ser feitos em casa, sejam barras energéticas, bebidas isotónicas ou batidos de recuperação. Além de sair muito mais barato, não há o desperdício do papel e do plástico das embalagens.

2 Se tiver de comprar faça escolhas sustentáveis e éticas: Confirme se a composição é realmente sustentável e se está a adquirir um produto proveniente de comércio justo (“Fair Trade”) e opte por embalagens grandes, para poupar no papel e nos plásticos.

3 Nos treinos e em prova, opte por levar recipiente próprio: Reduza a utilização de garrafas e de copos de plástico, procurando uma opção sustentável, como garrafas de metal, como recipiente de líquidos para os treinos; e leve sempre o seu copo/garrafa para as provas, como aconselha a maioria das organizações.

4 Procure participar em provas com um compromisso ambiental certificado, como o “Sê-lo Verde” ou “Evento Verde”

5 Procure um nutricionista para saber como pode garantir o aporte energético e proteico necessários reduzindo a pegada ambiental. Diminuir o consumo proteico animal é uma opção sustentável, mas deve ser orientada por um profissional, para garantir que continua a consumir as quantidades de proteína de que necessita.

 

Especialistas debatem nutrição sustentável

A preocupação dos especialistas com as questões da nutrição sustentável é de tal ordem que o XIX Congresso de Nutrição e Alimentação & II Congresso de Nutrição e Alimentação da Associação Portuguesa de Nutrição, a realizar a 14 e 15 de Maio no Centro de Congressos de Lisboa, terá este ano como tema central precisamente a sustentabilidade alimentar. “Nutrition 20 > 30 Act for Tomorrow” é assim o tema de um programa que pode consultar aqui.

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