17 outubro 2019
Uma aventura no Atlas

Por Nino Raleiras (texto e fotos) com Paulo Pires (fotos) e Pedro Almeida (fotos)

Quando aceitei correr uma maratona (mais uns “pozinhos”, conforme nos foi transmitido no briefing) em alta montanha, com mais de um pico acima dos 3 000 metros de altitude, com subidas que, em algumas zonas, tinham uma inclinação superior a 30%, e com 2600 metros de desnível positivo, no Atlas em Marrocos, não devia estar bom da cabeça! Este pensamento acompanhou-me durante algum tempo, mas a excitação do desafio e o prazer da experiência sobrepuseram-se e, quando aterrei em Marraquexe, no dia 3 de Outubro, a dois dias da prova, estava ansioso por equipar-me e “desatar” a correr.

 

Durante as duas horas do trajecto, feito de autocarro, até Oukaïmeden, a paisagem foi mudando de urbana para profundamente rural e depois até desértica, da cidade plana e cativante para a rudeza das montanhas. E que belas elas são, gigantes em todo o seu esplendor.

Atlas_1

 

Conhecidos os restantes atletas portugueses que iriam enfrentar as pedras soltas do percurso e o calor que se fazia sentir, a subida, que por eles havia sido feita ao pico mais alto da cordilheira do Atlas e do norte de África, o Jbel Toubkal, a 4167 metros de altitude, comandou todas as conversas. Confesso que fiquei com uma inveja daquelas e certamente um dia irei subir esse “monstro”.

Atlas_3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Preparei esta prova de uma forma muito diferente da habitual, ou, melhor, tentei preparar-me minimamente para a sua dureza, já que, por norma, limito-me a ir buscar, entre o material obrigatório, aquele que me apetece, sem qualquer outro critério. Mas bastou subir um monte acima dos 3000 metros para perceber que, no dia seguinte, teria de dedicar bastante tempo a verificar tudo o que tinha trazido.

Entre as deliciosas tajines de ovo do Aziz, anteriormente apelidado pelos portugueses de Griezmann e agora de João Félix, e um copo de vinho alentejano (um tuga que se preze transporta o seu néctar mesmo para os sítios mais improváveis), a estratégia foi sendo repensada e a experiência do Paulo Pires e do José Santos naqueles trilhos (o Paulo, por ali se ter deslocado tantas vezes, foi convidado a ser o rosto da prova no nosso país) foi a melhor das ajudas.

Encontrando-me num quarto com seis atletas, sendo três portugueses e três franceses, com quatro a participarem na prova mais longa, os horários andavam um pouco trocados e, quando me levantei às 4h30m da madrugada, o corpo pedia uma nova noite de sono.

Ingeridos os doces caseiros e o pão do pequeno-almoço, verificado o colete, vestida a roupa obrigatória (demasiada para as condições meteorológicas previstas, mas fundamentais para aguentar uma noite na montanha caso algo de grave acontecesse aos atletas), os momentos que antecederam a partida foram de grande animação, com várias coreografias patrocinadas pelo speaker e que nos fizeram esquecer o frio que ainda se fazia sentir.

“Subida ligeira, nascer do dia magnífico, descida acentuada, subida acentuada, descida técnica, subida para lá de lixada. Calor, muito calor.” Foi assim que descrevi a prova depois de cortar a meta, 9 horas após a partida. Se correr tanto tempo em cima de pedra foi complicado, a maior dificuldade foi, sem dúvida, a altitude a que me encontrava. De sólidos, além de meia dúzia de nozes num dos abastecimentos, só consegui ingerir, e a custo, uma barra energética. O corpo só pedia água e bebi cerca de 10 litros!

 

Já a hidratação posterior foi bem mais agradável.

Atlas_4

 

Do ponto de vista competitivo, a prova principal foi cumprida em 22h43m pelo incrível Omar Bouhrim, um pastor de Marocain, que mora a cerca de 80 km de Oukaïmeden e que correu desde a sua casa até à partida por não ter outro meio de transporte, regressando da mesma forma.

Atlas_5
Foto: DR

 

 

 

Foi seguido pelos franceses Sylvain Dalmasso e François Pelletier, que terminaram juntos com o tempo de 23h11m.

A chegada dos primeiros portugueses, Paulo Pires e José Santos, ao fim de 32 horas, foi emocionante, com “A Portuguesa” a ser ouvida nos últimos metros percorridos.

A primeira mulher a percorrer os 105 km, com um desnível positivo de mais de 8000 metros, foi a gaulesa Laure de Cabissole, em 35h02m, conseguindo Anabela Cura um brilhante 4.º lugar, a cerca de hora e meia da vencedora.

A prova da maratona, corrida em menos de 5 horas pelos três primeiros (obviamente desconhecem a sorte que tiveram por ter decido apreciar a paisagem em vez de competir!), foi ganha ex-aequo pelo local, residente em França, Abderahim Kemissa e por Isamail Ait Omar.

Ao contrário das mulheres, em que as primeiras competiram no Challenge de L´Atlas (no dia seguinte correram a etapa de 26 km), os atletas masculinos mais rápidos concentraram-se exclusivamente nos 42 km.

Maryline Nakache, dando sequência aos fantásticos resultados obtidos em 2019 (5.ª nos 98km do Ultra Trail du Mont-Blanc e 3.ª na Marathon Du Mont-Blanc, por exemplo), bateu o recorde do percurso por 12 minutos, terminando em 5h39m e, não satisfeita, ficou em quarto lugar da geral na prova combinada, baixando o melhor tempo das edições anteriores em 18 minutos.

O primeiro classificado do Challenge de L´Atlas foi Omar Id Bejaou, que demorou 8h29m a percorrer os 42 km + 26 km com 4000 metros de desnível positivo.

Para a entrega de prémios estava reservada uma surpresa, com o “nosso” Luís Martins a ser homenageado pela sua ajuda a um atleta em dificuldades, tendo demonstrado todo o espírito do trail running.

Atlas_6

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi só em Portugal que a palavra “segurança” marcou presença, quando tive de responder a perguntas sobre a mesma. Em momento algum senti receio de percorrer qualquer um dos locais por onde fui passando. Aliás, a prova estava tão bem marcada que cometi a proeza de não me perder!

 

Passados alguns dias sobre a aventura, recordo-me do magnífico nascer de dia, da imponência das montanhas, mas também da humildade e do desejo de ser útil da parte de quem vive numa realidade tão distante da nossa. Guardo as inúmeras conversas, as tropelias do Melo e a amizade que nasceu entre os portugueses. As histórias foram muitas, mas essas ficam para a próxima edição da RUNning.

 

O fantástico vídeo partilhado pela organização do UTAT - Ultra Trail Atlas Toubkal 2019 ilustra a dimensão do que vivi, como podem comprovar aqui.

Não se esqueçam de marcar nas vossas agendas o primeiro fim-de-semana de Outubro para vir viver as emoções desta tão singular experiência.

 

Curiosidades:

 

Um router bem protegido

Atlas_7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um frigorífico em plena montanha

Atlas_8

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Informações úteis:

 

Fala-se francês, a moeda é o Dirham Marroquí , valendo 1 euro, cerca de 10 Dirham (o câmbio é feito assim nas lojas e em quase todas elas se aceitam euros).

 

Aconselho vivamente a quem queira fazer a prova a contactar o Paulo Pires através do blogue https://corremais.paulopires.net/p/utat.html ou a consultar a página do Facebook Ultra Trail Atlas Toubkal Portugal, a fim de esclarecer dúvidas e recolher opiniões.

Agenda
Agenda
Must haveNovos produtos
Subscrever newsletter RUNning
Inscreva-se para receber novidades acerca dos nossos artigos e notícias, diretamente no e-mail
Parceiros