Estrada
Supremacia norte-americana nos Mundiais de Atletismo de Doha
09 outubro 2019
12 min
Da prestação portuguesa aos recordes do mundo, dos campeonatos e de super-mulheres, os Campeonatos do Mundo de Atletismo, que decorreram em Doha, no Qatar, de 27 de Setembro a 6 de Outubro, foram feitos de emoções.

Fotos: Getty Images

Terminaram ontem os Campeonatos do Mundo de Atletismo, que se realizaram entre 27 de Setembro e 6 de Outubro, em Doha, no Qatar. No último dia do certame, os Estado Unidos da América conquistaram mais três medalhas - por Nia Ali, nos 100 metros barreiras e pelas estafetas mistas masculina e feminina, nos 4x400 metros - afirmando-se como a super-potência do atletismo mundial, num total de 29 medalhas alcançadas, das quais 14 de ouro, 11 de prata e 4 de bronze. Em segundo lugar ficaram a Jamaica, com 12 medalhas (3 de ouro, 5 de prata e 4 de bronze), e o Quénia, com 11 (5 de ouro, 2 de prata e 4 de bronze). Portugal, com a prata de João Vieira, nos 50 km marcha, classificou-se no 27.º lugar.

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Foto: FPA

Esta foi a única medalha alcançada pelo nosso país, que levou ao Qatar uma selecção de 15 atletas. Pedro Pichardo, com o quarto lugar no triplo salto, protagonizou o nosso segundo melhor resultado; e Patrícia Mamona, na mesma disciplina, alcançou o terceiro melhor resultado nacional, com o 8.º lugar. Ana Cabecinha alcançou a 9.ª posição nos 20 km marcha, Mara Ribeiro, a 15.ª posição, nos 50 km marcha, e Salomé Rocha terminou a maratona em 28.º lugar. Os restantes atletas não alcançaram as respectivas finais, podendo a tabela de resultados ser consultada aqui. Olhando para a prestação portuguesa, o seleccionador nacional, José Santos, disse: "Sem qualquer tipo de comparações, apenas pelo que nos foi dado observar, o balanço é positivo. Houve países que chegaram aqui com expectativas altas e nem uma medalha conseguiram e outros apenas conseguiram uma medalha."

Um mundial de emoções sofridas

Como qualquer competição que junte os melhores do mundo, estes campeonatos foram de emoções, com confirmações de vitórias já esperadas, mas com surpresas, e com dificuldades acrescidas pelas temperaturas elevadas em Doha acompanhadas por níveis de humidade superiores a 70%, que, particularmente nas provas longas, como a maratona e a marcha, fizeram os atletas passar pelo "inferno". Mas vejamos os destaques.

Ontem, além das medalhas norte-americanas, um dos momentos da noite foi protagonizado pelo queniano Timothy Cheruyot, que nos 1500 metros fez um "contrarrelógio" espantoso, cortando a meta na primeira posição. com o tempo de 3m29s26'. Em segundo lugar classificou-se o argelino Taoufik Makhloufi, com o tempo de 3m31s38'. O bronze foi discutido em jeito de final europeia, com o polaco Marcin Lewandowski a levar a melhor, com recorde nacional (3m31s46'), sobre o norueguês Jacob Ingerbritsen.

Do lado feminino registou-se a vitória mais "folgada" de sempre no salto em comprimento, com Malaika Mihambo, da Alemanha, a alcançar 7,30 metros, quando a segunda classificada, a ucraniana Maryna Bekh-Romanchuk, ficou nos 6,92 metros, com mais um centímetro do que a nigeriana Ese Brume. Já nos 100 metros barreiras, a norte-americana Nia Ali venceu, em 12s34', a nona melhor marca de sempre, as duas grandes favoritas em competição: a sua compatriota Kendra Herrison, recordista mundial (12s46'), que superou, por um centésimo de segundo, a jamaicana Danielle Williams, líder mundial do ano.

De sublinhar ainda a vitória nos 10 000 metros masculinos, do ugandês Joshua Cheptegei (26m48s36'), que discutiu o ouro numa última volta taco a taco com o etíope Yomif Kejelcha (26m49s34'). O queniano Rhone Kipruto alcançou o terceiro lugar, com o tempo de 26m50s32'. No lançamento do dardo, também Anderson Peters (86,89 metros), atleta de Grenada, nas Caraíbas, soube impor-se aos favoritos Magnus Kirt, da Estónia (86,21 metros) e Johannes Vetter, da Alemanha (85,37), que alcançaram o segundo e terceiro lugares, respectivamente.

Mulheres que dão que falar

Para contar a história destes campeonatos do mundo é preciso falar de mulheres que mudaram para sempre a forma como olhamos para o seu posicionamento no desporto. Comecemos pela já incontornável norte-americana Allyson Felix, que aos 33 anos, mostrou ao mundo o que é ser mãe e atleta, batendo o recorde de medalhas conquistadas em campeonatos mundiais, que pertencia desde 2013 a Usain Bolt, apenas 10 meses após a maternidade. Felix conquistou a 1 de Outubro a sua 12.ª medalha em campeonatos mundiais, correndo a estafeta de 4x400 metros com a equipa dos Estado Unidos da América.

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Foto: Athleta

 

Mas Allyson Felix conquistou muito mais. Para si e para outras mulheres, destacando-se na luta pelas que querem ser mães e atletas. Depois de planear ser mãe e engravidar, Felix denunciou o facto de a Nike, que então a patrocinava, ter proposto reduzir o seu vencimento em 70% devido à maternidade. "Apesar de todas as minhas vitórias, a Nike queria pagar-me menos 70% do que antes. Se for isso que eles pensam que eu valho agora, eu aceito. O que eu não posso aceitar é este persistente status quo da maternidade. Pedi à Nike para garantir, contratualmente, que não seria penalizada se os meus resultados não fossem os melhores nos primeiros meses após o parto. Queria estabelecer um novo padrão. Se eu, uma das atletas da Nike mais conhecidas, não conseguisse assegurar estas proteções, quem conseguiria?", declarou, na altura, a atleta.

A luta valeu a pena. Em Maio a Nike anunciou que não aplicaria reduções de pagamento às atletas grávidas por um período de 12 meses. Depois, em Setembro, a empresa alargou esse período para 18 meses - oito meses antes da data prevista do parto. Apesar disso, Allyson Felix entedeu que o seu caminho seria continuado com outra marca, tendo assinado contrato com a Athleta. De sublinhar que, no mesmo dia em que Allyson Felix bateu o recorde de Bolt, outra atleta e mãe, a jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce, ganhou a medalha de ouro dos 100 metros, sagrando-se tetracampeã da disciplina, e festejou com o seu filho de dois anos.

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Foto: Shelly-Ann Fraser-Pryce/IAAF

A segunda classificada nos 100 metros também é um nome a recordar na história do atletismo. A britânica Dina Asher-Smith, juntou à prata alcançada nos 100 metros, o ouro nos 200 metros, no dia seguinte, estabelecendo o recorde nacional em 21s88', que junta ao do hectómetro. Pelo seu percurso - recorde-se que nos Europeus de Berlim, fez a "tripla" da velocidade (100, 200 e 4x100) - Asher-Smith é já apontada como uma das atletas que poderá fazer frente à supremacia jamaicana e norte-americana na velocidade.

Quem também tem dado que falar é Sifan Hassan. A holandesa de origem etíope alcançou no último Sábado a proeza de juntar o título mundial dos 1500 metros ao dos 10 000 metros na mesma edição dos campeonatos. O feito nunca tinha sido alcançado por um atleta. Hassan assumiu a liderança logo na primeira volta da prova e, nos últimos 400 metros, "descolou-se" das restantes atletas conquistando o ouro em 3m51s95', recorde dos campeonatos do mundo, deixando a queniana Faith Kipyegon, a defender o título mundial, a dois segundos (3m54,22s) que, mesmo assim, superou a melhor marca nacional do Quénia.

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Foto: LUSA/JEAN-CHRISTOPHE BOTT

 

 

 

 

 

 

 

 

O "fantasma do doping"

De sublinhar que a conquista da holandesa aconteceu numa altura especialmente atribulada, já que Sifan Hassan é uma das atletas do Nike Oregon Project, que é liderado pelo treinador Alberto Salazar, ex-fundista norte-americano de origem cubana, de 61 anos, que também treinou Mo Farah até 2017, e que durante os campeonatos, a 1 de Outubro, foi suspenso, pela Agência Norte-Americana de Anti-Dopagem (USADA, na sigla em inglês), por quatro anos (juntamente com o médico Jeffrey Brown), por incitação de atletas à utilização de substâncias dopantes. Alberto Salazar foi mesmo impedido de entrar no estádio nestes campeonatos, visto que, a pedido da federação norte-americana, a International Association of Athletics Federations retirou-lhe a acreditação.

Em comunicado, a USADA esclareceu que Alberto Salazar foi suspenso "por organizar e instigar uma conduta de doping". As acusações formais vão desde o tráfico de testosterona à injecção em atletas do aminoácido L-Carnitina em dose acima do permitido.

Vitórias e recordes

Voltando aos resultados desportivos, é preciso sublinhar que o norte-americano Christian Coleman é o novo homem mais rápido do mundo. Logo no segundo dia destes campeonatos - 28 de Setembro - Coleman, vice-campeão há dois anos, em Londres, dominou a final dos 100 metros, terminando com um novo recorde pessoal de 9s76', à frente do seu compatriota Justin Gatlin, campeão em 2005 e 2017, que, aos 37 anos, ficou com a prata em 9s89'. O canadiano Andre de Grasse fechou o pódio, com a marca de 9s90', recorde pessoal.

Jean-Christophe Bott - EPA
Foto: Jean-Christophe Bott - EPA

No campo dos recordes do mundo, o primeiro foi alcançado pela estafeta mista 4×400 metros norte-americana composta por Tyrell Richard, Jessica Beard, Jasmine Blocker e Obi Igbokwe, que concluiu a prova de qualificação para a final dos 4x400 metros em 3m12s42′, nesta que foi a estreia desta disciplina neste tipo de competição. Seria preciso esperar até ao penúltimo dia do certame para que a norte-americana de 29 anos, Dalilah Muhammad, nos 400 metros barreiras, e campeã olímpica, batesse o recorde do mundo na disciplina, que já lhe pertencia desde que, nos Campeonatos dos EUA, em Des Moines, este ano, fez a marca de 52s20′, quebrando a melhor marca mundial que vigorava na altura e havia sido estabelecida em 2003, pela russa Yulia Pechonkina. Muhammada fixou agora a melhor marca mundial em 52s16′.

Já quanto a recordes dos campeonatos, a 1 de Outubro, nos 3000 metros obstáculos, a recordista mundial Beatrice Chepkoech, do Quénia, confirmou o favoritismo e venceu em 8m57s84′, estabelecendo um novo recorde da disciplina nesta competição. Em segundo lugar ficou a norte-americana Emma Cobourn (9m02s35′), com recorde pessoal. A fechar o pódio,  Gesa Krause bateu o recorde nacional da Alemanha, em 9m03s30′.

Donavan Brazier tornou-se, no dia seguinte, no primeiro norte-americano – entre homens e mulheres – a vencer o ouro nos 800 metros num campeonato do mundo de atletismo. Com a marca alcançada de 1m42s34′, Brazier bateu o recorde dos campeonatos na distância, com a maior margem de vitória sobre o segundo classificado de que há memória na história do certame, afirmou-se como vice-líder do ranking mundial nesta temporada e entrou para o top 10 (em 10.º lugar) dos melhores de sempre nos 800 metros. Amel Tuka, da Bósnia e Herzegovina, “subiu” da medalha de bronze que conquistou nos Campeonatos do Mundo de 2015 para a de prata, com a marca de 1m43s47′, à frente de Ferguson Rotich, do Quénia, que alcançou o bronze em 1m43s82′.

 

Os resultados completos podem ser consultados aqui.

 

 

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