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Movimento slow: abrandar na vida para correr melhor

20 março 2020
7 min
“Gostava de fazer desporto, mas não tenho tempo.” “Marcamos o café para outro dia porque hoje tenho a agenda preenchida.” Estes são apenas dois exemplos de frases que praticamente todos nós já dissemos em algum momento. Aproveite a fase actual para reflectir e mudar a sua vida.

Antes que os nossos leitores, que são certamente pessoas activas, passem já para o artigo seguinte, deixem-me que vos diga que ser slow não é sinónimo de ser lento ou preguiçoso. “Viver num ritmo slow é procurar viver num ritmo equilibrado, que seja bom para o corpo e para a mente (saúde), para os relacionamentos, para as sociedades e comunidades (desenvolvimento pessoal, social e local), e para o planeta (ambiente e sustentabilidade). É um modelo de equilíbrio para viver melhor, sabendo quando é necessário abrandar ou acelerar, não deixando que o abrandamento se torne estagnação, nem que a aceleração se torne maníaca”. Esta é a definição dada no livro “Slow, as coisas boas levam tempo”, da autoria de Raquel Tavares, presidente da Associação Slow Movement Portugal (SMP).

Sendo um movimento transversal, que teve origem na área da nutrição, mas que hoje se alargou a áreas como a saúde, a educação, etc., impõe-se uma pergunta: o desporto também pode ser slow? Para Raquel Tavares, a resposta é simples: “A corrida pode, na verdade, ser uma actividade bastante mindfulness, relaxante, destressante e vitalizante, e, como tal, pode ser uma actividade slow”. Para que possa ser assim considerado, “o desporto deve ser uma fonte de diversão, de saúde, de bem-estar e de convívio”, havendo, no entanto, regras a seguir, tal comjo o “respeito pelo corpo, evitando o esforço demasiado violento e a competição excessiva”.

Esquecendo, por momentos, a prática da modalidade na vertente competitiva, Raquel Tavares reforça que “correr pode ser uma forma de meditação que liberta a mente e rujuvenesce. Uma boa atitude também é complementar ao tipo de exercício que se pratica para que haja um equilíbrio entre o corpo e a mente, entre a força e a flexibilidade, entre a rapidez e a resistência”. A presidente da Associação SMP deixa ainda alguns exemplos de como tornar a vida quotidiana uma fonte de movimento: se possível, ir a pé ou de bicicleta para o trabalho; subir as escadas ao invés de utilizar o elevador ou brincar com o cão no parque.

Abrandar é a palavra de ordem deste movimento e, para isso, é também importante estabelecer limites “ao número de pressões, de tarefas, de solicitações, de objectivos e de demandas”, explica Raquel Tavares. E como é que se pode fazer isso? Através de coisas simples como “deixar de responder a e-mails a partir de determinada hora; manter um ritual pessoal de privacidade e descontração, música, leitura, sonhar acordado, reflexão ou ver um filme, tudo isto sem interrupções durante um período diário; reduzir o número de ‘to do’ na agenda semanal; baixar as expectativas de conquista de objectivos para limites mais razoáveis”.

Apreciar o que nos rodeia é também uma forma de manter um ritmo equilibrado, daí que a presidente da Associação SMP refira também que devemos  abrandar o passo quando andamos a pé, de forma a apercebermo-nos “da profundidade dos rostos com que nos cruzamos, dos sons que povoam as ruas, dos elementos da natureza que por ali circulam. O mesmo se pode aplicar a uma refeição diária ao torná-la mais lenta, tornar o acto de alimentar-se consciente e, em simultâneo, verdadeiramente partilhado com os outros, fomentando com isso os laços e o conhecimento mútuo de quem se senta à mesa em conjunto”.

Em suma, as pessoas que se identificam com o Movimento Slow “não são hippies nostálgicos perdidos em comunidades fechadas e também não é necessário ser um eremita, refugiar-se numa montanha ou não utilizar electricidade e tecnologias”, reforça Raquel Tavares. Mesmo sabendo que as 24 horas do dia podem não parecer suficientes para fazer tudo o que tem programado, é importante começar gradualmente a abrandar e descobrir como relaxar, podendo isso ajudá-lo a ser melhor em tudo o que faz. Se o conseguir fazer através da prática desportiva, nomeadamente através da corrida, tanto melhor!

VALORES DO MOVIMENTO SLOW

Valorização de um desenvolvimento durável e sustentável ao invés de um crescimento de desgaste rápido;

Respeito pelas diferentes biodiversidades e diversidades ambientais, locais, culturais e individuais;

Proximidade e humanização, cuidado e atenção, personalização e flexibilidade por oposição à produção em série, à impessoalidade e à desumanização;

Qualidade ao invés de quantidade, em vez de mais, melhor;

Respeito pelos ritmos naturais, pessoais e sociais;

Concilicação e integração das diferentes áreas de vida (educação, saúde, relacionamentos, família, trabalho, lazer) numa perspectiva multidimensional e holística;

Equilíbrio e moderação entre os extremos e os excessos de forma a minimizar as assimetrias e os fundamentalismos.

 

SABIA QUE…

…o Movimento Slow teve a sua origem na área da nutrição com o Movimento Slow Food nos anos de 1980, em Itália? O conceito contrariava os valores e a cultura associadas à fast food massificada. Com o passar dos anos essa tendência espalhou-se pelo mundo e alargou-se a outras áreas de vida. Foi com o objectivo de divulgar e promover uma vida mais slow que um grupo de amigos, maioritariamente de Arruda dos Vinhos, criou, em 2009, a Associação Slow Movement Portugal. Raquel Tavares, presidente da Associação, explica que entre as várias actividades levadas a cabo está a “presença em eventos para a divulgação do movimento, iniciativas no âmbito do “Slow Travel”, “Cozinha Slow” ou “Slow School”. Para “cozinhar” toda a informação num único lugar surgiu a convite da editora Oficina do Livro, um livro para ler devagar: “Slow, as coisas boas levam tempo”, dedicado ao tema e no qual viajamos pelos diferentes “slows”, partilhando também dicas práticas e sugestões de lifestyle.

In RUNning n.º29

Carla Laureano
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