Estrada
“Doping tecnológico” chega ao atletismo
29 outubro 2019
6 min
A Nike volta a estar envolvida em polémica, desta vez através dos Vaporfly 4% Flyknit, Vaporfly Next% e dos mediáticos Nike Zoom Vaporfly Elite for Breaking2, sob investigação da IAAF que, a conseguir provar existir “doping tecnológico”, podem ser banidos do atletismo mundial.

Texto: José Costa

Fotos: DR

A procura da perfeição não pára. Seja em termos pessoais efectivos, seja no colectivo ou mesmo no empresarial, a verdade é que a busca pelo que é perfeito continua sem sessar a um ritmo verdadeiramente alucinante. Suplementos alimentares, equipamentos desportivos, condições climatéricas ideais e um sem número de outras situações que aqui seria exaustivo estar a referir, tudo vale para se alcançarem os objectivos pretendidos. Fazendo a ligação a esta analogia eis que chegamos às novas sapatilhas da Nike, o novo modelo Nike Zoom Vaporfly Elite for Breaking2, usadas pelo atleta Eliud Kipchoge.

Eliud, que correu a maratona abaixo das duas horas, fê-lo com um modelo de sapatilhas que, segundo a marca, foram desenhados e concebidos propositadamente para baixar o recorde da prova em 178 segundos. Se as sapatilhas tiveram influência na marca registada (mas não oficial), não sabemos. O que sabemos é que o atleta queniano conseguiu percorrer os 42,195 quilómetros abaixo das duas horas. Tal como ficamos também a saber, que a International Association of Athletics Federations (IAAF) abriu uma investigação precisamente ao calçado usado pelo atleta, podendo vir a classificá-lo como “doping tecnológico”, expressão que passa agora a figurar nas notícias publicadas sobre atletismo.

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Iamagem: Nike ZoomX Vaporfly NEXT%

Desta forma, a Nike parece não se libertar das polémicas. Recentemente a companhia norte-americana viu o seu CEO, Mark Parker, deixar o cargo, passando a “executive chairman”, após o seu envolvimento no escândalo que afastou, pelo menos provisoriamente, do atletismo o treinador Alberto Salazar, por doping. Agora a multinacional volta a enfrentar outra desconfiança referente aos seus dois principais modelos de sapatilhas para correr, o Vaporfly 4% Flyknit e o Zoom X Vaporfly Next%. Ambos estão sob a alçada da investigação da IAAF com a “acusação” de eventual "doping tecnológico".

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Imagem: Vaporfly 4% Flyknit

 

O limiar da “vantagem injusta”

Entretanto, seja pelo design ou pelos materiais que a Nike colocou na elaboração deste calçado que está sob investigação, a verdade é que já são vários os atletas internacionais, patrocinados pela empresa do Oregon (EUA), que desde 2016, altura em que os modelos chegaram ao mercado, têm vindo a destacar-se em prova chegando mesmo a bater recordes. Em 13 meses, foram cinco os recordes da Maratona quebrados por atletas calçados pela Nike.

A polémica voltou a registar níveis maiores de ruído quando Eliud Kipchoge, usando os novos Nike, um modelo turbinado do Vaporfly, que tinha ainda mais elementos tecnológicos na entressola, reacendeu a discussão do “doping tecnológico”.

A supremacia entretanto registada pelos atletas da Nike, chamou à atenção dos demais concorrentes que pediram mesmo à IAAF, que encetasse uma investigação, a fim de se apurar se a tecnologia e os materiais usados na concepção do calçado, melhora ou não a prestação dos atletas. Ao "The Times" a IAAF confirmou que criou um grupo de trabalho para analisar o caso, até porque pelo regulamento deste organismo, o calçado usado pelos atletas não pode proporcionar "vantagem injusta". A entidade, porém, não especifica como isso poderá acontecer.

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Imagem: Zoom Vaporfly Elite for Breaking2

Vários especialistas da área do desporto levaram a cabo um estudo publicado no jornal britânico de Sports Medicin, propondo um limite do tamanho da entressola para os modelos polémicos da Nike. O Vaporfly, tem 36 mm e a sugestão do estudo é que deve baixar para os 31 mm, eliminando desta forma a vantagem competitiva das sapatilhas.

 

Concorrência segue a tendência

Mas quem também está na corrida e com o mesmo objectivo é a Adidas, que quer chegar ao recorde inferior das duas horas na maratona. Para tal, vai lançar no mercado, muito em breve, um novo modelo de sapatilhas com uma sola de espuma especial, que devolve ao atleta a maior parte da energia que este deixa na pista, segundo noticiou o jornal espanhol El País. Porém, comparativamente com a concorrência, as sapatilhas da Adidas (Adizero sub2) proporcionam apenas 1% de poupança energética ao utilizador.

Voltando aos modelos da Nike, este caso é de todo semelhante ao que o fabricante de equipamentos de natação, a Arena, viveu em 2008. A empresa fundada pelo visionário do desporto Horst Dassier, filho do empreendedor da Adidas, lançou um modelo revolucionário que reduzia o atrito do atleta à água e, assim, baixava substancialmente os tempos. A quebra de sucessivos recordes levou a Federação Internacional de Natação a banir o modelo das piscinas de competição.

Em suma, no que às sapatilhas da polémica diz respeito, a bola está agora do lado da IAAF, que terá de decidir se os modelos da Nike proporcionam ou não vantagem a quem os calça e a confirmar-se tal tese, se os irão banir das disciplinas do atletismo.

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