04 dezembro 2018
O Algarviana Ultra Trail em modo RUNning

A RUNning voltou aos trilhos da maior prova de trail do país – o Algarviana Ultra Trail (ALUT) – novamente em equipa, mas com dois elementos estreantes. Miguel Judas, Nino Raleiras, João Meira e Bruno Matias foram os bravos da nossa quadra, que terminaram os 300 km que ligam Alcoutim ao Cabo de São Vicente pela Via Algarviana, num brilhante quarto lugar. Mas mais importante do que a classificação foi a experiência e as emoções vividas. Parabéns equipa!

Miguel Judas

Participar numa prova com as características do ALUT, tão longa, é sempre uma incógnita, mesmo que seja pela segunda vez. Desta vez coube-me dar o arranque, percorrendo a um bom ritmo a primeira etapa, entre Alcoutim e as Furnazinhas, num total de quase 39 km, em que os primeiros foram percorridos ao longo do vale do Guadiana, ainda de dia e dando assim para apreciar esta paisagem única. Nesta primeira fase da corrida ainda o pelotão vai compacto, pelo que foi possível rolar em grupo, na companhia, entre outros atletas que iam tentar percorrer a distância a solo, da campeã Ester Alves – coisa que de outra forma seria impossível.

Ao contrário da edição anterior, na qual “despachei” quatro etapas, este ano só voltaria a entrar em acção no troço entre Silves e Monchique, um “dos mais duros” de todo o percurso, como todos repetiam, enquanto esperava na base de vida pela chegada do João, um dos colegas de equipa. Já passava das oito da noite quando finalmente parti, perdendo-me logo em seguida nas ruas de Silves, como me apercebi ao chegar, pelo lado contrário, ao mesmo local de onde tinha saído alguns minutos antes. Com a ajuda de um dos voluntários lá me encaminhei para a saída certa e dei início à etapa, que percorri sozinho até cerca de metade, quando, avisto uma luz a subir o estradão em sentido contrário. Reconheço de imediato o Nuno, um velho conhecido de outras correrias, membro da equipa Loulegest, que andava por aqui perdido, “para trás e para a frente”, há cerca de duas horas, devido a uma avaria no relógio e a um telemóvel sem rede. Lá seguimos os dois em direção à temível subida da Picota.

Antes, porém, na zona da Fonte Santa, era necessário atravessar por três vezes o curso de água que aqui se forma, na junção das ribeiras de Monchique e de Odelouca. Apesar de pouco profundo, a corrente estava forte e era necessária alguma cautela. Nisto falávamos, enquanto corríamos paralelos ao rio, quando vislumbrámos um carro parado um pouco mais à frente, de onde se ouviam gritos e aplausos – no meio de nada. Era um rapaz, acompanhado por um cão, que ali estava apenas para apoiar os atletas, ao frio e àquela hora da noite. Um pouco mais à frente, tinha improvisado uma pequena base de vida, com tenda, uma fogueira, água engarrafada e alguma fruta cortada. Chamava-se Henrique e o cão era o Jackson. “É da maneira que nunca mais se vão esquecer da Fonte Santa”, disse, contando-nos em seguida que tinha transportado os primeiros classificados “às cavalitas”, para não molharem os pés ao cruzarem o rio. “A vocês já não consigo, que estou cansado, mas posso mostrar-vos o melhor local para atravessarem”, afirmou. E assim o fez, despedindo-se tal como se apresentou, com gritos de incentivo e aplausos. Faltava ainda a subida à Picota, mas até essa pareceu muito mais suave, depois de conhecermos o Henrique e o Jackson. E sim, tinha razão, nunca mais nos vamos esquecer da Fonte da Santa.

Nino Raleiras

Quando há mais de cinco anos terminei a minha primeira prova de trail, tendo enfrentado chuva, temperaturas negativas, um vento gelado e íngremes subidas, o que retive, apesar das dores que me impediram de caminhar normalmente durante vários dias, foi o “espírito do trail”, o companheirismo dos participantes e dos elementos da organização, quase todos atletas, que percebiam as dificuldades que estava a enfrentar e apoiavam verdadeiramente.

Com o passar dos anos e o acumular de provas, fui sentindo algum afastamento. Cheguei a desistir numa delas com uma pequena dor no pé, porque considerava outro desafio mais importante (curiosamente a primeira edição do ALUT). Nos abastecimentos as pessoas mostravam-se diligentes e preocupadas, mas faltava aquele brilho nos olhos de quem estava verdadeiramente a viver connosco o momento. Por isso, quando me perguntaram o que mais gostei da segunda edição do ALUT, a resposta foi imediata - o regresso do “bichinho”!

A forma como recebi várias chamadas da organização enquanto me encontrava perdido junto ao posto de abastecimento das Furnazinhas, já a primeira noite de prova levava algumas horas, a preocupação em ajudar e não criticar, o carinho de todos os que simpaticamente se foram disponibilizando para que ninguém deixasse de cumprir o sonho de terminar os mais de 300 km da Via Algarviana, a camaradagem dos que iam em conjunto atravessando a serra algarvia, a vibração de todos os voluntários, a energia dos organizadores, fez-me sentir que valeu a pena!

Quero agradecer aos outros elementos da equipa RUNning, ao Judas (companheiro desde a primeira corrida), ao Meira e ao Matias, que foram incansáveis durante toda a prova, bem como ao Gabriel, à Vanessa, à Ana e ao Dinis pelo apoio.

Para finalizar, confidencio aqui o que me pediram em casa: “Trata de nós.” Haverá melhor forma de o fazer que com um gigante sorriso no rosto? Até à terceira edição! 

João Meira

O ALUT apareceu nos meus radares em 2017, após a sua primeira edição, através do relato do Nino. A partir desse momento fiquei com um desejo de a fazer em formato estafeta.

As razões eram várias: além do desafio em si de superação, o formato estafeta e, sobretudo, a zona onde a prova se desenrola: o interior do Algarvio.

A possibilidade de percorrer os trilhos da Via Algarviana começou a tomar forma quando fui um dos sorteados pela revista para correr o trail em formato estafeta de 4 pessoas com o Nino, o Judas e mais outro elemento sorteado (Bruno Matias).

A descida para o Algarve a partir de Lisboa foi feita a correr ao final de um dia de trabalho e, depois de uma primeira etapa feita pelo Judas em modo “flash” bem acima de qualquer previsão, começamos a receber telefonemas do Nino para que nos despachássemos pois iria ficar sozinho nos trilhos e o GPS que nós levavamos fruto de um mal entendido era imprescindível.

Toca então a improvisar, telefonema para aqui, Nino deve estar acolá, e apontamos a direção para o tentar interceptar a meio da etapa. O local? “Monte das Preguiças! Ok, bora lá!” – GPS entregue, explicação rápida, missão concluída.

Como só iria entrar em prova durante a manhã de sábado estava livre (achava eu!) para descansar umas horas. “Mas descansar onde?” Ainda não sabia, a tenda estava no carro! Chegado a Cachopo com o Bruno Matias que iria partir logo após a chegada do Nino vejo que existem camas com boas condições para umas horas de descanso. Um jantar rápido depois já bastante tardio e toca a enfiar na cama até chegar o Nino.

Sono profundo até que é interrompido por um telefonema do Nino que se encontrava perdido no trilho e nos comandos do GPS, precisava de um novo briefing de um GPS que também eu não dominava. Mexe aqui, mexe acolá e desliga-me a chamada dizendo que está orientado novamente.

“Ok, vamos retomar o sono” – escolhe, a música de embalar preferida, fones novamente nos ouvidos e toca a tentar desligar novamente... até que... novo telefonema, perdido novamente!

Novo problema com os comandos do GPS e preocupação crescente da minha parte.. até que me diz que viu alguém no meio dos trilhos e que já se vai orientar! Ok, esperemos que seja agora! Durmo mais um pouco e recebo novo telefonema do Nino: “Estou a chegar!”, (yeaaah!). Acordo o Bruno Matias para uma longa jornada de 2 etapas seguidas e pego no Nino para seguirmos para uma residencial em Barranco do Velho onde já dorme o Judas.

Duas camas, duas pessoas mortas (a seleção foi fácil), sobra um tapete num chão frio de azuleijo. Entro para dentro do saco cama, retomo a música de embalar e tento descansar!

Pelo meio dia de sexta feira encontro-me em Benafim a aguardar a chegada do Bruno. A etapa dele correu bem, dentro do tempo previsto e eu preparo-me para iniciar a minha prova (iria fazer 2 etapas e cerca de 55Km com pouco desnível). A adrenalina já está bem alta.. olho no mapa e vejo onde se encontram os adversários. A vontade era de sair a “sprintar” (???) para apanhar todos! Juízo na cabeça, foca-te é nos franceses que estão a 4Km (e o que eu gosto de franceses!). Meto a quinta velocidade e vou a abrir (a andar abaixo de 04:30/min numa etapa de 50K??!!!) até que apanho o francês a meio da primeira etapa.. ele ia a andar e eu... a rasgar!!

Chegado a Messines bem antes do tempo previsto aproveito para comer alguma coisa e descansar rapidamente antes de arrancar para uma etapa que se revelou bastante monótona apesar de bonita.

Cerca de 3h30 depois lá chego a Silves pelo sentido contrário (o GPS do relógio enganou-me na entrada da cidade) para passar o testemuhno ao Judas.

Seguiram-se algumas horas de descanso e viagens antes de entrar novamente em prova pelas 04:00 para fazer 36K. Recebo informação que o Bruno, antes de mim, vai chegar juntamente com o elemento de outra equipa “adversária”.

Decido encontrar um ritmo comum e fazer parte da etapa seguinte juntamente com o elemento da outra equipa. Conseguimos vencer os latidos dos cães e as casas obscuras no meio dos trilhos e da escuridão em conjunto.

A chegada a barão de São João não foi feita sem mais um pequeno engano e uma volta adicional à povoação!

As recordações que ficam são a beleza dos trilhos e da paisagem, o espírito de sacrifício dos atletas e todo o companheirismo e sentimento de partilha como se de uma família se tratasse (e não será mesmo uma família?).

A melhor forma que tenho de agradecer é a de prometer repetir a experiência em 2019 (em formato estafeta? Acho que sim, ainda!)

ALUT, até para o ano!

 

Bruno Matias 

O desafio começou quando o João Meira me identificou num passatempo da running magazine, pouco antes de me telefonar a informar que, caso ganhasse, teríamos de ir fazer o ALUT em estafeta. Na verdade não lhe dei grande importância... Pensava eu que não tinha sorte e que não iríamos a ALUT algum! Passados uns dias, mais uma chamada do João Meira, desta vez a pedir-me os dados para a inscrição na prova.

Depois de uma reunião onde conheci o Judas e o Nino, definimos o plano com as primeiras etapas que cada um iria fazer. Depois, no terreno, veríamos o estado anímico de cada um aí decidíamos a estratégia da equipa. 

A minha prova iniciou no Cachopo, mal o Nino chegou. Desci um pouco em direção a igreja e mais à frente ia uma atleta a solo, que só depois descobri ser a Patricia Carvalho que ficou em 2º lugar. Logo na parte inicial da etapa e até me adaptar ao GPS (foi a primeira vez que o usei em prova) fui chamado algumas vezes por ela pois tinha optado ir pelo trajeto errado… até Barranco do Velho foi um sobe e desce constante, cruzando-me com alguns dos atletas a solo, uns mais desgastados que outros é claro, aproveitei para apreciar as belas paisagens ao nascer do dia conseguindo ainda comer meia dúzia de medronhos apanhados da árvore J

Logo de seguida, Barranco do Velho – Benafim, já mais cansado, mas era quase sempre a descer… Pelo menos até Salir, que já conhecia do UTRP. Já com as pernas cansadas a ultima subida antes de Benafim foi feita a andar e em ritmo controlado, aproveitando assim para recuperar e conseguir correr, a bom ritmo, os quilómetros finais antes da Base de Vida.

Depois de um banho de água quente, uma refeição e um café (não é doping, certo?) na Base de Vida, rumei a Monchique onde cheguei primeiro que o João Oliveira mas… fui de carro, é claro! A viagem até lá foi triste e melancólica, pois esta tudo muito queimado dos incêndios deste Verão, mas ao mesmo tempo muito inspiradora, pois já se vê a natureza verdejante a ressuscitar de entre todos aqueles montes negros. Lá dormi até por volta das 23 horas, hora prevista da chegada do Judas. Arranquei logo que consegui juntamente com o elemento da equipa LouleGest, inicialmente por caminhos sempre a subir onde passamos pelo Convento de Nossa Senhora do Desterro e depois até quase à Fóia por estradão. A seguir foi sempre a descer por estradão ainda, até chegarmos juntos a Marmelete. Durante estes 16 quilómetros ainda me conseguir enganar pelo menos 4 vezes no trajeto, faz parte deste tipo de provas, estes erros de navegação devem ser minimizados para não se perder tempo no vai e vem dos enganos, e é sem dúvida um ponto a melhorar.

Entreguei o testemunho ao Meira e de seguida vinha a minha última e penúltima etapa da prova. Depois de uma sesta de 2 horas iria fazer apenas 23 quilómetros na ligação Barão de São João a Vila do Bispo, etapa esta que se iniciou com uma ligeira subida, que na sua maioria foi feita em estradão a no melhor ritmo que consegui. Ao avistar civilização imaginei ser Vila do Bispo, pensei que já esta quase a chegar e que  num ápice estaria já a descansar, quando dei conta estava a atravessar a estrada nacional 125 e contornar a vila pelo lado sul... e ainda tive de fazer o resto dos quilómetros que faltavam para fechar esta etapa, os trilhos realmente podem ser enganadores.

Para finalizar, não poderia deixar passa esta oportunidade e não agradecer à Running Magazine, ao Meira, ao Judas e ao Nino pelo convívo, pela entrega e pelo espírito de sacrifício nestes dias de aventura. Queria ainda deixar a minha palavra de apreço à organização a e todas a pessoas que deram apoio durante a prova, estão de parabéns!

OBRIGADO e até 2019.

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